Ipea: 96,6% dos alunos sem acesso à internet no Brasil são da rede pública

Seis milhões de brasileiros que se matricularam em 2018 não têm acesso à rede banda larga ou móvel – 5,8 milhões são do ensino público

atualizado 05/09/2020 15:12

Na farsa praticada por meio do WhatsApp, o link compartilhado encaminha o consumidor para uma página falsaMARCELLO CASAL JR/Agência Brasil

Dos estudantes brasileiros – da pré-escola à pós-graduação – que não têm acesso em casa à internet em banda larga ou à rede móvel 3G ou 4G, 96,6% são da rede pública de ensino.

No total, 6 milhões de estudantes não dispõem de acesso domiciliar à web para acompanhar as aulas. Desses, cerca de 5,8 milhões frequentam instituições públicas.

Isso é o que revelam dados compilados pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea). Os técnicos analisaram o ensino remoto durante a pandemia de Covid-19.

O problema se concentra entre os alunos dos anos iniciais e finais do ensino fundamental, bem como da pré-escola. Na graduação e pós-graduação, a falta de acessibilidade é menor.

No ensino fundamental, foram realizadas 27,2 milhões de matrículas em todo o país em 2018. Dessas crianças, 4,4 milhões não dispunham de acesso domiciliar à internet.

Cerca de 200 mil estudantes que se matricularam no ensino fundamental e não tinham acesso à banda larga ou rede móvel são de escolas particulares, segundo o Ipea.

A diferença reflete, em parte, segundo o pesquisador Paulo Meyer Nascimento, um dos autores do estudo, a concentração da provisão de educação básica no Brasil.

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Mais de 80% das matrículas estão em escolas públicas. “Há, contudo, proporcionalmente mais estudantes sem acesso à internet estudando nesses estabelecimentos”, diz.

“Um pra seis”

Moradora do Varjão, no Distrito Federal, a catadora de material reciclável Ana Paula, 35 anos, tem seis filhos que estudam. Eles dividem, contudo, apenas um celular.

As crianças têm entre 5 e 16 anos. “Um professor da escola que conseguiu um celular para meus meninos, mas minha maior dificuldade é que a internet cai direto”, conta a mãe.

Ana Paula está desempregada desde março. Ela não conseguiu voltar a trabalhar, pois tem um bebê de 9 meses com problema no coração, o que o colocou no grupo de risco da Covid-19.

O dinheiro que ganha do auxílio emergencial serve apenas para comprar comida e pagar as contas essenciais. Ela não vê chances de comprar outro celular.

“A dificuldade é muito grande, ainda mais para quem tem muitos filhos. Às vezes, a escola não compreende e não imprime as tarefas”, exemplifica a catadora de material reciclável.

“Eu fiz um trabalho com meu filho em que eu tinha que tirar foto da cidade e imprimir. Deu muito trabalho e a gente não fez porque não tinha dinheiro para a impressão”, conta.

Ações

As estimativas do Ipea indicam um custo aproximado de R$ 3,8 bilhões para a aquisição de chips de dados, celulares, tablets e kits de conversão à TV digital para universalizar o ensino a distância.

Esse montante equivale, por exemplo, a quase três vezes o total destinado em 2020 para a aquisição de livros didáticos pelo Programa Nacional do Livro Didático, segundo o Ipea.

Na avaliação de Nascimento, é preciso avançar nas políticas de acesso à internet e a tecnologias para promover o ensino remoto no atual contexto da pandemia de Covid-19.

“O diagnóstico mostra a necessidade de aprimorar políticas públicas para que esses estudantes permaneçam estudando, mesmo afastados fisicamente do ambiente escolar”, afirma.

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