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Com a crise migratória deflagrada em Roraima, uma série de boatos se espalharam pela internet alimentando os conflitos com os venezuelanos que chegaram ao estado. A Lupa checou algumas dessas informações. Veja a seguir:

“Pacaraima não tinha um homicídio há três anos”

De acordo com o Atlas da Violência, publicado pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), o município de Pacaraima registrou três homicídios em 2014, um em 2015 e nenhum em 2016. Os dados de 2017 ainda não estão disponíveis.

“40% dos partos na maternidade [Hospital Materno Infantil Nossa Senhora de Nazaré] são de bebês filhos de imigrantes”

De acordo com nota da Secretaria Estadual de Saúde de Roraima, dos 9.358 partos realizados pelo sistema público em 2017, 566 foram de imigrantes. O número corresponde a 6% dos procedimentos realizado no ano passado. De janeiro a junho deste ano, foram realizados 4.881 partos. Destes, 4.240 de mulheres brasileiras e 571 de venezuelanas, o que equivale a 11,7% dos casos.

“Venezuelanos agrediram as únicas médicas plantonistas da única maternidade de Boa Vista, fazendo assim com que elas saíssem assustadas para fazer boletim de ocorrência e resultando em bebês mortos nos ventres de suas mães”

Na madrugada de 28 de julho, uma paciente venezuelana do Hospital Materno Infantil precisou ser transferida para uma ala de pré-parto, onde não é permitida a presença de acompanhantes. O marido da paciente xingou as médicas de plantão ao saber da impossibilidade de ficar ao lado de sua mulher. Outros venezuelanos que estavam no local apoiaram seu conterrâneo. Servidores que atuam na unidade prestaram auxílio às médicas e foram agredidos fisicamente pelos venezuelanos. Acionada, a Polícia Militar fez o registro de ocorrência das agressões.

No entanto, a Secretaria Estadual de Saúde garante que não houve nenhum óbito fetal na maternidade naquela noite. Segundo a pasta, o local não ficou sem assistência médica em momento algum, já que havia outros médicos de plantão, além das profissionais que foram agredidas.

“[Uma] Meningite bacteriana que isolou áreas inteiras [do Hospital Geral de Roraima]”

No dia 7 de julho, uma venezuelana de 32 anos foi internada no Hospital Geral de Roraima, em Boa Vista, com meningite bacteriana. A paciente ficou internada na Unidade de Terapia Intensiva (UTI). Na ocasião, em entrevista coletiva, o médico infectologista Mauro Asato, coordenador da UTI do hospital, destacou que não se tratava de meningite meningocócica e, portanto, não havia risco de contágio da doença. Em nota, a Sesau afirmou que o hospital não teve áreas inteiras isoladas.

“[Roraima] Por conta de uma imigração desenfreada, viu, em 2018, sua população atingir o número de habitantes esperado para 2040”

De acordo com dados da Polícia Federal, entre 2017 e 2018, 127.778 imigrantes vindos da Venezuela entraram no Brasil por Pacaraima (RR). No entanto, 68.968 deles já deixaram o país e outros 690 foram levados a outros estados, voluntariamente. Assim, atualmente, há cerca de 58 mil refugiados em Roraima, e a população total do estado é de 581.219 habitantes, já contados os imigrantes. Segundo o IBGE, a projeção é de que, em 2040, o estado tenha 849.324 habitantes – bem longe do número atual.

“No edital do [concurso para a] Polícia Civil de Roraima estão pedindo [conhecimentos de] espanhol para os candidatos que querem ser policiais”

No último edital de concurso para novos servidores da Polícia Civil do Estado de Roraima, lançado no dia 17 de agosto, exigiu-se noções básicas de língua espanhola para os cargos de escrivão, agente e perito papiloscopista.

“Nós nem sabíamos mais o que era sarampo [antes de os venezuelanos chegarem]”

De acordo com dados do Ministério da Saúde, desde 1998 não havia casos confirmados de sarampo em Roraima. De fato, o surto da doença que o estado enfrenta é associado à imigração venezuelana. A Fundação Oswaldo Cruz comprovou pela identificação do genótipo do vírus, o D8, que se trata do mesmo que circulou na Venezuela em 2017.

No entanto, o ministério também ressalta que a volta da doença está crescendo em todo o mundo, não apenas no Brasil e na Venezuela. Na Europa, os casos de sarampo chegaram a 41 mil, entre crianças e adultos, apenas no primeiro semestre de 2018, segundo a Organização Mundial da Saúde. Esse número é maior do que o total visto em cada ano desde 2010. Em 2017, quando houve mais casos, foram 23.927 registros.

“Venezuelanos mataram um homem a pauladas para roubar os tênis dele”

No dia 11 de agosto, o motorista Luís Erivan da Silva morreu após ser espancado por cinco venezuelanos, no bairro Liberdade, na Zona Oeste de Boa Vista. Eles roubaram o tênis, a carteira e o celular de Erivan. Em coletiva de imprensa, no dia 14, a Delegada Geral da Polícia Civil de Roraima, Giuliana Castro, concluiu que o latrocínio – roubo seguido de morte – foi praticado por motivo fútil, sem razão aparente. Os autores foram identificados por câmeras de segurança e por uma testemunha. Dois deles foram presos. Os outros três estão foragidos.

“O número de venezuelanos é tão grande que, se eles pudessem votar, e um candidato fizesse campanha só para eles, ele seria eleito e entre os primeiros”

Atualmente, há cerca de 58 mil refugiados venezuelanos em Roraima, segundo dados da Polícia Federal. De acordo com o TSE (Tribunal Superior Eleitoral), o estado tem o menor colégio eleitoral do país, com apenas 331 mil eleitores.

Em 2014, o deputado federal eleito com a menor quantidade de votos por Roraima foi Carlos Andrade (PHS) – cerca de 6,7 mil votos. O deputado estadual com menos votos foi Evangelista Siqueira (PT) – pouco mais de 2,1 mil. Ou seja, pelo número atual de imigrantes, os venezuelanos conseguiriam eleger pessoas nesses cargos. Mas não poderiam escolher o governador: Suely Campos (PP) foi eleita com 127 mil votos, no segundo turno. No primeiro turno, ela teve pouco mais de 100 mil votos, e seu adversário, Chico Rodrigues (PSB), 91 mil.

Vale lembrar que a Constituição veda o registro eleitoral de estrangeiros (artigo 14), a menos que eles sejam brasileiros naturalizados – processo que exige residência fixa no Brasil por, no mínimo quatro anos, domínio da língua portuguesa, entre outros quesitos.

Reportagem: Clara Becker e Plínio Lopes. Edição: Natália Leal e Cris Tardáguila