Em depoimento, João de Deus admite que fabrica e vende remédios

Composição era igual para todos os “pacientes”. Anvisa alerta que comercializar medicamentos sem registro é crime

Fernando Caixeta/MetrópolesFernando Caixeta/Metrópoles

atualizado 19/12/2018 12:13

Enviadas especiais a Goiânia (GO) – No depoimento de seis páginas que prestou na Delegacia Estadual de Investigações Criminais (Deic) de Goiânia (GO), ao qual o Metrópoles teve acesso, João Teixeira de Faria, o João de Deus, 77, admitiu que fabrica remédios em um laboratório na Casa Dom Inácio de Loyola, em Abadiânia (GO), Entorno do Distrito Federal. Eles são revendidos aos “pacientes” do centro espiritualista.

Não há receitas, mas um farmacêutico, segundo João de Deus. Perguntado qual a composição dos medicamentos, o médium respondeu: “Todos são iguais, mas a energia presente é a indicada para cada um dos frequentadores”.

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De acordo com João de Deus, a caixa com 10 comprimidos é comercializada por aproximadamente R$ 50 — o valor, no entanto, pode chegar a R$ 100. “Não tenho certeza do preço. No atendimento, não é repassada a receita. As orientações são repassadas pelo espírito, ou seja, não é de maneira escrita. Apenas atendo e oriento”, afirmou.

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Perguntado pelo advogado se ele coage as pessoas a comprar a medicação, disse que não existe qualquer imposição. Alguns até a adquirem mesmo sem “a orientação do espírito”. A força-tarefa da Polícia Civil e do Ministério Público de Goiás fez uma varredura no laboratório nessa terça-feira (18/12).

Por meio de nota, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) destacou que os medicamentos precisam ter o registro da instituição vinculado ao Ministério da Saúde. Quem age de forma contrária comete crime.

“A existência de alvará sanitário ou autorização para funcionamento são de responsabilidade da própria Vigilância Sanitária municipal ou estadual, que possuem autonomia administrativa e são vinculadas às respectivas secretarias de Saúde e responsáveis pela fiscalização e emissão dos respectivos documentos”, destacou o órgão.

Procurada pela reportagem, a Superintendência de Vigilância em Saúde de Goiás não havia se manifestado até a última atualização deste texto. A delegada Karla Fernandes, da Deic, informou nesta quarta-feira (19/12) que o laboratório possui alvará de funcionamento.

Depois da prisão preventiva de João de Deus, as cápsulas “energizadas” passaram a ser distribuídas gratuitamente. Funcionários da Casa Dom Inácio de Loyola afirmaram ao Estadão que a mudança foi determinada pelo próprio médium, que costumeiramente indicava o remédio manipulado para mais de dois terços dos frequentadores.

João de Deus disse também que na Casa Dom Inácio há lojas de cristais, imagens, rosários, “igual nas igrejas de Trindade (GO)”. Ele ainda afirmou que não faz mais cirurgias utilizando objetos cortantes. “Quem faz as cirurgias é Deus. Me considero um instrumento de curas.”

No primeiro depoimento prestado após ser preso, no dia 16 de dezembro, ele negou que tenha movimentado R$ 35 milhões em sua conta. “Desconheço essa movimentação. Apenas paguei alguns funcionários com cheques nominais. Mas não existe esse negócio de milhões”, assegurou o médium.

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Ele admitiu, porém, que tem muitos bens, como sete fazendas, todas em Goiás, e muitas casas. Não soube, no entanto, mensurar a quantidade de carros que possui.

Durante o depoimento, João de Deus negou que chame as pessoas para fazer atendimentos individualizados, como denunciam as vítimas. “São elas que me procuram”, destacou. Ele não se recorda da data, mas disse ainda que foi ameaçado antes de as acusações virem à tona.

Um homem teria dito, em um celular: “Olha, não desliga o telefone. Eu tenho 50 pessoas para acabar com você. Se você colocar 100, eu coloco 200. Se você aumentar isso, eu coloco mil. Vou acabar com você, seu filho da puta”.

Dom da mediunidade
João de Deus contou aos investigadores como percebeu que tinha o dom da mediunidade. Segundo ele, aos 8 anos, já devoto de Santa Rita de Cássia, rezava pela santa e previu que choveria entre Itapaci (GO) e Ponte Nova (MG) – e isso realmente ocorreu. “Foi o primeiro sinal”, disse.

Ele relatou ainda outro episódio, ocorrido quando tinha 16 anos. João de Deus afirmou que era procurado pela população, a qual lhe levava doentes mentais, muitas vezes amarrados. Mas, depois que ele fazia a “reza”, eles podiam ser soltos. “Recobravam a sobriedade”, assinalou.

No depoimento, o médium negou os abusos sexuais – são mais de 500 denúncias contra o líder espiritual. João de Deus está preso preventivamente no presídio de Aparecida de Goiânia, em Goiás. Na terça-feira (18/12), a Casa Dom Inácio de Loyola foi alvo de busca e apreensão.

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