Brasil, mostra a tua cara: Bolsonaro ou Haddad?
No 2º turno, eleitores decidem se país será dirigido por ex-capitão conservador ou por professor progressista ligado a Lula

Os votos registrados nas urnas neste domingo (28/10) levam o Brasil para uma decisão histórica. Na oitava disputa presidencial desde o fim da ditadura, os eleitores pela primeira vez escolhem entre um militar da reserva, representante dos quarteis, e um civil com trajetória vinculada à redemocratização.
Deputado federal por sete mandatos e capitão reformado do Exército, o candidato Jair Bolsonaro (PSL) resgata os militares para o cenário político nacional. Fernando Haddad (PT) simboliza a reafirmação do poder civil instalado em 1985 com a posse de José Sarney no Palácio do Planalto.
As eleições de 2018 marcam, também, o fim da polarização entre petistas e tucanos. O PT e o PSDB rivalizaram pelo comando do país entre 1994 e 2014, mas o PSL quebrou a dicotomia lançando Bolsonaro para a Presidência da República.
Ao escolher um dos candidatos, os eleitores indicam o modelo preferido de governo para os próximos quatro anos. Como se atendesse ao verso imperativo de Cazuza na música Brasil, de 1988, o país mostra sua cara neste 28 de outubro.
Caminhos opostos
Mais do que nas disputas anteriores, as duas opções refletem trajetórias pessoais e políticas distintas. Filiado ao PT desde 1983, Haddad iniciou a militância partidária nos últimos anos de luta pelo fim da ditadura. Engajou-se no movimento estudantil da Universidade de São Paulo (USP), abraçou a vida acadêmica. Nos governos de Luiz Inácio Lula da Silva e Dilma Rousseff, foi ministro da Educação e, em 2012, elegeu-se prefeito de São Paulo.
A ascensão de Haddad na política nacional tem relação direta com Lula. Foi do ex-presidente a ideia de tirá-lo da Educação para concorrer ao Executivo paulistano. Também partiu do líder petista a decisão de ungir o pupilo para a cabeça de chapa na corrida ao Planalto de 2018.
Preso em Curitiba (PR) após condenado em segunda instância no âmbito da Operação Lava Jato, Lula sustentou até o início de agosto a intenção de concorrer à sucessão de Michel Temer. Com o indeferimento do registro de sua candidatura pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE), o ex-presidente apontou Haddad como substituto e Manuela D´Ávila para a vaga de vice.
Lula liderava as pesquisas eleitorais, perto dos 40% nas preferências dos brasileiros, quando perdeu o direito de disputar a corrida presidencial. Ao assumir o lugar do padrinho político, Haddad herdou parte considerável do potencial de votos do PT, mas recebeu também a carga negativa deixada pelo partido em 13 anos no poder federal.
Haddad subiu rapidamente nas pesquisas logo depois do lançamento da candidatura. Mas, passadas algumas semanas, sofreu o impacto do antipetismo e dos ataques dos seguidores de Bolsonaro nas redes sociais, em particular, pelo aplicativo WhatsApp.
Apoiado por expressivos setores das igrejas evangélicas, o candidato do PSL explorou temas comportamentais, como homossexualidade e prática de aborto, para conquistar apoios da parcela mais conservadora da população. A campanha do ex-capitão insistiu, por exemplo, em atribuir a Haddad a iniciativa de propor a distribuição de kits gay em escolas públicas.
O militar reformado usou contra o adversário as ligações históricas do PT com organizações comunistas e governos esquerdistas, como o da Venezuela. O envolvimento do partido com corrupção permeou toda a campanha do presidenciável do PSL.
Apuradas as urnas do primeiro turno, o ex-ministro da Educação ficou em segundo lugar, com 29% dos votos, atrás de Bolsonaro, com 46%. O resultado consolidou a liderança do peesselista na preferência dos brasileiros e mostrou a dificuldade para o petista chegar ao Palácio do Planalto.
Linha dura
O deputado federal tinha a expectativa de vencer a disputa no dia 7 de outubro, mas precisou adiar os planos. Na campanha do segundo turno, ele liderou todas as pesquisas de intenção de voto até a véspera da decisão final.
Caso confirme, neste domingo (28), a superioridade sobre o petista, Bolsonaro será responsável por devolver às Forças Armadas parte do protagonismo perdido com o fim ditadura. Mais que isso, a chegada do outrora capitão do Exército ao Planalto significará o retorno ao centro do poder do pensamento predominante na linha dura dos Anos de Chumbo.
Durante os 21 anos de regime autoritário, a cúpula militar se dividiu entre dois grupos principais. Um deles, liderado pelo primeiro presidente empossado pelo golpe de 1964, marechal Humberto de Alencar Castelo Branco, reuniu oficiais mais moderados e, a partir de meados da década de 1970, executou a abertura política que permitiu a redemocratização do país. Os presidentes Ernesto Geisel e João Figueiredo fizeram parte desse núcleo.
A outra ala, encabeçada pelo sucessor de Castelo Branco, marechal Artur da Costa e Silva, patrocinou a atuação repressiva mais sangrenta contra os opositores e ficou conhecida como linha dura. Essa banda das Forças Armadas perdeu o poder em 1977, quando o então presidente, Ernesto Geisel, demitiu o ministro do Exército, Sylvio Frota, que se movimentava para tornar-se presidente e manter a atuação dos radicais de extrema-direita.
Na lista de abusos cometidos por este grupo – e acobertada pelos superiores – estão a prática de tortura, desaparecimento de corpos e a explosão de bombas para conturbar a abertura política. No topo da hierarquia que patrocinou a fase mais sangrenta dos governos militares estiveram o presidente Emílio Garrastazu Médici e os três integrantes da Junta Militar que sucedeu Costa e Silva, o general Aurélio de Lira Tavares, o almirante Augusto Rademaker e o brigadeiro Márcio de Sousa Melo.
A defesa incondicional da ditadura, da tortura e da morte de opositores aproxima Bolsonaro da linha dura das Forças Armadas. Na hipótese de vitória do capitão reformado, então, pode-se dizer que o grupo mais radical dos militares, identificado com a extrema-direita dos Anos de Chumbo, retornará ao poder depois de derrubado por Geisel em 1977.
Mais de quatro décadas após o afastamento de Frota – e 35 anos depois do fim dos governos fardados, os militares se preparam para ocupar outra vez postos chaves do governo federal. Em 1985, a ditadura acabou pressionada pela população nas ruas, por uma grave crise financeira e por uma inflação galopante que somente foi controlada, 10 anos depois, com a implantação do Plano Real no governo Itamar Franco.
Impopular e desmoralizado pelo fracasso de seu governo, João Figueiredo recusou-se a passar a faixa presidencial ao sucessor, José Sarney, a quem acusava de traição por deixar a base do governo para se aliar à oposição. Se os militares atuais estudaram este período com a devida atenção, caso Bolsonaro se eleja, eles saberão que a ditadura foi traumática e desgastante não somente para a sociedade civil, mas também para as Forças Armadas, que saíram do poder muito menores do que entraram.
Como o país hoje vive em uma democracia, apesar de todos os percalços, a decisão sobre o retorno dos militares ao poder cabe a quase 15 milhões de brasileiros. Nos Anos de Chumbo, a escolha era feita pela cúpula de marechais e generais.


