Convite a israelenses cria crise diplomática com comunidade árabe na UnB

Reitora Márcia Abrahão recebeu embaixador israelense e tratou de cooperação com empresas do país. Críticos veem "legitimação de apartheid"

atualizado 20/02/2021 8:43

Universidade de BrasíliaRafaela Felicciano/Metrópoles

O distanciamento social não impediu a tradição de debates políticos quentes na Universidade de Brasília (UnB). Reconduzida ao cargo há poucos meses pelo presidente Jair Bolsonaro (sem partido), a reitora Márcia Abrahão inicia esta segunda gestão sob críticas de parte da comunidade acadêmica — alguns professores e alunos de origem árabe e simpatizantes da causa palestina.

A reitora virou alvo de críticas após receber o embaixador de Israel no Brasil, Yossi Shelley, no campus da UnB no dia 30 de janeiro deste ano, e postar na internet uma foto dos dois trocando presentes. Nenhum acordo foi fechado ainda, mas tanto Márcia Abrahão quanto o representante diplomático falaram em suas redes sociais sobre a possibilidade de empresas israelenses se instalarem no Parque Científico e Tecnológico da universidade, o PCTec/UnB. Veja:

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Os posicionamentos de defensores da causa palestina começaram na própria postagem de Márcia Abrahão no Instagram. Em carta com duras críticas, membros da comunidade árabe acusaram a reitora e a UnB de, com essa aproximação, “normalizar infrações ao Direito Internacional e aos Direitos Humanos, legitimando apartheid, injustiça ambiental e limpeza étnica”.

O documento traz um longo histórico de casos em que Israel ignorou resoluções de órgãos multilaterais, como a ONU, sobre a Palestina. Assinada por professores eméritos, professores associados e alunos, a carta está, integralmente, publicada ao fim deste texto.

O grupo também iniciou um abaixo-assinado virtual para pressionar a reitora a recuar nos entendimentos com os israelenses. Até a publicação deste texto, pouco mais de 400 pessoas havia assinado a petição.

A reitora ainda não respondeu à carta, mas o imbróglio já chegou à principal instância de debate da instituição de ensino, o Conselho Universitário (Consuni), em reunião virtual no último dia 12 de fevereiro.

Cobrada por um representante dos alunos no colegiado sobre a “contradição” de colaborar com Israel, Márcia Abrahão defendeu o encontro com o embaixador e com representantes de todas as nações com as quais o Brasil tiver relações diplomáticas.

“A UnB tem no seu estatuto a cultura da paz, e nós não vamos responder intolerância com intolerância”, rebateu a reitora. “É uma universidade que está na capital do país, e temos sim que ter relação com todos os países que têm relação diplomática com o Brasil”, defendeu ainda Márcia Abrahão, sem tratar diretamente da questão Israel-Palestina. “Essa é a tradição do Brasil [nas relações exteriores]… até há pouco tempo. É a tradição que eu defendo, que o Brasil não se intrometa em relações internas dos países”, complementou.

As reuniões do Consuni ficam disponíveis no YouTube. O debate acontece a partir do minuto 40 do vídeo abaixo:

Na opinião do historiador e especialista em relações internacionais Sayid Marcos Tenório, vice-presidente do Instituto Brasil-Palestina (IBRASPAL), as palavras da reitora não resolveram a questão. “Quando se sabe qual é a postura de Israel nos territórios ocupados, esse tipo de convênio é incompatível com o que a UnB representa”, afirma Tenório, em entrevista ao Metrópoles.

Assim como os signatários da carta, o pesquisador também se refere à situação imposta por Israel aos palestinos como um apartheid, termo que define o regime de segregação racial na África do Sul entre 1948 e 1994. “A pressão internacional e os boicotes ao governo de segregação na África do Sul foram importantes para acabar com aquele apartheid. E atualmente há um movimento parecido no mundo, que tenta pressionar Israel. Ao cooperar com entidades israelenses, a UnB corre o risco de virar ela mesma alvo desse tipo de boicote”, avalia ainda Sayid Marcos, que é autor do livro Palestina: do mito da terra prometida à terra da resistência (2019).

Em resposta ao Metrópoles, a UnB divulgou nota em que repete as palavras da reitora no Consuni e defende o intercâmbio com instituições de outros países para a melhora de seus indicadores acadêmicos. “É lamentável e extemporâneo que uma pequena parte da comunidade universitária interprete esse movimento como um apoio a qualquer tipo de violação de direitos humanos. É também alarmante que esse grupo seja favorável ao não diálogo com os diferentes países, afinal, não se combate intolerância com intolerância”, diz trecho do comunicado.

Veja a íntegra da nota oficial da UnB:

A Universidade de Brasília tem contato com embaixadas e organizações científicas e culturais de todos os países com os quais o Brasil mantém relações diplomáticas. Por ser uma instituição sediada na capital do Brasil, a UnB tem aproveitado a proximidade com as embaixadas para aumentar as oportunidades de intercâmbio e de internacionalização – aspecto importante para a melhoria de indicadores acadêmicos. O encontro da reitora com o embaixador de Israel, Yossi Shelley, além de não ser o primeiro que ocorre entre ambos, se encaixa nesse contexto. É lamentável e extemporâneo que uma pequena parte da comunidade universitária interprete esse movimento como um apoio a qualquer tipo de violação de direitos humanos. É também alarmante que esse grupo seja favorável ao não diálogo com os diferentes países, afinal, não se combate intolerância com intolerância. A UnB, que abriga em sua comunidade pessoas de diferentes partes do mundo, honra o legado de seus fundadores e segue na defesa da igualdade, da justiça social e da liberdade de pensamento e expressão, fundamentais em um Estado democrático de direito. Também reitera seu compromisso com o combate a qualquer tipo de discriminação e com a promoção de uma cultura de paz, em todos os âmbitos.

Veja a íntegra da carta de membros da comunidade acadêmica:

reitoraUnB by Raphael Veleda on Scribd

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