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“É difícil ver fotos”, conta homem que perdeu mãe e avó para a Covid

O publicitário Fabrício Gomes, de Santo André (SP), teve a vida devastada após perder dois familiares para o coronavírus em duas semanas

atualizado 28/02/2021 10:14

São Paulo – Fabrício Gomes de França, 43 anos, não sabe o que é ouvir a voz da mãe e da avó desde dezembro de 2020. Há dois meses, o publicitário se despediu delas de um jeito que jamais esperaria: em um velório para poucas pessoas, distanciamento de ao menos 1,5 metro, e tempo cronometrado de 10 minutos para a realização da cerimônia.

Vítimas da Covid-19, Marilei Gomes, 73, e Carolina Perez, 95, partiram num intervalo de duas semanas. O publicitário não arredou o pé da casa onde vive, em Santo André (SP), desde o início da quarentena, em março de 2020. A saudade da família era atenuada apenas por chamadas de vídeo, pois ele vê diariamente a escalada de mortes em um dos estados mais afetados pelo coronavírus, com quase 60 mil óbitos.

A mãe, secretária de escola aposentada, vivia com o marido em Itanhaém, na Baixada Santista (SP). A avó morava em uma clínica para idosos em Santo André. Os problemas de saúde de Carolina, que tinha Alzheimer e já havia perdido uma perna, preocupavam a família. Ela foi internada duas vezes com suspeita de infecção pelo coronavírus, em setembro e outubro, mas não passou de um susto. Na terceira vez, portanto, o diagnóstico veio tarde demais.

No final do mês seguinte, Carolina estava com a saturação de oxigênio baixa. Novamente com receio, Fabrício Gomes achou por bem transferi-la a um hospital na região. Antes, ela fez um novo exame de PCR para saber se estava com Covid-19. Devido à idade avançada, ela teria que receber acompanhamento 24 horas por dia na enfermaria. Assim, quatro dos cinco filhos dela, incluindo Marilei, decidiram se revezar para cuidar da mãe. O resultado do teste ainda não estava pronto. Quando saiu já não havia mais o que fazer.

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Mãe, três tios e avó infectados

Marilei e os três irmãos testaram positivo para o coronavírus, enquanto Carolina lutava pela sobrevivência. A avó de França faleceu em 5 de dezembro, e sua mãe perdeu a vida em 18 de dezembro. Após a morte da avó, ele achava que a mulher que o trouxe ao mundo seria curada. Os três tios do publicitário responderam bem ao tratamento.

Sua mãe apresentou tosse seca como primeiro sintoma. Em um intervalo de poucos dias, 50% dos seus pulmões já estavam comprometidos. Ela foi intubada em uma unidade de terapia intensiva (UTI), sofreu parada cardíaca e não resistiu após quase 14 dias internada. França conta que ela não tinha nenhum problema de saúde. Ele prefere não procurar culpados.

O publicitário se apoia no espiritismo para enfrentar o luto da maneira menos dolorosa possível. “Em homenagem à minha mãe, procuro não ficar triste, não desistir. Ela foi muito incentivadora, não ia querer que parasse nada do que eu estivesse fazendo por conta da tristeza. A minha homenagem é exaltar a alegria dela, e não a sua falta. Ou você aceita ou vai ter muito problema. Eu aceitei, mas é difícil lidar. Estou tratando do inventário dela, é uma sensação horrível lidar com coisas que lembram minha mãe. É difícil ver fotos, dá uma saudade grande”, diz, aos prantos. 

“Me ensinou tudo o que eu acredito”

Fabrício Gomes tinha Marilei como mãe e pai, pois o patriarca da família perdeu a batalha para o alcoolismo quando o publicitário ainda era uma criança de 12 anos. Ele guarda dela a lembrança de uma pessoa que gostava de viver, de caminhar e dançar nos bailes de terceira idade, e descobriu uma paixão há seis anos: ser avó.

“Minha mãe me ensinou tudo na vida, todos os valores que tenho. Era muito querida por amigos, familiares, nas escolas onde passou. Eu tinha uma relação um pouco mais grudado na minha mãe. Ela estava no período de curtir ser avó da minha filha. Era bom dia no WhatsApp e no Facebook para todos os amigos. Ela exalava alegria, não tinha baixo astral, mas não apresentava um otimismo exagerado. Minha mãe me ensinou tudo que eu acredito.”

Ao pensar na avó, volta imediatamente à infância, quando passava dias e mais dias na casa dela. Depois de adulto, eles até chegaram a morar juntos por um período. “Era tudo meio que na barra da saia da vó. Ela era durona, botava disciplina, mas era alegre e cuidava de todo mundo. Eu nunca a via parada por um minuto, estava sempre fazendo alguma coisa, sempre ocupada”, recorda, aos risos.

Para Fabrício Gomes de França não há outro remédio que não seja viver o processo de luto. Ele tem vivido os últimos dois meses com total dedicação ao trabalho e atenção à esposa e à filha pequena, como forma de encarar a dor e receber um afago da vida. No entanto, as lembranças de Marilei Gomes e Carolina Perez sempre vêm à memória.