População de rua abrigada no autódromo luta para manter alojamento em 2021

Espaço foi criado para acolher sem-teto durante a pandemia no DF, mas tem encerramento previsto para 3 de janeiro. GDF avalia alternativas

atualizado 27/11/2020 16:01

QuadroHugo Barreto/Metrópoles

O fim das atividades do alojamento provisório montado no Autódromo Internacional de Brasília tem preocupado a população acolhida no local. O ambiente foi criado para abrigar pessoas em situação de rua durante a pandemia do novo coronavírus, mas tem encerramento previsto para 3 de janeiro de 2021, segundo a Secretaria de Desenvolvimento Social (Sedes). Agora, cerca de 170 moradores temem retornar para as ruas da capital nos primeiros dias do ano, ainda correndo o risco de infecção pela doença.

De acordo com o Instituto Tocar, entidade social que administra o espaço, 1.044 pessoas já foram acolhidas no autódromo desde 7 de abril, quando as atividades tiveram início. O ambiente recebe homens de 18 a 58 anos. “Mas, se tiver algum caso urgente de alguém com mais idade, a gente acolhe também”, explica o chefe de plantão do instituto, Ricardo Ribeiro da Silva.

No local, estão dispostas quatro camas em cada um dos 50 contêineres, abrigando 200 pessoas. Além de um lugar para dormir, os moradores têm direito a seis refeições diárias, espaço de jogos, ambiente de leitura, e ainda área de atendimento psicossocial.

“Esse trabalho é muito importante. A gente tem essa conversa desde o início para que esse projeto se estenda, porque eles têm essa necessidade de ter um lugar fixo, não só provisório”, ressalta Ricardo.

Falta de emprego

Carlos Lima, 44 anos, foi um dos primeiros acolhidos no alojamento. Natural de Itaituba, no Pará, ele veio para Brasília em agosto de 2019 para tentar melhores oportunidades de vida. Contudo, a dificuldade em encontrar emprego foi  maior do que ele esperava.

“Passei 15 dias em um albergue, depois fui morar na rua. Agora, estou aqui desde maio”, conta. “Esse é um espaço muito bom para a gente. Na rua, ficamos vulneráveis nessa pandemia. Aqui, eu tomo banho, tenho dentista, consegui um óculos. Coisas que em outros lugares, eu não tinha”, completa.

Assim como ele, Vanderley Militão, 42, mudou-se para a capital do país em busca de emprego. “Saí de Uberlândia (MG) em 2010, e consegui alguns empregos temporários. Já fui caseiro, jardineiro. Tudo que aparecia eu fazia. Mas, nesse ano, todas as oportunidades travaram por conta da pandemia e acabei tendo que ir para a rua”, lamenta.

Desde julho, ele está abrigado no autódromo e tenta se capacitar para retornar ao mercado de trabalho quando sair do local. “Eu me inscrevi em dois cursos que vão ter aqui. Quero fazer aula de barbeiro e de vigilância eletrônica”, comenta. “O problema é que, com essa crise, o desemprego cresceu muito e vai ser difícil sair e conseguir trabalho.”

Com medo de voltar para a rua durante a pandemia, então, Vanderley luta junto aos outros acolhidos para que o alojamento seja mantido no início do próximo ano. “Os números da Covid estão começando a aumentar de novo e passar o começo de ano na rua ninguém merece. Dormir pensando que amanhã não teremos mais para onde ir é muito doloroso, a gente fica apavorado”, desabafa.

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Assistência

Entre as oportunidades que os moradores têm no abrigo, o jovem Jailton da Silva, de 27 anos, destaca a assistência médica. Ele quebrou a perna há cerca de três semanas e, no mesmo período, conseguiu acolhimento no autódromo. Hoje, ele se diz grato pelo apoio que recebe no local.

“Eles me levam no hospital, me deram a cadeira de rodas para eu usar enquanto isso […] Na rua estamos no meio da violência e aqui vejo que portas podem abrir para a agente”, pontua.

Também há menos de um mês no alojamento, Severino Ferreira da Silva, 52, reforça a visão do colega. “Eles não podem desfazer esse lugar. Aqui somos bem tratados, temos conforto, fazemos os cursos. É uma oportunidade que jamais teríamos na rua”, acrescenta.

Tendo experiência como pedreiro, Severino agora aproveita o pouco tempo que ainda tem no alojamento para entregar currículos. “Eu tirei a carteira de trabalho com apoio do instituto. Meu sonho agora é conseguir um emprego para não voltar para a rua”, diz.

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O que diz o GDF

Além do alojamento no autódromo, a Sedes também mantém um abrigo no mesmo formato em Ceilândia. O local também tem previsão de fechar as portas em janeiro, mas no dia 6, segundo a pasta. De acordo com o órgão, o governo gasta, mensalmente, cerca de R$ 2,5 mil por vaga nos alojamentos.

Questionada se deve ampliar o prazo de funcionamento nos locais, a secretaria informou que “discute soluções para não deixar a população desamparada”. No último dia 23, a Sedes publicou o resultado provisório do chamamento público para ampliar as vagas de Acolhimento Institucional. O processo está em andamento para a criação de 600 novas vagas em abrigos do DF durante dois anos.

“A intenção da Secretaria de Desenvolvimento Social é concluir esse processo até o fim dos contratos com as instituições que coordenam as unidades”, informou. Caso não sejam abertas as vagas até o final de dezembro deste ano, portanto, a Sedes diz que discute alternativas de acolhimento para que o público presente nos alojamentos provisórios do Plano Piloto e de Ceilândia não fique desabrigado.

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