Lula proporá a empresários negociações para “novo pacto trabalhista”

A ideia, inspirada na Espanha, é abrir uma mesa de negociações na qual estejam representantes dos trabalhadores e dos setores produtivos

atualizado 05/04/2022 8:29

Ex-presidente Lula participa de encontro Internacional Democracia e Igualdade na UERJ, durante passagem de compromissos políticos no Rio.Aline Massuca/Metrópoles

O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que será lançado candidato do PT à Presidência da República, vai propor, em seu programa de governo, a abertura de uma mesa de negociações envolvendo sindicatos, representantes do setor empresarial e membros de um eventual futuro governo. A ideia, inspirada no modelo adotado pelo atual governo da Espanha, é abrir negociações prévias antes de se enviar para o Congresso uma proposta de mudança na atual lei trabalhista.

A proposta, tal como está sendo desenhada, segue a tentativa de Lula dialogar com setores industriais. O petista garante que não haverá razão para sustos ou temor dos empresários quanto a uma futura contrarreforma trabalhista em seu governo, visto que nada será enviado para votação no Legislativo sem antes passar por negociação prévia.

Além disso, o modelo exige dos sindicatos e das centrais uma certa união da pauta de reivindicações.

O modelo foi objeto de discussão na Fundação Perseu Abramo, com a participação de praticamente todas as centrais sindicais e da vice-presidente da Espanha, Yolanda Díaz, que também é ministra do Trabalho e Economia Social. Na ocasião, Yolanda Díaz expôs o processo de mudança ocorrido em seu país para mudar uma legislação que, desde 2012, retirava direitos trabalhistas e rebaixava salários.

“Um discurso dirigido apenas para nós, ideologizados, apesar de apaixonante, não nos levaria a lugar algum. Se as ruas não nos seguirem, estaremos mortos”, disse a ministra, após o encontro.

A construção dessa mesa de diálogo constará, segundo o PT, do programa de Lula.

“O que foi importante na Espanha? Eles chamaram os empresários, os sindicatos de trabalhadores e iniciaram uma negociação para ver onde era possível avançar. Só depois é que foram para o Congresso. É claro que nessa negociação é preciso se ter previsibilidade, precisa se ter transparência, ter lealdade na negociação”, diz o presidente da fundação, Aloizio Mercadante, que tem conduzido essa fase de conversas com as classes trabalhadoras e é quem vai coordenar o programa de governo de Lula.

“Quando se constrói de baixo para cima uma norma, pactuada entre empresários e trabalhadores, ela tem o potencial de ser muito mais longeva do que quando se impõe de cima para baixo, porque aí muda a correlação de forças”, pondera o ex-ministro.

“Para ser duradoura, para ser sólida, precisa vir da negociação, e que seja um novo sistema de negociação coletiva no qual o trabalho volte para o centro da democracia. É um grande desafio com a transição digital, com esse aumento da produtividade, das plataformas digitais. É preciso colocar o trabalho no centro do debate. É esse o nosso esforço, e é a proposta do Lula”, destacou Mercadante.

“Qual é o novo?”

Nesse início de semana, Lula apontou, em conversa com sindicalistas da Central Única dos Trabalhadores (CUT),  a necessidade de se unificar a pauta e modernizar a forma de se comunicar dos sindicatos.

O evento teve o propósito de entregar a Lula as reivindicações da entidade. O petista recebeu, mas deixou o recado de que é necessária articulação com as demais entidades “neste momento difícil” pelo qual o Brasil passa. As outras centrais sindicais ficaram incomodadas com o protagonismo da CUT.

“Pelo amor de Deus, o movimento sindical tem que dizer qual é o novo que a gente deseja”, disse Lula. “É muito importante fazer com que as propostas, a pauta unificada da classe operária, sejam de conhecimento de toda sociedade”, enfatizou.

“Embora eu tenha dito que a gente vai tentar mudar e destruir a reforma que eles fizeram, nós não queremos a volta ao passado. Então a tarefa de vocês é produzir o que é o novo que vocês desejam”, destacou Lula no diálogo com os sindicalistas da CUT.

“Jogo de narrativas”

O petista ainda apontou a competência de Bolsonaro e dos setores mais conservadores em criar narrativas que endossam as perdas de direitos dos trabalhadores.

“Se é novo, ainda não está no cenário. Se é novo, muita gente ainda não conhece. Então, é preciso escrever esse novo, para que a gente comece a criar uma narrativa sobre as mudanças que a gente quer. Tudo no mundo acontece com a construção de narrativa. Se você acertar na narrativa, você ganha o jogo. Se você errar na narrativa, você perde o jogo. E nós temos perdido muito jogo, porque os adversários têm feito as narrativas mais rápidas e mais acertadas que as nossas”, disse o ex-presidente.

“Como é que a gente vai convencer o cara do Uber de que ele não é um empreendedor? Que ele é quase que um escravo nos tempos modernos, porque ele não tem quase que direito nenhum? Como a gente vai construir essa narrativa? Como a gente vai construir a narrativa para acabar com o trabalho intermitente?”, questionou o petista.

Centrais

As respostas das centrais sindicais ao apelo do ex-presidente ocorrerão até a próxima semana. A partir do dia 7 de abril, as entidades se reunirão na Conferência da Classe Trabalhadora (Conclat-2022), em São Paulo.

No dia 13 de abril, o documento será entregue a Lula em reunião com os presidentes de cada entidade.

Empresários

O diálogo da campanha com a classe empresarial ainda precisa ser melhor azeitado, avaliam os petistas, e as declarações de Lula sobre mudanças nas leis trabalhistas feitas durante o governo de Michel Temer ainda são um assunto árido que o PT espera vencer com a proposta de negociação prévia.

Nesta semana, o início da tarefa de explicar o plano de Lula aos empresários ficou a cargo da presidente do PT, Gleisi Hoffmann, que participou, na segunda-feira (4/4), de um jantar a convite do grupo empresarial Esfera Brasil.

O grupo é liderado pelo empresário João Carlos Camargo, um dos sócios do grupo 89 Investimentos, gestora de recursos. O encontro com a presidente do PT é mais um evento realizado pelo Esfera Brasil, com o objetivo de aproximar lideranças políticas do setor privado.

O apoio do grupo é disputado por políticos. Na semana passada, o ministro da Economia, Paulo Guedes, pediu respaldo desses empresários para uma reforma administrativa, e disse que essa ideia poderia atrair votos para Jair Bolsonaro (PL).

Outro empresário, que será buscado pela campanha petista, é o atual presidente da Fundação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), Josué Gomes da Silva, dono da Coteminas e filho do ex-vice-presidente José Alencar, que morreu em março de 2011.

Gomes, na concepção de petistas, poderá ter um papel importante no diálogo com a classe industrial sobre as negociações prévias trabalhistas. Economistas do grupo da Fiesp já foram procurados, e a intenção é formalizar um encontro dele com Lula nas próximas semanas.

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