“É um pânico”: como as chuvas devastam moradores de rua em São Paulo

Na estação mais quente e chuvosa do ano, sem-teto lutam diariamente para sobreviver entre perdas e privações na cidade mais rica do Brasil

atualizado 22/04/2021 22:16

Mulher em situação de rua na cidade de São PauloFábio Vieira/Metrópoles

São Paulo – Na Alameda Casa Branca, travessa com a Avenida Paulista, centro financeiro de São Paulo, Maria Solange Machado, 59 anos, exibia uma expressão de preocupação que nem a máscara de proteção contra a Covid-19 era capaz de esconder.

Ela tinha apenas a roupa do corpo para vestir, um short florido e uma camiseta branca encardida de marca esportiva. Maria Solange atendeu o Metrópoles há um mês, nos primeiros dias de um outono ensolarado, e na semana anterior quase perdeu seus pertences devido às chuvas que caíram na capital. No fundo da barraca, mostrou, envergonhada, as peças que ainda estavam úmidas com a mistura de água de chuva e esgoto.

Para ela, a estação mais quente e chuvosa do ano é motivo de desespero. A ex-enfermeira, que está em situação de rua desde a demissão pelo Estado em 2005, ergueu sua maloca (gíria que se refere à moradia improvisada) na calçada lateral do Parque Municipal Prefeito Mário Covas, cujas árvores são chamarizes quedas de galhos.

No abrigo construído com lona laranja e plásticos pretos, ela tenta proteger os 10 cachorros adotados da rua. Os animais se abrigam com folga na parte interior do espaço improvisado com colchões de espuma, baldes plásticos e pallet de madeira. Ela teria 11 cães, mas um deles foi atropelado e morto, onde ainda era possível ver as marcas de sangue estampadas no asfalto.

“É um pânico quando chove, um transtorno muito grande porque eu perco roupas e alimentos. Os carros passam em alta velocidade e nos molham ainda mais. Eu tenho medo de cair algum galho e nos machucar, por isso eu tiro os cachorros da guia, os amarro numa corda e corro com eles para uma área mais segura”, explica.

Chuva de sobra, água potável de menos

Maria Solange gesticula com as duas mãos enquanto coça constantemente a pele avermelhada. Ela conta que contraiu sarna após adotar um filhote de vira-lata, que se diverte na calçada com o primeiro objeto que aparece em sua frente.

Por volta das 10h30 de segunda, a temperatura em São Paulo já estava perto dos 30 graus, e Maria não lembrava a última vez que tomou banho. Como os parques estão fechados para o público pelo aumento nos casos de Covid-19, o acesso à água potável e a sanitários fica mais difícil para ela. A higienização das mãos está entre as principais formas de combater o novo coronavírus.

No entanto, a sensação de invisibilidade de Maria é maior ao recordar que teve seus documentos levados pelo rapa, ação da Guarda Civil Municipal (GCM) em que oficiais apreendem pertences de pessoas em situação de rua.

A ação de retirada de bens pessoais em ações de zeladoria é proibida pelo Decreto 59.246/2020, assinado pelo prefeito Bruno Covas (PSDB). Na prática, não é bem o que acontece.

Ela havia colocado documentos no chão para secar a água da chuva quando os funcionários deram um fim em tudo. Maria Solange está há mais de três meses sem RG e CPF, entre outros. “Eu perdi a minha história, a minha referência. A minha caixa de documentos reunia a minha história, por onde eu andei, trabalhei, e o rapa levou e deve ter descartado a minha história no lixo”, lamenta.

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Viver em um cubículo

A cidade de São Paulo tem uma portaria voltada para o acolhimento da população em situação de rua em época de baixas temperaturas, no outono e inverno. Lançada em 2014 pelo então prefeito Fernando Haddad (PT), tem como objetivos atender essas pessoas e oferecer abrigo sempre que a temperatura atingir 13 graus ou menos, entre outros.

No verão, porém, não existe nenhuma iniciativa voltada exclusivamente para essa população. Questionada, a Prefeitura de São Paulo informa que “realiza busca ativa durante todo o ano para abordar pessoas em situação de rua e oferece acolhimento nos equipamentos da rede socioassistencial. Importante ressaltar que o aceite é voluntário” (leia a íntegra ao final da matéria).

Nelson Alves, 62 anos, passou pelo menos 20 verões debaixo de chuva e sol quente. Ele fala com revolta nos olhos e tira e põe o boné da cabeça freneticamente para enfatizar as privações pelas quais têm passado.

Às 15h30 de quinta-feira (18/3), o céu na região do Largo São Bento, no centro histórico da capital, estava cinzento e já dava toda aparência de temporal iminente. Pedreiro de formação, Alves conta como já estava preparado para se proteger do aguaceiro – com exceção das vestimentas, apenas um short surrado.

Ele armou uma estrutura de um tipo de tecido fino ao longo de 3,5 metros quadrados e estendeu plástico preto. Para fortalecer a cobertura, utilizou nacos de madeira nas extremidades, a fim de evitar o escoamento de água pelas beiradas. Menos quando os temporais são acompanhados por rajadas de vento.

Nas ocasiões em que a natureza supera a construção improvisada pelo homem, resta correr atrás das caixas de papelão com objetos pessoais. Se o azar for maior, a única saída é vestir uma muda de roupa molhada e torcer para não contrair pneumonia ou leptospirose.

“Se chove, fica mais difícil comer [são menos doações], aí você vê o que é miséria humana. Só quem está aqui sente na pele o desespero. A chuva leva tudo, já perdi até meus cadernos”, Alves aponta para as muitas folhas de papel em que escreve reflexões sobre o mundo desigual. “Posso fazer uma reza depois que terminar a conversa?”, ele completa.

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Como a saúde mental responde

Para a psicoterapeuta e ativista dos direitos humanos, Eroy Silva, as intempéries do verão podem influenciar diretamente na saúde mental de quem está em situação de rua. Ela aponta que as carências e perdas têm impacto no desenvolvimento de problemas psicológicos.

Enquanto os dias quentes para a  classe média significam descanso e lazer, para a população sem-teto representam mais uma tentativa de sobrevivência a duras penas. Nas suas palavras, o verão não é igual para todos, assim como não é o inverno ou qualquer outra estação.

“Essas pessoas demoram mais tempo para dormir, migram mais, conversam mais com vínculos da rua nessa época. Existe também a questão da ausência de direitos mínimos, como tomar banho ou trocar de roupa. A construção da nossa mente também é social e essas carências têm implicação em transtornos mentais, como depressão, quadro de ansiedade e transtorno de personalidade”, exemplifica.

Chuva significa (muitas) perdas

Em 2019, o censo da Prefeitura de São Paulo revelou que 24.344 pessoas estavam em situação de rua na capital. À época, movimentos sociais apontaram que o número era superior a 30 mil porque a pesquisa deixou de fora moradores de ocupações, por exemplo.

Com a chegada da pandemia, novos rostos ilustram as calçadas da capital. É o caso de Rosana Bueno, 43 anos, que conta ter escolhido viver nas ruas em outubro de 2020 para ajudar um amor a se recuperar do vício em drogas, o que não deu certo.

Nascida em São Roque, no interior paulista, ela diz ao Metrópoles que decidiu ficar por ali mesmo após o término do relacionamento. Contudo, descobriu da pior forma como o verão castiga aqueles que não têm um teto para dormir. Rosana se instalou nas dependências do Parque Mário Covas e adotou um cachorro, Alfredo, para ter uma companhia.

Em 16 de fevereiro, ela voltava a pé para o local onde hoje dorme, mas não esperava a chegada de uma forte chuva. Em questão de segundos, envolveu o pequeno animal em um edredom e correu até uma marquise para se resguardar da chuvarada.

Alfredo, que lutava contra a doença do carrapato, contraiu pneumonia e morreu três dias depois. Rosana perguntou se a reportagem gostaria de ver a foto dele emoldurada em um porta-retrato, uma das poucas lembranças guardadas além da memória (confira a foto abaixo).

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Rezar para não chover

Durante sua vivência nas ruas, ela observou os demais colegas construírem suas barracas com o mínimo de segurança e seguiu os mesmos passos. A lona é bem amarrada com cordas junto às grades do portão do parque e o pedaços de papelão são usados para impedir a entrada de água. Rosana ganhou uma barraca de acampamento depois de ter sido furtada por uma senhora.

“A chuva em si não me apavora, só que tenho medo de raios e trovões porque estou debaixo de árvores. No início, quando chovia muito eu não ficava dentro da barraca, corria para onde não tinha árvore. Estou aprendendo a lidar com isso, hoje fecho tudo para não ver a claridade”, diz.

Apoiada em sua barraca, Rosana recorda da casa onde viveu no interior de São Paulo, e a lembrança que vem à mente eram os pedidos de chuva em orações para poder brincar com barquinhos no rio. Hoje, no entanto, ela levanta as mãos e suplica para que os céus não mandem água. Por ela e por todas as pessoas que dormem sob o céu com nuvens carregadas na cidade mais rica do país.

Confira a resposta da Prefeitura de São Paulo sobre a falta de ações para a população de rua no verão:

A Secretaria Municipal de Assistência e Desenvolvimento Social (SMADS), por meio do Serviço Especializado de Abordagem Social (SEAS), realiza busca ativa durante todo o ano para abordar pessoas em situação de rua e oferece acolhimento nos equipamentos da rede socioassistencial. Importante ressaltar que o aceite é voluntário. A população também pode ajudar solicitando uma abordagem social pela Central 156 (ligação gratuita).

O acionamento da abordagem pode ser anônimo, é importante informar o endereço da via em que a pessoa em situação de rua está (o número pode ser aproximado), citar pontos de referência e características físicas e detalhes das vestimentas da pessoa a ser abordada.

Durante a pandemia foram criadas 1.979 novas vagas, sendo 682 em oito equipamentos emergenciais em centros esportivos, 400 em Centros Educacionais Unificados (CEU), 207 em um Centro de Acolhida Especial para Idosos, 260 em um Centro de Acolhida Especial para Famílias e 430 vagas para hospedagem de idosos em situação de rua já acolhidos na rede socioassistencial, em nove hotéis (oito na região central e um na região norte). Das vagas criadas, 1.307 estão em funcionamento. Os equipamentos funcionam 24 horas e são voltados a diversos perfis.

As pessoas com suspeita ou diagnóstico de COVID-19 (sintomas leves) são encaminhadas para um Centro de Acolhida Especial na Vila Clementino, na Zona Sul (com 60 vagas) ou para um Centro de Acolhida na Lapa, Zona Oeste.

Enfatizamos que todos os serviços de alta e média complexidade voltados para pessoas em situação de rua funcionam de maneira ininterrupta.

Os equipamentos têm suas estruturas higienizadas constantemente e são mantidos com as janelas abertas. Nos quartos as camas foram colocadas em distância segura. Todos os eventos agendados nos serviços foram cancelados e as visitas suspensas. Todas essas medidas contribuem para diminuir o risco de contágio. Ao todo, a pasta dispõe de 97 serviços de acolhimento para pessoas em situação de rua.

Durante período de pandemia, a SMADS ampliou a oferta de serviços nos quais as pessoas em situação de rua têm acesso a refeições, banheiros, kits de higiene e orientações. No dia 03/04, começou a funcionar, na região do Cambuci, um Núcleo de Convivência Emergencial, com capacidade de oferecer café da manhã, almoço e café da tarde para 200 pessoas. A rede municipal conta com 10 Núcleos de Convivência, com 3.472 vagas. Para os Núcleos de Convivência da Sé, Prates, Porto Seguro, Luz e Bela Vista foram aditados em caráter emergencial mais 1.760 vagas.

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