Análise: vem aí o governo Jair Bolsonaro, pela vontade das urnas

Com a população dividida e a oposição mobilizada, o futuro presidente tem o desafio de construir consensos políticos para comandar o país

atualizado 29/10/2018 15:44

Pela vontade de 57 milhões de brasileiros, o capitão reformado Jair Bolsonaro (PSL) subirá a rampa do Palácio do Planalto no dia 1º de janeiro de 2019 para suceder Michel Temer. Vencedor do segundo turno contra Fernando Haddad (PT), o futuro presidente obteve os quatro anos de mandato dentro das regras democráticas. Dele, espera-se, portanto, um governo enquadrado pela Constituição de 1988.

O resultado da eleição projeta mudança significativa na política brasileira. Situado na extrema-direita do espectro ideológico nacional, Bolsonaro altera a correlação das forças que disputam o poder no país. Protagonistas nas últimas décadas, partidos como MDB, PT e PSDB terão de ceder espaço para aliados do próximo presidente, parte deles concentrada no PSL.

A legenda de Bolsonaro conquistou 52 vagas na Câmara federal, a segunda maior bancada – inferior apenas à do PT, com 56. Essa realidade força o surgimento de novos líderes e o consequente enfraquecimento de antigos nomes de peso no Congresso.

Sob a influência de Bolsonaro e com grande renovação das cadeiras, pode-se prever maior participação do baixo clero nas decisões do Parlamento. Formado por congressistas de menor expressão política, esse grupo ganhou relevância nas últimas legislaturas e tende a aumentar a interferência na cúpula da Câmara e do Senado.

Deve-se esperar também novo perfil de ministros na Esplanada e de assessores presidenciais. Para começar, é certa a ascensão de número expressivo de militares para os primeiros escalões do governo. Mas, apesar da retórica contra a política do presidente eleito, a composição da futura equipe também terá parlamentares. Está definido, por exemplo, que o deputado federal Onyx Lorenzoni (DEM-RS) será o ministro-chefe da Casa Civil.

Nas próximas semanas, os brasileiros saberão se Bolsonaro, de fato, vai montar uma equipe sem fazer loteamento de cargos com os partidos. Dependente do Congresso para aprovar leis e mudanças na Constituição, o presidente precisará negociar com os políticos para administrar o país.

Desafios
Sem experiência de governo e com pouco prestígio na cúpula do Congresso, apesar de sete mandatos de deputado federal, o presidente eleito ainda terá de provar capacidade de liderar uma mobilização política suficiente para recolocar o Brasil no caminho do desenvolvimento.

Apesar da vitória folgada sobre Haddad, Bolsonaro também terá o desafio de aprender a lidar com a oposição. Mesmo minoritárias, as bancadas parlamentares terão força para incomodar e, em muitos casos, atrapalhar o futuro governo.

No Senado, por exemplo, o MDB permanecerá isoladamente como a maior bancada, com 12 representantes. Nome mais forte do partido, o matreiro Renan Calheiros (AL) conquistou mais oito anos de mandato e, em uma amostra de como pretende agir, avisou que o governo Bolsonaro vai “fazer água” no segundo semestre de 2019.

Nas ruas, o futuro presidente encontrará dificuldades para manter a mobilização da corrida ao Planalto e das comemorações da vitória. Mesmo derrotada, parte importante da esquerda juntou-se a Fernando Haddad na campanha em torno de bandeiras frontalmente contrárias às propostas de Bolsonaro, como a defesa de direitos humanos, de minorias e da universidade pública.

A adoção dos livros como símbolo da campanha presidencial do petista, por exemplo, inspirou eleitores a levarem exemplares para a votação. Em um país com educação precária – mais um desafio para o próximo chefe de Estado –, essa parece uma maneira eficiente para chamar a atenção dos futuros governantes.

Papel da oposição
Para as forças políticas vencidas pelo candidato do PSL, os próximos anos serão de reflexão pelos erros cometidos e de reorganização das estratégias. A subordinação da campanha de Haddad ao ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva mostrou-se um equívoco anunciado, pois todas as pesquisas apontavam dificuldades para um petista ganhar de Bolsonaro no segundo turno.

Mesmo assim, Lula insistiu em manter controle da disputa ao Executivo nacional. Como consequência de sua vontade, Haddad só foi lançado candidato no início de agosto e, na prática, o tempo disponível até os dias de votação revelou-se insuficiente para o ex-ministro da Educação ultrapassar Bolsonaro. Desta vez, a estratégia do líder máximo do Partido dos Trabalhadores fracassou.

Embora o candidato do PT tenha obtido 47 milhões de votos, a aliança em torno dele não conseguiu agregar apoios suficientes para vencer a eleição. Assim, o país viu a direita ideológica voltar ao poder depois de mais de três décadas afastada.

Por fim, espera-se do presidente eleito postura menos belicosa do que a adotada como deputado e na campanha. O estímulo ao uso de armas e as ameaças físicas a adversários incentivam a violência dos seguidores de Bolsonaro.

Nesse caminho, certamente, o Brasil não obterá o consenso mínimo necessário para avançar na política e resolver os problemas da economia. O capitão reformado terá, nos próximos quatro anos, a tarefa de acalmar os ânimos da população e fazer o país crescer. Pela forma com que chegou ao Palácio do Planalto, essa parece ser uma das missões mais difíceis para o futuro presidente.

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