Economista-chefe da XP, Caio Megale: União terá dificuldade para “prover serviços”

Caio Magale diz que orçamento da União deste ano fará com que haja menos dinheiro, por exemplo, para viaturas da polícia e bolsas de estudo

atualizado 28/04/2021 21:08

Caio MegaleDivulgação/XP Inc

O economista-chefe da XP Investimentos, Caio Megale, que trabalhou na equipe do ministro Paulo Guedes (Economia) como diretor na secretaria especial da Fazenda no Ministério da Economia, avalia que “a capacidade do governo de prover serviços vai ficar mais apertada neste ano”, devido ao orçamento que acaba de ser sancionado pelo presidente Jair Bolsonaro. “Provavelmente haverá menos dinheiro para viaturas da polícia, menos verba para bolsa de estudos, menos dinheiro para bombeiros apagarem fogo na Amazônia e no Pantanal”, disse.

Em conversa com o Metrópoles, o economista também prevê que, se Congresso aprovar a reforma administrativa, “o câmbio vai para R$ 4,50 em pouco tempo”. O país tem convivido com o dólar acima de R$ 5 desde julho do ano passado. No diagnóstico de Megale, com a reforma, os investidores vão entender que o governo está avançando na agenda para diminuir os gastos obrigatórios, como pagamentos com servidores, e despesas que já não “fazem mais sentido” – e a consequência no câmbio será imediata.

“O Brasil gasta de R$ 8 bilhões a R$ 10 bilhões com funcionários que executam funções que não fazem mais sentido. No passado, por exemplo, tinham servidores concursados para datilógrafo, ascensorista, mas esses funcionários continuam lá na ativa, e não há o que fazer com essa turma. Enxugando isso, são R$ 8 bilhões para o Bolsa Família, um programa que tem pessoas que precisam muito desse dinheiro”, afirma.

Leia a íntegra da entrevista:

Qual a expectativa do senhor com relação à retomada da economia?
O consumo realmente voltou muito rapidamente, especialmente quando se fala de setores como os de material de construção, bens duráveis, eletroeletrônicos, supermercados, entre outros. Por outro lado, o setor de serviço foi o mais prejudicado com a pandemia, e não voltou em V (volta da economia na mesma velocidade da queda). Não vejo força para continuar. Não tem muita renda nem demanda. Esse setor realmente está sofrendo.

O senhor considera que a retomada da indústria nacional é prejudicada pela política de redução de impostos do ministro Paulo Guedes? Essa é uma crítica recorrente de políticos do Centrão.
Não tenho essa sensação, muito pelo contrário. A questão da indústria estava equilibrada em exportações e importações. O problema é que quando se tem altos estoques isso acaba virando custo de produção. Isso realmente prejudica a indústria, mas não é o que ocorreu. A recuperação da indústria também tem um desenho em V. Acredito que o que caiu deve ser recuperado em maio ou em junho.

Como o senhor avaliou o discurso do presidente Jair Bolsonaro na reunião convocada pelo presidente Joe Biden para discutir questões climáticas. A posição do governo brasileiro atendeu as expectativas do mercado?
É um tema superpositivo, e a cúpula abre uma chance de o governo corrigir um problema que tinha já bastante tempo: o descaso com o meio ambiente. Com ou sem intenção, o sinal que o Brasil estava dando para o mundo era negativo, o que atrapalha investimentos. Mostrar para o mundo que o Brasil está preocupado com essa pauta pode ajudar a aumentar os investimentos estrangeiros no país.

O orçamento deste ano foi alvo de uma queda de braço entre economia e política, e acabou sendo sancionado com pouco mais de R$ 100 bilhões de despesas fora do teto. Preocupa?
O Orçamento se tornou exequível, no entanto, a solução encontrada para cobrir o buraco que tinha nas despesas obrigatórias fará com que este ano seja muito apertado para o governo. Tudo poderia ter sido mais equilibrado, poderia se tirar R$ 20 bilhões em emendas parlamentares e R$ 20 bilhões das despesas discricionárias. Mas não, se tirou R$ 10 bilhões das emendas parlamentares e R$ 30 bilhões das discricionárias (que incluem custeio e investimentos).

De que forma esse orçamento afeta a vida real das pessoas?
A capacidade do governo de prover serviços vai ficar mais apertada neste ano. Provavelmente haverá menos dinheiro para viaturas da polícia, menos verba para bolsa de estudos, menos dinheiro para bombeiros apagarem fogo na Amazônia e no Pantanal. Muito provavelmente o Ministério da Economia tenha até que apagar as luzes e desligar o ar-condicionado às 18h para economizar também. No ano passado isso acontecia. Para Educação e Saúde aperta um pouquinho também, mas é diferente, porque grande parte das despesas obrigatórias é direcionada para esses setores.

A reforma administrativa está começando a ser destravada no Congresso. Como o mercado reage a isso?
Quase 93% do orçamento são despesas obrigatórias, que incluem a folha de pagamento como um dos principais pilares. Se for possível economizar um pouquinho da folha já é possível dobrar o orçamento para todo o resto. Esse é o objetivo da reforma. Não precisa cortar o salário de ninguém, só não precisar crescer tão rápido. O Brasil gasta de R$ 8 bilhões a R$ 10 bilhões com funcionários que executam funções que não fazem mais sentido. No passado, por exemplo, tinham servidores concursados para datilógrafo, ascensorista, mas esses funcionários continuam lá na ativa e não há o que fazer com essa turma. Enxugando isso, são R$ 8 bilhões para o Bolsa Família, um programa que tem pessoas que precisam muito desse dinheiro.

Quais efeitos econômicos podem ser percebidos com a aprovação da reforma administrativa?
Se for aprovada a reforma administrativa, o câmbio vai para R$ 4,50 em pouco tempo. Caso isso seja aprovado rápido.

O senhor trabalhou na equipe de Paulo Guedes e agora é economista-chefe da XP Investimentos. Como está sua sendo essa experiência no setor privado?
É ótimo. Temos muitas demandas econômicas. Preciso estar sempre atualizado para gerar conteúdo e atender reguladores, como o Banco Central, por exemplo, ligados a cenários de estresse, ou áreas de crédito de empresas também. É muito importante para a XP ter uma presença institucional forte, dialogando com todos os setores da sociedade a partir de nosso conhecimento econômico.

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