Governo pode precisar de esforço extra para fechar conta
Especialistas acreditam que déficit primário pode ser maior que os R$ 139 bilhões previstos. Avaliação é que o governo conta com a "sorte" para fechar o número, pois depende de fatores imprevisíveis

Alguns economistas que avaliam o cenário econômico e fiscal para o ano que vem colocam em dúvida as previsões do governo, e acreditam que o déficit primário pode ser maior que os R$ 139 bilhões previstos. A avaliação é que o governo conta com a “sorte” para fechar o número, pois depende de fatores imprevisíveis: virada na economia, retomada da arrecadação e boa vontade dos investidores para entrar de cabeça no programa de concessões e arrematar todos os ativos. Trata-se de um cenário auspicioso que nem todos acreditam ser possível em prazo tão curto.

Receba no seu email as notícias de Boletim Metrópoles
Frequência de envio: Diário
Ver todasCom base no perfil de queda da arrecadação que se viu neste ano, e no comportamento histórico de crescimento dos gastos, Salto estima que o buraco nas contas públicas pode ser maior: haveria R$ 50 bilhões de déficit adicional – além dos R$ 139 bilhões previstos. E isso já aplicando todas as regras que criam o teto para o crescimento dos gastos, dentro da Proposta de Emenda Constitucional (PEC do Teto).
“A PEC do Teto é positiva, mas sozinha não faz verão”, diz. Para ele, o governo terá de adotar medidas adicionais para fechar a conta: securitização da dívida, revisão dos contratos de compras de bens e serviços, interrupção de todos os reajustes salariais, incluindo o do Judiciário, e revisão de desonerações, subsídios e subvenções.
Viável
O secretário de acompanhamento econômico do Ministério da Fazenda, Mansueto Almeida, admite que cumprir a meta vai exigir esforço, mas garante que, se o número está no Ploa, é porque foi avaliado como viável pela equipe econômica. Tudo que está lá, principalmente as concessões, é factível. “Neste ano, entraram no caixa do governo R$ 21 bilhões, de um total de R$ 23 bilhões previstos em concessões. Como os R$ 24 bilhões do ano que vem podem ser difíceis de alcançar? O número é conservador”, diz.
Almeida também visualiza que a recuperação pode ficar até acima dos 1,6% previstos. “Nossa projeção de crescimento é até inferior à de outros economistas respeitados: A MB, de José Roberto Mendonça de Barros, e Marcelo Carvalho, do BNP Paribas, estão prevendo crescimento perto de 2%, Santander, de 1,5%”, diz Almeida.
Essa visão, porém, não é compartilhada pela economista Vilma da Conceição Pinto, pesquisadora do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getúlio Vargas (Ibre/FGV). “Neste momento, 1,6% de crescimento já é uma projeção otimista”, diz ela. Vilma leva em consideração os indicadores do Ibre, referência na pesquisa, análise e produção de estatísticas. No boletim desta semana, a instituição ainda projeta um crescimento de 0,6% para o PIB no ano que vem. “Eles vão precisar mesmo fazer um esforço para cumprir a meta e, além do esforço, terão de contar com a sorte”, diz ela.
Segundo Vilma, já é possível identificar que os aumentos concedidos aos servidores, ainda em tramitação no Congresso, vão pesar. Despesas com pessoal e encargos sociais terão 2% de alta real em 2017. “Nesse aspecto, despesa com pessoal, em tese, não está no ajuste”, diz ela.
Haverá dupla pressão do mercado de trabalho. Nas projeções do Ibre a taxa de desemprego no ano subirá para 12,6% e a renda real vai cair 0,3%. Essa dinâmica, vai aumentar gastos com seguro desemprego e reduzir a arrecadação da Previdência, levando o governo a gastar mais. “Para cumprir a meta, vai precisar fechar todas as concessões e talvez fazer um esforço adicional de receita”, diz Vilma.


