Análise: previsões do Banco Central se rendem aos erros da política

Primeiros resultados na economia e dificuldades para aprovação da reforma da Previdência obrigam governo a rever projeções de crescimento

MICHAEL MELO/METRÓPOLESMICHAEL MELO/METRÓPOLES

atualizado 15/05/2019 13:10

Desde o início do ano, os menos crédulos notavam o descompasso entre as previsões otimistas para a economia e a realidade política do Brasil. Nas últimas semanas, os resultados divulgados sobre os primeiros meses do governo Bolsonaro revelaram-se pífios e obrigaram as instituições a rever as avaliações.

O Banco Central divulgou nessa terça-feira (14/05/2019) a ata do Comitê de Política Monetária (Copom) com a constatação de que os indicadores sugerem “probabilidade relevante” de recuo do Produto Interno Bruto (PIB) no período de janeiro a março em relação ao trimestre anterior.

A linguagem cautelosa disfarça um pouco a gravidade da situação. O Boletim Focus, relatório do mercado sobre as previsões de uma centena de analistas financeiros, também aponta a piora das estimativas.

No início de janeiro, o estudo previa um crescimento de 2,6% do PIB em 2019. Depois de 11 quedas consecutivas, esse índice foi reduzido para 1,49%. Esse é o tamanho da decepção dos otimistas.

Bastava observar o cenário político com atenção para constatar os riscos corridos pelo país. O presidente Jair Bolsonaro (PSL) assumiu o Palácio do Planalto sem base parlamentar consolidada e sem experiência na formação de consensos.

O estilo agressivo e a dificuldade para o diálogo também recomendavam ceticismo. Para complicar um pouco mais, mesmo antes de tomar posse, foram reveladas informações do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) sobre o fluxo financeiro atípico no gabinete do então deputado estadual Flávio Bolsonaro (PSL-RJ), hoje senador, filho do presidente.

As suspeitas sobre o parlamentar fluminense enfraqueceram o discurso contra a corrupção de Bolsonaro. Ao mesmo tempo, reduziu seu cacife para negociar com a banda podre dos políticos. Esse episódio, rapidamente, corroeu a força adquirida pela vitória nas urnas.

Com essas preliminares, era preciso ter muita boa vontade para acreditar que o Congresso aprovaria a reforma da Previdência pretendida pelo governo. O tradicional lobby organizado das corporações representadas no Parlamento foi, assim, facilitado pelas circunstâncias.

Frustração
Como toda a esperança de recuperação da economia foi vinculada à aprovação da Proposta de Emenda Constitucional (PEC) que trata desse assunto, em algum momento, o otimismo daria lugar à frustração. É o que está acontecendo agora, justamente, quando as medidas do governo devem ser votadas.

Os desencontros entre o Palácio do Planalto e os congressistas se acumulam, como demonstra a crise dessa terça-feira (14) em torno dos cortes no orçamento das universidades. Bolsonaro não consegue se entender nem mesmo com o PSL, seu partido.

Nesta toada, a aprovação de uma reforma da Previdência nos moldes defendidos pelo ministro da Economia, Paulo Guedes, será uma surpresa – para os crédulos. O BC, portanto, faz bem em aparar os excessos de entusiasmo.

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