E agora, Weintraub? Às vésperas do Enem digital, um papelão

A divulgação das notas do Enem jogou um balde de água fria e estragou as expectativas dos candidatos em iniciar

Marcello Casal Jr/Agência BrasilMarcello Casal Jr/Agência Brasil

atualizado 21/01/2020 12:04

“O melhor Enem de todos os tempos”. Foi assim que o Ministro da Educação, Abraham Weintraub, ao lado do presidente do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), Alexandre Lopes, em entrevista coletiva para divulgar as notas do Exame Nacional do Ensino Médio, classificou, a realização do processo.

Passada a euforia, restou a desconfiança. A verdade é que a divulgação das notas do Enem jogou um balde de água fria e estragou as expectativas dos candidatos em iniciar, esta semana, a busca por uma vaga universitária no tão sonhado curso. Uma verdadeira decepção. Na noite da mesma sexta-feira (17/01/2020), veio a denúncia: o MEC anunciou as notas do Enem 2019, com erros.

No sábado (18/01/2020), o ministro admitiu que algumas notas do Enem foram divulgadas com erros. O MEC encontrou “inconsistências na contabilização e correção das provas”.

Parte dos estudantes respondeu à prova de uma cor, mas a correção foi feita baseada em gabaritos de outra, reduzindo consideravelmente a nota. Reclamações circularam pelas redes sociais, levando o ministério a se pronunciar.

Alunos apontaram um “déficit discrepante” nas provas aplicadas no segundo dia — matemática e ciências da natureza. A nota, comparada aos acertos do caderno de questões e analisada em relação às pontuações da Teoria de Resposta ao Item (TRIs), teria sido dada com cerca de 400 pontos a menos do resultado correto. Estudantes que acertaram mais de 35 questões tiveram notas entre 300 e 400 pontos, quando deveriam ter entre 700 e 800 pontos.

Esse fiasco meio que já estava anunciado. Consequência de uma série de descasos com o Enem e com a educação. O Inep, instituo que organiza o exame e as estatísticas educacionais, é um dos principais marcos da confusão da gestão no governo de Jair Bolsonaro (sem partido).

Vale lembrar que o ano de 2019 foi marcado pela dança das cadeiras no Órgão. O Inep teve quatro presidentes em um intervalo de cinco meses.

Faço minha a indagação de Leanardo Sakamoto: “Imagine o que passa pela cabeça de uma pessoa que está se esfolando de estudar para conseguir vaga em uma universidade pública quando se depara com uma nota inferior ao seu número de acertos, poucos dias antes de começar a inscrição para o Sisu [Sistema de Seleção Unificada]”.

No momento de divulgação das notas do Enem, eu estava dentro de uma aeronave retornando de uma longa semana de trabalho na cidade de Juazeiro do Norte (CE), onde estive entrevistando e orientando inúmeros estudantes que participaram do Enem 2019 e que estavam aguardando, ansiosos, a divulgação das notas para, então, tomarem as decisões futuras e delicadas. Sigo para mais um ano de cursinho? Mudo minha opção de curso? Procuro outra universidade? Busco uma bolsa no Fies? Me questionavam.

Como dar os próximos passos (e orientá-los) com a credibilidade da prova colocada em risco? O Inep manteve a data de abertura do Sisu para esta terça-feira. No entanto, na rede social divulgou o seguinte comunicado:

 

 

E agora, Weintraub? Em 2020, no ano da primeira aplicação do Enem em versão digital, MEC e INEP fazem um papelão.

 

Candidatos do Enem 2019 estão perdidos e desconfiados. Feito a personagem do famoso poema “José” de Carlos Drummond de Andrade, publicado originalmente em 1942, na coletânea Poesias. Que ilustra o sentimento de solidão e de abandono do indivíduo na cidade grande, a falta de esperança e a sensação de que está perdido na vida, sem saber que caminho tomar.

E agora, Weintraub? Quem diria que no fim de 2018 o desejo do presidente Jair Bolsonaro em querer ver, previamente, as provas do Enem 2019 seria o menor dos absurdos desta edição. E agora?

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