De oásis a inferno. Vizinhos não podem “discordar” de Bolsonaro

A vida pacata no condomínio onde mora o presidente eleito foi radicalmente transformada. Os poucos petistas não são mais bem vistos

Ana Beatriz Magno/MetrópolesAna Beatriz Magno/Metrópoles

atualizado 28/10/2018 21:23

Ser vizinha de Jair Bolsonaro neste domingo (28/10) foi morar no paraíso para eleitores do “mito” e no inferno para quem rejeita as ideias do militar. O endereço, outrora pacato oásis de tranquilidade no meio do Rio de Janeiro de violência, ganhou os holofotes do Brasil e se transformou no ponto de encontro de uma multidão de eleitores do capitão. Desde cedo, seguidores do militar se acotovelavam nas calçadas e comemoravam com fogos de artifício e palavras de ordem a iminente vitória do presidenciável.

Das 150 casas do Vivendas da Barra, apenas quatro têm eleitores declarados ao candidato do PT e somente uma passou os últimos dias com uma bandeira vermelha no jardim – curiosamente, há menos de 10 metros, do outro lado da rua, há dois pichulecos de Lula pendurados numa janela.

“Somos minoria absoluta aqui dentro e só descobrimos isso durante o processo eleitoral. Tem sido muito difícil”, conta um dos moradores, professor universitário, 46 anos, indignado com as reações dos vizinhos com seus três filhos, uma menina de 6 anos e dois adolescentes que não dispensam o adesivo 13 no peito.

“Hoje estava andando de bicicleta com minha filha pequena. Ela perguntou se podia passar na frente da casa de Bolsonaro. Eu disse que sim e uma vizinha que conhece nossa opção política se meteu na conversa e disse ‘menina, para ir lá na casa do presidente tem que votar nele’. Minha filha, tadinha, olhou para mim assustada”, conta o professor.

O Vivendas da Barra é um condomínio antigo, com ruas sem saída, casas sem muros. Todos se conhecem, a maioria desde a infância. “Tenho o maior orgulho de ser vizinha do Bolsonaro”, conta uma moradora da mesma rua do capitão, a C, onde quase todos os moradores passaram o domingo de camiseta amarela e fazendo churrasco. “É o churrasco da vitória. Vamos ganhar de lavada”, previa outra vizinha, comerciante, e moradora da casa ao lado da de Bolsonaro – lá também havia churrasco.

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“Bunker”
A segurança do condomínio, antes feita apenas por vigilantes de bicicletas não-armados, agora é totalmente controlada pela Polícia Federal. A casa do vereador Carlos Bolsonaro, filho de Jair e que também mora no condomínio, passou a abrigar dois blindados do Batalhão de Operações Especiais da Polícia Militar, o Bope. A Polícia Federal alugou uma casa. A empresa Vigban também foi contratada para zelar pela entrada do Vivendas – o serviço está sendo realizado de graça, informa a administração do condomínio.

Os moradores são, em geral, famílias de classe média alta. Cada casa custa cerca de R$ 2 milhões e o maior atrativo – fora a vizinhança do presidente eleito – é a proximidade de uma praia de águas limpas, numa região ainda com indicadores baixos de violência. Bolsonaro mora no Vivendas há menos de 10 anos. Sua casa é simples, de dois andares, sem muros. Na manhã de domingo (28/10), sua filha Laura jogava vôlei no meio da rua com um coleguinha, entre os atentos policiais.

Foi um domingo agitado, com muitos fogos, visitantes e presentes para o candidato na portaria, incluindo rosas brancas e dois livros – um deles A Obra Consumada, uma espécie de auto-ajuda neo-pentecostal, e outro, Sócio do Filho, de Marco Vitale, sobre os negócios do filho do ex-presidente Lula.

“Todo dia chega uma montanha de presentes para ele. É impressionante. Não estávamos acostumados a isso. Antes, a pessoa mais famosa aqui dentro era a cantora Rosemary, da Jovem Guarda”, conta um dos porteiros, que, em seguida, pede a uma moradora adolescente, toda vestida de vermelho, com adesivos de Haddad, que saia da grade na entrada do condomínio.

“Você é minoria aqui, menina. Volta para casa. Não arranja confusão. Depois vai ser xingada, até porque não falta razão para ser xingada, e vai ficar chorando”, avisa um morador. “Poxa, você era meu amigo”, rebate a menina.

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