CPMI ouve sócios, advogado e esposa do Careca do INSS
A CPMI investiga as fraudes bilionárias que prejudicaram aposentados e pensionistas do Instituto Nacional de Seguro Social (INSS)
atualizado
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Desobrigado de falar, por decisão do Supremo Tribunal Federal (STF), o advogado Nelson Wilians evitou responder a maior parte das perguntas feitas pelos parlamentares da Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) nesta quinta-feira (18/9). A sessão começou às 9h49. Após 15 minutos de CPMI, porém, ele passou a se negar a esclarecer os questionamentos, o que irritou deputados e senadores. Ele ficou na comissão até 18h30, aproximadamente.
Wilians foi o primeiro a participar nesta quinta do colegiado criado no Senado para investigar as fraudes bilionárias que prejudicaram aposentados e pensionistas do Instituto Nacional de Seguro Social (INSS). A fraude foi relevada pelo Metrópoles.
“Lesar milhões de aposentados é atentado de proporções inaceitáveis”, afirmou. Ele alegou, ainda, que não conhece o Careca do INSS. “Não tenho qualquer participação nas fraudes do INSS”, repetiu Wilians, várias vezes, ao longo da CPMI.
A partir de então, nervoso, Wilians usou a frase “Reafirmo que nada tenho a ver com o objeto desta CPMI” reiteradamente para evitar os demais questionamentos dos parlamentares. Ele negou-se a fazer um juramento sobre falar a verdade na comissão e foi cobrado por isso.
O vice-presidente da CPMI, o deputado Duarte Jr. (PSB-MA), foi um dos que mais questionou o depoente. Ele classificou como “gravíssima” a postura do advogado, cobrando a necessidade de ele falar a verdade. Irritado, Duarte Jr. chamou Wilians de “Tigrão das redes sociais” e afirmou: “Você tem o meu total desprezo”.
Após uma pausa para o almoço, a sessão voltou com Wilians mantendo a tática de pouco responder e os parlamentares usando o tempo de perguntas para fazer discursos políticos. O líder da oposição, senador Rogério Marinho (PL-RN), por exemplo, usou seu tempo para combater “a falácia” de que os descontos ilegais a aposentados teriam começado ou aumentado durante o governo de Jair Bolsonaro.
Bate-boca
A senadora Eliziane Gama (PSD-MA) e o relator da CPMI do INSS, Alfredo Gaspar (União Brasil-AL), protagonizaram um bate-boca nesta quinta-feira (18/9). Em resposta, Gaspar declarou que a comissão “não é um circo”, e pediu respeito: “Isso aqui não é um circo. A senhora me respeite. Eu não tratei ninguém mal”.
Eliziane interrompeu e o chamou de “tigrão”. “Vai vir de tigrão para cima de mim? Me respeite o senhor, deputado. Vossa Excelência pensa que está falando com quem? Quando é para falar com mulher é desse jeito, mas com homem é de uma educação”.
O relator falou, então: “A senhora não se preocupe. A senhora está preocupada com sua irmã ser convocada”.
Mais depoimentos
A CPMI também ouvirá os empresários Rubens Oliveira e Milton Salvador de Almeida Jr., sócios de Carlos Camilo Antunes, mais conhecido como Careca do INSS, além do advogado Nelson Wilians. Além de Tânia Carvalho dos Santos, esposa do Careca do INSS.
A CPMI do INSS também aprovou a convocação de Romeu Carvalho Antunes, filho de Tânia e o Careca do INSS.
Os parlamentares ainda convocaram Cecília Montalvão Simões, esposa do empresário Maurício Camisotti, que alegou não ter dinheiro para comparecer ao colegiado — Camisotti foi preso em São Paulo pela Polícia Federal, suspeito de integrar o esquema de descontos indevidos.
A CPMI rebateu, dizendo que o custeio dos deslocamentos estava previsto nos requerimentos de convocação, mas aceitou marcar nova data para o depoimento dos três, anteriormente previsto para esta quinta (18/9).
Nessa quarta-feira (17/9), o ministro André Mendonça, do STF, negou o pedido de Romeu Carvalho, Cecília Montalvão e do advogado Nelson Wilians para não comparecerem à CPMI. Dessa forma, eles terão de ir ao colegiado, mas, como foram convocados na condição de testemunhas, não serão obrigados a falar.
Entenda a participação dos convocados
- Nelson Wilians
O advogado Nelson Wilians aparece em transações financeiras que estão nos relatórios da PF. Em relatório da Coaf, anexado às investigações que basearam a operação Sem Desconto, Wilians movimentou R$ 4,3 bilhões em “operações suspeitas”. Wilians pagou R$ 15 milhões a Maurício Camisotti. Ele também fez uma doação para a campanha do senador Rogério Marinho (PL-RN), integrante da CPMI.
- Romeu Carvalho Antunes
Filho de Antonio Antunes, Romeu Carvalho Antunes atuou de forma intensa no esquema. Segundo registros do governo federal, Romeu é sócio direto de ao menos quatro empresas do Careca do INSS e ainda tem participação indireta em outros três negócios do pai, por meio de outros CNPJs dos quais Romeu consta como um dos sócios.
“Todas as empresas supracitadas cuja sociedade Romeu Carvalho integra foram utilizadas para envio de valores a pessoas físicas e jurídicas relacionadas a servidores do INSS”, diz a PF no relatório da Operação Sem Desconto.
Romeu foi alvo de busca e apreensão. Sob posse do filho do Careca do INSS, foi encontrada uma frota milionária de seis carros e uma motocicleta, entre eles um Porsche e dois veículos da marca BMW.
A PF afirma que Romeu ficaria como sócio de um call center de Antonio Antunes caso o lobista conseguisse consumar um plano de fuga para os Estados Unidos. O Careca do INSS mantinha duas centrais de atendimento, chamadas “Truetrust” e “Callvox”, que tinham como clientes entidades associativas de aposentados, e montou uma terceira, chamada Amigo Center S/A, voltada a créditos consignados.
Ainda de acordo com investigações da Polícia Federal, os rendimentos mensais declarados pelo filho do Careca do INSS saltaram de R$ 1,6 mil para R$ 107,6 mil, entre dezembro de 2023 e fevereiro de 2024 – período em que Romeu começou a integrar a sociedade das empresas do pai.
- Tania Carvalho dos Santos
Esposa de Antonio Antunes, Tania e o Careca do INSS negociaram, em menos de seis meses, o mesmo imóvel sucessivamente, movimentando R$ 353 milhões. A PF suspeita que as transações foram feitas para “ocultar a origem dos recursos”.
Tania também é sócia do Careca do INSS na compra à vista de uma mansão de R$ 3 milhões, em abril de 2024, posteriormente demolida. Como mostrou o colunista Tácio Lorran, no terreno, a família começou a construir uma nova casa, avaliada em R$ 9 milhões, mas a obra ficou embargada após o aprofundamento das investigações da PF.
- Cecília Montalvão Simões
Esposa de Camisotti, Cecília Montalvão Simões é uma das sócias da Benfix, empresa que fez contratos milionários para modernizar a gestão de entidades associativas autorizadas pelo INSS a fazer descontos de mensalidade direto na folha de pagamento dos aposentados.
Sozinha, ou com parentes, ela movimentou R$ 295,2 milhões sob suspeita, segundo o Coaf. Ao todo, o “clã Camisotti” movimentou quase R$ 790 milhões em operações investigadas pela PF.
Ligado a três entidades da farra dos descontos (Ambec, Cebap e Unsbras), Camisotti teria recebido ao menos R$ 43 milhões dessas entidades por meio de suas empresas, segundo a PF.
- Rubens Oliveira Costa
De acordo com dados da PF, Rubens Oliveira Costa é o “carregador de mala” do Careca do INSS. Ele sacou R$ 919,4 mil de empresas de Antonio Antunes, Romeu Antunes e Thaisa Jonasson, companheira do ex-procurador do INSS, Virgilio Oliveira Filho, um dos receptores de propina do esquema.
Rubens também aparece como um dos sócios da empresa “Venus Consultoria & Assessoria Empresarial S/A”, junto com Alexandre Guimarães, ex-diretor do INSS, que participou de uma reunião com o atual ministro da Previdência, Wolney Queiroz (PDT), na sede do Ministério, durante a transição dos governos de Jair Bolsonaro (PL) e Luiz Inácio Lula da Silva (PT).
O histórico societário de Rubens Costa o torna uma espécie de elo entre o lobista Antonio Antunes e servidores do INSS que receberam propina no esquema. Além da sociedade com Guimarães, ele foi sócio do Careca do INSS na “Brasília Consultoria Empresarial S/A” e de Thaisa Jonasson na “Curitiba Consultoria em Serviços Médicos”.
- Milton Salvador de Almeida Júnior
Segundo a PF, Milton Salvador ingressou em cinco sociedades com movimentações milionárias feitas em um mês – entre junho e julho de 2024. Antonio Antunes, o Careca do INSS, também aparece como sócio dessas empresas. São elas a “ACCA Consultoria Empresarial S/A”, “ACDS Call Center Ltda”, “Brasilia Consultoria Empresarial S/A”, “Camilo Comércio e Serviços Ltda” e “Prospect Consultoria Empresarial Ltda”. Milton Salvador, ou empresas relacionadas a ele, teriam recebido R$ 48,3 milhões de entidades associativas e empresas intermediárias investigadas pela PF.




















