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Aos 61 anos, Silvio Souza da Silva poderia estar curtindo a aposentadoria. Apesar de ter se retirado do serviço público, ele não acorda na hora em que o sono acaba nem se demora tomando o café da manhã enquanto lê jornal. Não usa os dias úteis para fazer caminhadas, pagar contas na boca do caixa no banco, colocar um hobby em dia… Faz dois anos que o ex-servidor da Câmara dos Deputados entregou o cargo. Mas não viveu um dia sequer como aposentado. Seu Silvio tem outros planos. “Aposentadoria não é carreira”, teima.

Hoje, a rotina do mineiro radicado em Brasília mais se parece com a de um adolescente prestes a entrar na universidade. Até porque, se tudo sair conforme o planejado, ele iniciará mesmo uma (nova) vida universitária em breve. Há dois anos, passa as manhãs entre matrizes, fórmulas de física, lições de gramática, lanches rápidos na cantina. É – até onde sabe – o aluno mais velho do cursinho preparatório para o Enem do Alub, na Asa Sul.

Mesmo tendo deixado o Ensino Médio há mais de quatro décadas, neste domingo (5/11) Silvio vai fazer pela segunda vez a prova do Exame Nacional do Ensino Médio. Quer ser médico. Fazer residência, especializar-se em urologia, montar consultório. “Sempre quis uma profissão que eu abraçasse e ficasse nela para sempre. A medicina para mim vai ser isso”, resume (veja vídeo abaixo).


Tragédia
Silvio não tem médicos na família e nem sonha com a profissão desde os tempos de menino. Abraçou a ideia depois de vencer a “tragédia” que a aposentadoria lhe impôs, como ele mesmo diz. Se conseguir ser aprovado, a carreira vai ser a terceira do currículo: já coleciona os diplomas de economia e de direito. O último, concluído quando já batia ponto como funcionário público.

“Uma colega de trabalho me dizia que, se quisesse estudar alguma coisa realmente útil para meu trabalho lá [na Câmara dos Deputados], que fosse o direito. Então, eu fiz”, simplifica.

Felipe Menezes/Metrópoles
E lá se vão mais de 30 anos desde que esteve sentado em um banco de universidade pela última vez. Silvio confessa que tem muito mais facilidade com leis e códigos legislativos do que com a fórmula de Bhaskara, usada para resolver questões matemáticas de segundo grau e que os candidatos costumam ter (ou deveriam) na ponta da língua. “A física e a química são um enigma. A cobrança e o processo seletivo mudaram muito desde os meus tempos de universitário”, observa.

E se você fala que vai fazer engenharia ou medicina, é outro universo, porque são os cursos mais concorridos. É preciso saber fazer a prova"
Silvio Souza da Silva, 61 anos, candidato do Enem

Experiência
O aposentado que conquistou a admiração e a simpatia dos colegas de sala – não há um que não lhe acene quando o vê pelo corredor – é o único da sua idade no cursinho da Asa Sul, mas não estará sozinho nos dois domingos de prova que o aguardam. Segundo dados do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais (Inep), do Ministério da Educação, 11.823 pessoas com 60 anos ou mais estão inscritas no Enem 2017. Destas, 269 farão a prova no Distrito Federal, cerca de 0,2% dos 125.247 candidatos brasilienses.

 

A maioria dos participantes do Enem mantém uma rotina rígida de estudos. Os professores aconselham a separar horas do dia para a revisão de conteúdos, descanso e prática de exercícios de provas anteriores. Mas a rigidez já não combina com o futuro dr. Silvio.

“Eu tenho outras coisas para fazer, né”, resume. “Faço compras de mercado para casa, fico com meus filhos, ando com o cachorro”, enumera. Por isso, ele calcula que dedica cerca de três horas por dia aos livros, fora as aulas presenciais. Também não costuma ir ao cursinho aos sábados à tarde. A agenda da vida familiar grita mais alto no fim de semana.

Se for aprovado, a esposa de Silvio terá três universitários em casa: os dois filhos do casal estão concluindo seus cursos: um em nutrição e outro em direito. Eles apoiam a decisão do pai. A mulher, diz Silvio, tem lá suas ressalvas, mas “se acostumou”.

Sobre a especialidade escolhida, a urologia, Silvio se inspira na própria vida: desde os 40 anos, quando foi orientado por um especialistas a fazer exames preventivos anualmente, se encantou pela área. “Faço todos os anos e percebo como essa especialidade evoluiu nos últimos tempos”, analisa.

Além da graduação em medicina, a especialização tem, ao todo, cinco anos: dois em cirurgia geral e outros três de residência em urologia propriamente dita. Silvio, no entanto, não tem pressa. “É outra prova, outra etapa. Mas o que for preciso fazer, eu farei”, garante.

 

 

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