Erika Hilton, 1ª vereadora trans de SP: “Marginalização não é uma escolha, é uma sentença”

Alvo de ameaças, a parlamentar falou, em entrevista ao Metrópoles, dos desafios de ocupar uma cadeira na Câmara Municipal de São Paulo

atualizado 08/02/2021 10:12

Caio Barbieri entrevista Erika HiltonReprodução

Em entrevista ao Metrópoles, a vereadora Erika Hilton (PSol), falou dos desafios de ocupar uma cadeira na Câmara Municipal de São Paulo. Eleita com mais de 50 mil votos — o maior montante conquistado por uma mulher em todo o país no pleito legislativo de 2020 — ela é a primeira vereadora trans da maior cidade do país.

Alvo de ameaças — tanto nas redes sociais quanto nos corredores da Câmara — Erika disse não sentir medo. “Eu tenho receio. Medo não é a palavra. Eu venho de uma trajetória e de uma vida marcada por muitos medos. E eu precisei ter coragem e ousadia para enfrentar todos eles. Inclusive, para chegar aqui viva. Eu tenho receio porque eu venho do partido de Marielle Franco, eu estou em um país que é o primeiro no mundo no assassinato de pessoas trans. Mas esse receio não pode servir para me paralisar”, afirmou.

“A Câmara Municipal é um espaço que reflete aquilo que é a sociedade brasileira. E a sociedade é racista, transfóbica, e misógina. Então, não é nada novo para mim. Agora, a ameaça em relação a minha integridade física, com pessoas me perseguindo, indo bater à porta do meu gabinete, isso é uma coisa que gera bastante preocupação”, disse (confira a partir de 6’50”).

“A coragem vem da necessidade de ocuparmos cada vez mais espaços, de escancararmos as portas dos legislativos, de escancararmos as portas da democracia e de fazermos valer aquilo que não são apenas pautas, mas são a nossa vida. Essas pautas tratam da nossa existência”, disse.

Sobre a relação com o prefeito de São Paulo, Bruno Covas (PSDB), Erika afirmou que “ainda é muito cedo para falar”. “Até o momento tem sido uma relação superficial. Os secretários têm nos recebido muito bem, mas ainda não dá para medir como vai ser.  A princípio, a relação tem sido tranquila. Mas eu não acho que ela deva continuar assim até o final da legislatura”, avaliou (10’20”).

Durante seu mandato, Erika disse que pretende defender diferentes bandeiras. Entre as quais, a educação. “É uma pauta muito cara e está direcionada às questões raciais e de gênero. Mas ela abrange toda cidade. E ela também trata de como serão as gerações futuras. Então, construir uma educação de qualidade, na cidade de São Paulo, é importante para mim”, apontou. A vereadora também listou outras prioridades como cultura, transporte, segurança pública e assistência social.

Na entrevista, a vereadora também falou da sua trajetória e da necessidade de recorrer a prostituição para sobreviver. “A marginalização não é uma escolha, é uma sentença social. Neste momento nós estamos em uma tentativa insana de construirmos saídas para essas realidades”, disse. Lembrou projetos já desenvolvidos por ela, como a criação de um cursinho pré-vestibular para pessoas transgêneras, transexuais, travestis e não binárias, e comentou a eleição de Arthur Lira (PP-AL) para a presidência da Câmara dos Deputados.

Confira a entrevista:

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