Contra o autoritarismo, é preciso aprender a discordar, diz antropólogo Roberto DaMatta

No livro Você sabe com quem está falando? pensador brasileiro investiga o autoritarismo brasileiro, mas também vê futuro com esperança

atualizado

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Antropólogo Roberto DaMatta
1 de 1 Antropólogo Roberto DaMatta - Foto: Divulgação/Rocco

Na frente de casa, em Niterói, Roberto DaMatta procura um lugar tranquilo para se sentar e conversar com o repórter. “Aqui está bom porque tem um vento e o sinal do celular é melhor”, diz um dos maiores pensadores vivos do Brasil, e emenda, com curiosidade: “Aí em Brasília está calor? Aqui em Niterói está muito quente”.

A preocupação com o sinal do celular e a aproximação com o interlocutor está conectado com o livro que o antropólogo acaba de lançar: Você sabe com quem está falando? – Estudos sobre o autoritarismo brasileiro (Editora Rocco). A pergunta percorre muitas obras do mestre e doutor pela Universidade de Harvard, nos Estados Unidos. E ela é respondida com três ensaios que falam de relações interpessoais e coletivas, história e tecnologia, entre outros pontos.

“Há duas perspectivas importantes para entender o trabalho. Primeiro, é uma perspectiva de distanciamento daquilo que é próximo. É como fazer uma autoanálise, e não é fácil. É o que acontece quando a gente vira adulto e começa a ver os nossos pais como um homem e uma mulher, com qualidades e defeitos. E as nossas diferenças em relação a eles”, começa DaMatta.

A outra perspectiva é sobre a mudança de comportamento, em um discurso bastante esperançoso. E ele acredita que o “caminho do Brasil é de igualdade maior”. Entretanto, vamos deixar mais para o fim. Primero, a origem do problema. E o autoritarismo brasileiro começa há muito tempo.

“Nos séculos 16, 17, 18, o Brasil era todo regulado em Portugal, e o império português era hierarquizado e aristocrático. E com escravidão. São coisas que a gente esquece, mas que é importante trazer à tona para entender certas coisas. Essas complicações que estão acontecendo no Brasil, hoje, acontecem no mundo todo, mas falo do Brasil porque é onde nós moramos. Está tudo dentro da gente”, ensina um dos intelectuais brasileiros mais citado em teses e estudos em ciências sociais.

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Livro Você sabe com quem está falando, do antropólogo Roberto da Matta
Caso do desembargador Eduardo Siqueira, em Santos, é citado pelo autor
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Caso do desembargador Eduardo Siqueira, em Santos, é citado pelo autor

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Hierarquização

Isso se refletiu dentro da família brasileira, com a hierarquização. Há o pai, a mãe, os irmãos, a empregada. E cada um “sabe” seu lugar. Por isso, dentro de casa, o tal “Você sabe com quem está falando?” não é necessário.  Tudo isso é muito equilibrado na família brasileira. Mas dentro de um autoritarismo bastante forte.

“Se você fala alguma coisa com o seu pai ou a sua mãe que ultrapasse um certo limite, eles vão falar com você, te corrigindo: ‘Você está falando com seu pai. Veja com quem você está falando’”, exemplifica DaMatta. Porém, há um outro problema que ficou cada vez mais destacado a partir da Proclamação da República, em 1889: a diferença enorme que existe entre a casa e a rua.

“A casa está em uma situação de dualidade e de diálogo com a rua. A organização da rua é diferente, é o oposto da casa: não é mais hierarquizado. Quando você chega na rua, ninguém te conhece”, discorre Roberto DaMatta.

Por isso, foi “necessária” a criação de algo que tornasse os dois lugares semelhante. O antropólogo deixa claro que isso ocorre no mundo inteiro. No Brasil, não foi diferente. Surgiu uma consciência baseada em hierarquia, em aristocracia, na cor da pele, no tipo de roupa. Mas se você está em um ambiente regulado por uma suposta igualdade, outras consciências para hierarquizar nasce.

“Em um ambiente assim, se você ocupa um cargo importante e a outra pessoa não reconhece você, você usa o ‘Você sabe com quem você está falando?’. Isso é o cerne, é o centro do autoritarismo brasileiro. É como se fosse um eco ou uma máquina do tempo, em que você, de repente, está na frente de uma pessoa de um passado que você não conhece. É um barão falando”, compara.

Aí surgem, segundo DaMata, frases como “Eu sou assessor do ministro, eu sou secretária do presidente (qualquer presidente seja0″. “A gente, em geral, é instruído a isso”, aponta o estudioso.

Mudança

O que DaMatta coloca, a partir daí, é uma hipótese para o brasileiro pensar e mudar, de maneira mais profunda, o comportamento. E com ela, a tal segunda perspectiva apontada pelo pensador no início do texto.

“As coisas não mudam com um decreto, não mudam quando há um novo presidente, quando um partido dominante sai do poder. As relações pessoais têm um protagonismo muito grande porque elas são regidas por formas de simpatia, de antipatia, que têm a ver com a maneira de falar, de responder, de perguntar”.

Para ele, a sociedade brasileira não treina os cidadãos a negar, a discutir, a discordar. Ele compara com os Estados Unidos, em que discordar é  aprendido desde cedo, para que a pessoa diga o que pensa. “Isso é muito mais igualitário no sentido do cotidiano”.

Mas um novo tempo surge e, com ele, certos equipamentos, como o celular, o smartphone. DaMatta tem uma visão mais otimista do aparelho porque ele expõe situações de hierarquia e autoritarismo. Claro, tais comportamentos de racismo, machismo, injustiça e arrogância sempre existiram. Mas agora são filmadas.

Ele cita vários exemplos atuais. Um deles, o do desembargador Eduardo Siqueira, gravado humilhando dos guardas municipais de Santos. Veja o vídeo:

“O caso do desembargador, que todo mundo viu, exposto na televisão, é um processo de autoeducação, de conflito, que vai além da informação, porque é uma informação conflituosa: ‘Está vendo? Tem gente que ainda usa esse tipo de interação social estabelecendo a sua superioridade em primeiro lugar'”, argumenta DaMatta.

Coronavírus, política e educação

Na entrevista para o Metrópoles, como não poderia deixar de ser, DaMatta também falou da epidemia do novo coronavírus, que tem a ver com o trabalho dele. “O planeta todo está sob um ataque infeccional. E o vírus não escolhe quem atacar: branco, negro, pobre, rico, americano, brasileiro, nordestino. Ele é simplesmente um organismo que faz o que (Charles) Darwin falou: está lutando para sobreviver”, observa.

Porém, ele acha que o brasileiro está em uma situação muito difícil por causa do presidente Jair Bolsonaro. “Temos um chefe de Estado que é uma pessoa totalmente irracional, não tenho outra maneira de descrever. Eu sinto muito falar isso, com o devido respeito. É um sociopata. Briga com todo mundo”, critica.

“O caso do desembargador, que todo mundo viu, exposto na televisão, é um processo de autoeducação, de conflito, que vai além da informação, porque é uma informação conflituosa: ‘Está vendo? Tem gente que ainda usa esse tipo de interação social estabelecendo a sua superioridade em primeiro lugar'”

Roberto DaMatta, antropólogo

E lembra do que ele chama de “relação de simbiose” que Bolsonaro tem com os filhos. “Por isso, a sociedade tem que passar um sistema baseado em família para um sistema baseado em leis, de uma hierarquia familiar para um sistema igualitário. Que é um sistema público. Quando você ocupa um cargo público, você tem que respeitar sempre as leis. Você não pode ter um Queiroz na sua vida. É inadmissível!”, argumenta.

Enxergar isso e tentar mudar esse tipo de situação. “Essa mudança pode levar a uma consciência cultural no sentido, eu espero, de uma sociedade igualitária mais justa, preocupada em criar um sistema de educação primária e secundária que seja gratuito e excepcionalmente bom”.

Para DaMatta, o diferencial, nesse caso, está na valorização dos professores de todos nos níveis, mas principalmente na educação primeira e secundária. “É isso que vai criar o denominador comum em termos de valores. Para não acreditar em todas essas irracionalidades que estão circulando, para você saber o que é fake news e o que não é”, diz.

E se mostra indignado ao mostrar mais exemplos. “Se você conhecer o mínimo de história dos Estados Unidos, da China, do Oriente, do Ocidente, você não vai acreditar nesta estupidez que vão colocar um chip na vacina contra a Covid-19”.

Porém, são a exposição de situações de injustiças, aprender a discordar e dar valor à educação são os caminhos. “O nosso caminho não tem mais retorno. O caminho do mundo, e do Brasil em particular, é o caminho de uma igualdade maior, bem-estar maior e uma distribuição de riqueza”, ensina.

DaMatta acredita que essa mudança vai acontecer de qualquer maneira, mas é preciso se mexer. “Nada é intocável na sociedade pós-moderna. Nada é sagrado e tudo pode ser mexido. Mas tem que ser mexido com razoabilidade, com honestidade”.

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