
Eleições: brasileiros já votaram em bichos para protestar. Entenda
Como o sistema de votação era feito por cédula de papel, o eleitor poderia escrever livremente qualquer nome, o que permitiu

À época em que as eleições eram definidas pelo voto impresso, com o nome do candidato à caneta em cédulas de papel, brasileiros votaram em animais para protestar contra a classe política.
De 1959 a 1988, o rinoceronte Cacareco foi “eleito” vereador da cidade de São Paulo (SP), o mosquito da dengue “virou” prefeito em Vila Velha (ES) e o macaco Tião foi o terceiro mais votado para gestor municipal do Rio (RJ).
Como o sistema de votação era realizado por cédula de papel, o eleitor poderia escrever livremente qualquer nome, o que permitiu que o voto em bichos se transformasse em uma mensagem política. As candidaturas dos animais foram criadas e apoiadas por eleitores, o que sucedeu em votações em massa.
Apesar das escolhas inusitadas serem computadas como voto nulo, os papéis eleitorais eram contabilizados. Assim, foi possível saber quantos eleitores escolhiam aquele determinado animal e qual era o nível de insatisfação da população.
Entre no canal de WhatsApp do Metrópoles“Parece lenda, mas é fato, de que no Brasil, como forma de protesto, muitas e muitas vezes, a população, descontente com os rumos da política, com os escândalos, com denúncias de corrupção, com falta de candidatos sérios, expressavam esse descontentamento. Isso permanece. Hoje em dia,já de 30 anos pra cá, talvez um pouco mais, nós temos o êxito da urna eletrônica, e ela não permite mais que se escreva qualquer coisa”, afirmou Rubens Beçak, Professor de Direito Eleitoral da Universidade de São Paulo (USP).
Rinoceronte vereador
Revoltado com as denúncias de corrupção que cobria diariamente e com as péssimas condições de vida da população, o jornalista paulistano Itaboraí Martins lançou a “candidatura” do rinoceronte Cacareco para vereador na Câmara Municipal da cidade.
O animal, que era do sexo feminino, recebeu mais de 100 mil votos, superando todos os outros 540 candidatos e até mesmo o partido mais votado naquela ocasião, que não alcançou 95 mil votos.
Segundo o Museu de Anatomia Veterinária (MAV) da USP, Cacareco veio do Rio de Janeiro para ser a principal atração da inauguração do Zoológico de São Paulo. Com o tempo, o bicho se tornou “xodó” da população paulistana.
“Era um animal exótico, não presente na fauna das Américas, que caiu nas graças do público e teve um forte apelo midiático”, analisa o professor Rubens Beçak.
Cacareco morreu em 1962, aos 8 anos, e seus fósseis estão preservados no MAV para fins educativos.
Mosquito “venceu” para prefeito em Vila-Velha
Em 1987, o município de Vila Velha (ES), passou por uma crise sanitária, com o saneamento básico e infraestrutura crítica na maioria dos bairros, o que sucedeu no aumento de casos de infecção da população.
Como forma de resposta ao poder público local o “candidato” mais votado para comandar a prefeitura foi o mosquito da dengue.
O Aedes aegypti foi registrado em 29.668 cédulas de papel. Com a anulação dos votos do inseto, Magno Pires (PT) foi eleito prefeito, com 26.633 votos.
“O mosquito deixava de ser apenas um vetor da doença para virar um personagem político. Foi uma maneira irônica do eleitor afirmar que o mosquito parecia mais presente na vida dos moradores do que a própria administração pública. O humor serviu como linguagem de crítica, e não como ausência de interesse pela política”, destaca João Paulo dos Santos, doutorando em História Social das Relações Políticas pela Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes).

Receba no seu email as notícias de Boletim Metrópoles
Frequência de envio: Diário
Ver todasMacaco Tião teve 400 mil votos no Rio
Nas eleições municipais do estado do Rio de Janeiro, em novembro de 1988, a população carioca promoveu um dos maiores protestos políticos do país ao destinar 400 mil votos para o Macaco Tião.
Tião era um animal querido no zoológico do Rio, conhecido por seu comportamento provocador, costumando arremessar lama e fezes nos visitantes. A candidatura do chimpanzé foi lançada de forma satírica pela revista Casseta Popular sob o fictício “Partido Bananista Brasileiro”.
À época, ocorreu em um cenário de forte pulverização partidária — com 14 candidatos a prefeito — e de profunda crise socioeconômica, marcada pela hiperinflação. Tião alcançou a marca de cerca de 400 mil votos para a prefeitura e ficou em terceiro lugar na disputa.
“Havia uma enorme expectativa com a democracia, mas também frustração com a economia e com a incapacidade dos governos de responder aos problemas cotidianos. O sucesso da campanha do Macaco Tião condensou uma crítica à classe política em um contexto de baixa confiança nas instituições, transformando esse descontentamento em um gesto político visível nas cédulas”, disse a professora Mayra Goulart, do Instituto de Filosofia e Ciências Sociais (IFICS).
Com a introdução da urna eletrônica na década de 1990, a escrita em cédulas foi extinta, e encerrou o “voto bicho”. Atualmente, o protesto do eleitorado se restringe às opções de branco, nulo, abstenção.













