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Como um pastor do Paraná quer ajudar Lula a fisgar evangélicos

Preso em 2014 e filiado ao Podemos, pastor Paulo Marcelo Schallenberger tenta emplacar um plano em que promete atrair mais evangélicos ao PT

atualizado

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O pastor Paulo Marcelo Schallenberger, em encontro com Lula
1 de 1 O pastor Paulo Marcelo Schallenberger, em encontro com Lula - Foto: Divulgação

São Paulo – Nos tempos de Palácio do Planalto, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) era procurado por líderes evangélicos em busca de apoio. O jogo virou e agora é o petista quem precisa reconquistar parte desse eleitorado.

Em meio a essa busca pelo voto evangélico, um pastor paranaense tenta ganhar a confiança do partido com a promessa de criar mais pontes para o PT com pentecostais e neopentecostais.

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Aos 46 anos, o pastor Paulo Marcelo Schallenberger tenta virar o novo embaixador de Lula junto a igrejas evangélicas.

Nascido em Cascavel e criado em Foz do Iguaçu, Schallenberger apresentou a Lula nesta semana uma proposta batizada de “Esboço de projeto de inclusão do seguimento evangélico ao Partido dos Trabalhadores” (por “seguimento”, entenda-se segmento, na grafia correta em português).

No que chama de “esboço de um plano”, o pastor Paulo Marcelo começa por sugerir a Lula que basicamente tente conhecer mais os evangélicos para cair nos braços e nas preces deles: “para se inserir em um povo é necessário conhecer seus costumes, seus propósitos e suas metas”.

E, logo no começo do “esboço”, pergunta: “o que combatem” os evangélicos? Ele mesmo responde na proposta: “Tudo que ameaça qualquer forma de vida, e os impossibilitam de cultuar a Deus”.

Como sugestão, o pastor recomenda que Lula e o PT adotem um discurso para “demonstrar que é possível viver em sociedade se respeitando as escolhas e que o melhor argumento seja aceito individualmente”.

O pastor exemplifica algumas opiniões que ele vê circular na comunidade evangélica sobre o PT. Ele diz que avaliam que o PT “pretende perseguir as igrejas” e que o partido defende a “proibição de missões evangélicas”.

Daí Paulo Marcelo sugere uma “visão a ser construída”, de que o PT “apoiará as atividades da igreja” e de que vai “ressaltar o papel social no resgate de indivíduos em situação de risco”.

O pastor também sugere ao partido que construa a impressão de que vai dar “incentivo à abertura das relações nacionais e internacionais de proteção aos missionários que se encontram dentro e fora da nação”.

Busca por influenciadores cristãos

Entre as “soluções” propostas ao PT, Paulo Marcelo diz que a sigla deveria atrair “pensadores cristãos que tenham acima de mil seguidores”. Em entrevista ao Metrópoles, o pastor afirma que já até começou a fazer isso – ele alega que já cadastrou 2.600 pastores para ajudar o PT.

“Só um pastor da Assembleia de Deus de Juazeiro, na Bahia, tem 400 igrejas abaixo de sua liderança e fechou com todas elas para apoiar o presidente Lula”, alegou o pastor.

Depois de um encontro com Lula em 13 de dezembro do ano passado, Paulo Marcelo prometeu ao partido que pode criar uma rede de pastores para apoiarem Lula em cada estado do Brasil, para que conquistem o apoio da base dos evangélicos.

Há lideranças petistas, próximas ao ex-presidente, que tratam a abordagem do pastor com ceticismo e distância. A cúpula do PT nega que Lula tenha procurado o religioso e delegado qualquer missão específica.

“Lula explicou que foi apresentado a ele, mas não o encarregou de nada nem faria isso. Ele (o pastor) não recebeu essa missão”, afirmou ao Metrópoles Gilberto Carvalho, ex-chefe de gabinete de Lula e encarregado da criação de uma rede de comitês populares de apoio ao petista neste ano.

Antes de conseguir contato direto com Lula, o pastor procurou diversos próceres do partido para tentar um encontro, sem sucesso. Quem viabilizou a reunião com o ex-presidente foi o presidente do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, Moisés Selerges Júnior.

“Público que o nosso pessoal progressista não atinge”

Paulo Marcelo diz que ainda não teve retorno do partido sobre suas propostas, mas interessa ao partido a promessa de acesso a pentecostais e neopentecostais. O pastor diz que ainda vai ter outras reuniões com petistas.

“Ele tem um público que o nosso pessoal progressista não atinge. Então, deixa ele. Um monte de gente fala mal do Lula. Tem um que está falando bem. Vou falar pra parar de falar? Não vou”, afirmou ao Metrópoles o secretário de comunicação do PT, Jilmar Tatto.

“Temos uma preocupação em relação a esse público, que já foi nosso, foi embora e está voltando em parte. Tem um bombardeio muito grande por parte dos bolsominions, falando mal do PT, ou fazendo montagens sobre o Lula. Por isso está no radar cuidar desse setor”, acrescentou Tatto.

Lula e caciques do PT já possuem interlocução no meio evangélico. O diferencial de Paulo Marcelo, como Tatto ressaltou, é sua vivência em templos da Assembleia de Deus, a vertente evangélica com mais adeptos no Brasil de acordo com o último Censo do IBGE em 2010 (12,3 milhões de fiéis). Mas o Ministério do Belém, um dos braços mais fortes desse grupo religioso, passou a negar que ele faça parte dessa congregação.

Paulo Marcelo diz que só passou a ser renegado por pressão do pastor Silas Malafaia, da Assembleia de Deus Vitória em Cristo, e alega que está de mudança para o Ministério Cidade Missionário, também da Assembleia de Deus.

O pastor fez carreira na Assembleia de Deus em Foz do Iguaçu, no Paraná, mas se mudou para São Paulo há cerca de cinco anos.

Na capital paulista, foi candidato a vereador pelo Podemos em 2020. De acordo com o site do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), Paulo Marcelo ainda é filiado ao partido que tem o ex-juiz Sérgio Moro como candidato presidencial. De 2011 a 2020, ele foi filiado ao PSC, comandado pelo pastor Everaldo Pereira.

O pastor disse que já tinha solicitado a sua desfiliação ao Podemos. Por volta das 15h de sexta-feira (25/02), o pastor enviou ao Metrópoles um comprovante de sua desfiliação protocolada na Justiça Eleitoral momentos antes.

Prisão em Foz do Iguaçu

Na tríplice fronteira, o pastor enfrentou problemas com a Polícia Civil. Paulo Marcelo foi preso em Foz do Iguaçu no dia 16 de julho de 2014, quando foi registrado sob o número 311268 no Departamento Penitenciário do estado do Paraná. Ele pagou fiança e foi solto algumas horas depois da prisão.

O pastor foi preso porque policiais civis da 6ª Subdivisão Policial de Foz do Iguaçu acharam uma pistola calibre 380, com 45 cartuchos de munição, “no interior do closet de sua casa”, e uma “bucha com substância análoga a cocaína”, de acordo com boletim de ocorrência a que o Metrópoles teve acesso.

Venda de BMW

Policiais civis tinham batido na porta de Paulo Marcelo com um mandado de busca e apreensão, porque uma pessoa acionou a polícia e alegou que foi ameaçada com uma arma por ele, depois de ter vendido um BMW 320, em março de 2014, por R$ 80 mil.

Em troca do carro, o denunciante alegou que ficou acertado que receberia do pastor um Celta, avaliado em R$ 20 mil, acrescido de um cheque de R$ 10 mil, que foi devidamente compensado, e outros 10 cheques de R$ 5 mil. Só que o vendedor alegou que os cheques de R$ 5 mil estavam sem fundos e em nome de outra pessoa.

Para receber o restante do pagamento pela BMW, o vendedor alegou à polícia que passou na casa do pastor em 25 de junho daquele ano, quando o pastor teria lhe apontado um revólver e dito: “Só não vou te fazer nada porque você é uma pessoa do bem, mas se você voltar aqui e me cobrar vou te mandar pro inferno”, de acordo com o boletim de ocorrência.

Processo suspenso

Depois da batida policial que achou a pistola e a cocaína, o pastor foi denunciado à Justiça pelo Ministério Público do Paraná, por porte ilegal de arma. Mas o processo foi suspenso ainda em etapa inicial, um benefício previsto para processos penais em que os crimes possuem pena inferior a 4 anos de prisão.

Para conseguir a suspensão do processo, o pastor teve de se comprometer a pagar fiança para uma instituição beneficente, a não frequentar bares e a comparecer mensalmente em juízo para justificar suas atividades.

Paulo Marcelo cumpriu todas essas condições e teve qualquer punição extinta, em março de 2017, por esse caso.

Ao Metrópoles, Paulo Marcelo disse que a arma pertencia a seu segurança e alegou que não tinha nenhuma droga na casa.

“Eu ia lançar minha candidatura a deputado. Apresentei processo contra o acusador. Ele dividia apartamento com um policial que participou da operação”, afirmou.

O religioso diz que o importante para esse ano de eleição é a derrota do presidente Jair Bolsonaro (PL).

“Estou tentando ajudar o evangelho a se libertar do fascismo. Eu penso que esse ano o evangélico vai votar muito mais pelo estômago, pelo trabalho, do que pela ideologia. Estão chegando à conclusão de que ideologia não enche a barriga de ninguém. Não tem condição de manter esse governo”, afirmou.

Imagem abalada

Só que a prisão abalou a imagem do pastor perante parte da comunidade evangélica, na opinião de religiosos que acompanham e estudam essa parcela da população.

“Esses escândalos queimaram a imagem do pastor. O mundo evangélico é rigoroso nessas questões”, avalia o pastor Kenner Terra, da Igreja Batista da Praia do Canto, no Espírito Santo, e professor de ciências da religião.

Paulo Marcelo discorda de qualquer prejuízo para sua imagem. “Apresentei o processo para convenções da Assembleia de Deus e nenhuma convenção me desligou ou teve problema comigo”, afirmou.

A dúvida agora é quanto, de fato, Paulo Marcelo pode ajudar na campanha de Lula, algo que o PT e observadores ainda não arriscam estimar. De todo jeito, é esperado que ele consiga ampliar o diálogo do PT com pentecostais.

“Ele pode ser retoricamente muito mais eficaz do que é na realidade. A grande jogada política com o Paulo Marcelo seria sua capacidade de acesso a pastores que não são midiáticos. O pior que pode acontecer? O pastor ficar ainda mais queimado entre evangélicos, por conta da relação um pouco tensa entre evangélicos e o PT”, avalia Terra.

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