Como a chegada do Ano Novo Lunar é comemorada no Brasil
Saiba como práticas milenares de países asiáticos tomaram conta do território brasileiro
atualizado
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Diferentemente do Ocidente, muitos países asiáticos comemoram o Ano-Novo em duas datas devido ao calendário lunar, que segue as fases da lua. China, Tailândia, Coreia do Sul e Japão são exemplos de nações que celebram a “virada” durante o feriado do Ano Novo Lunar. Em 2023, a data é celebrada desde 22 de janeiro e segue por sete dias.
O Metrópoles conversou com famílias descendentes de chineses, coreanos e especialistas na história da Ásia para entender como a tradição ultrapassa fronteiras e gerações.
Os Zhang, uma família de chineses que está no Brasil desde 1998, época na qual enxergaram no país uma oportunidade de crescer, não abandonaram a celebração da data. Mesmo amando a cultura brasileira, a tradição de comemorar o Ano Novo Lunar segue forte entre os familiares.
Segundo, a filha mais velha do casal, Luana Zhang, 21 anos, a reunião é feita na casa deles, em Brasília (DF). Parentes de todo o país se encontram para celebrar a data com comidas e brincadeiras tradicionais chinesas.
Entre os pratos típicos, a família não passa o feriado sem preparar porções de “jiao zi”, conhecido no Brasil como guioza. Para atrair sorte, eles higienizam algumas moedas e colocam dentro da massa recheada.
Luana diz que essa prática ocorre devido uma lenda chinesa, na qual a pessoa que achar a moeda terá sorte o ano inteiro. “Aqui a gente come uns vinte “jiao zi” [guioza] para tentar encontrar a moeda, mas, eu nunca encontrei”, brinca.

Sem nunca ter passado um Ano Novo Lunar na China, para ela, a maior diferença é o “clima do mundo externo”.
“Em 2019, quando passei uma temporada lá no início do ano, mas voltei antes da data, as ruas estavam todas decoradas e exisitia aquele espírito de celebração como no Natal e Ano Novo no Brasil”, disse Luana.
Para ela, a data revisita as raízes de toda a sua família e traz um “sentimento de renovação”. “São coisas muito diferentes e, também, muito importantes, porque me fazem lembrar um pouco de onde eu vim, de onde os meus pais vieram. Isso é mágico”, afirma.
Como brasileira e descendente de chineses, Luana pretende continuar comemorando o Ano Novo Chinês para perpetuar as tradições. Ela diz que o papel da Embaixada da China no Brasil é importante para perpetuar um “senso de comunidade” entre os chineses que vivem no país.
O casal Maggie Qu e Wilson Liu e seus dois filhos estão no Brasil há três anos, em São Paulo. No ano passado, diversos parentes, desde tios e tias, avós e irmãos, que vivem no país se reuniram para celebrar a data em um jantar.
Ela explica que o Ano Novo Lunar é “muito rico” na China, mas aqui as familias geralmente fazem algo mais simples. Porém, a fartura na ceia e as tradições são mantidas no Brasil. Como a distribuição de uma quantidade simbólica de dinheiro em um envelope vermelho (o “hong bao”) para as crianças e mais velhos.
Durante essa época do ano, a casa de Maggie fica repleta de decorações típicas. Entre elas, os adesivos vermelhos na porta da frente chamam a atenção. A família escreve palavras com pedidos para o ano que se aproxima. Entre elas: ” paz”, “saúde” e “prosperidade”. Segundo Maggie, os desejos devem se realizar durante o novo ano entrando pela “porta da sua casa”.
Para os dois, a data é “uma celebração da família” e de “muito amor”. Eles comentam que a importância é similar ao valor dado as datas do Natal e Ano Novo.
Mesmo assim a diferença entre comemorar o feriado fora da China é “gingantesca”. “O envolvimento é diferente porque o Brasil não segue o calendário lunar. Há algumas peculiaridades da cultura chinesa que são demonstradas com muita firmeza, como as apresentações com tambores, a queima de fogos de artifício e o clima de celebração”, diz Liu.
A família continua com os preparativos da “limpeza do último dia do ano chinês”, na tradição diz que limpar “todos os cantos da casa” deve espantar as energias negativas que entraram no lar durante o período, para começar o próximo ciclo com uma perspectiva positiva e atrair sorte.
Além disso, a ceia do Ano Novo Lunar será organizada novamente na casa do casal.
O que é o Ano Novo Lunar?
Em 2023 é celebrado o ano 4.721 no calendário lunar. Esse novo ciclo será do Coelho, responsável por simbolizar beleza e boa sorte no zodíaco chinês, assim, esse promete ser um ano de felicidade para a maioria das pessoas.
O Ano Novo Lunar também é conhecido como Festival da Primavera. Ele é a celebração mais importante do calendário chinês, e dura sete dias até o famoso Festival das Lanternas. O feriado não tem data fixa no calendário solar, porque ele sempre varia por seguir as fases da lua.
A professora do Nanum Coreano, Sandra Jang, diz que os asiáticos seguem utilizando o calendário lunar porque ele é “muito científico e “cíclico” porque baseia-se nas estações do ano. “Dessa forma os antepassados conseguiam prever as mudanças climáticas sem que isso afetasse a agricultura”, diz.
Historicamente, essa forma de contagem foi decidida como uma espécie de previsão dos períodos de plantio e colheita. A partir dessa premissa, as tradições foram criadas. Os meses podem ter em cerca de 28 ou 29 dias, de acordo com o ciclo da lua. Além disso, alguns anos lunares são menores ou maiores que outros, não existe um padrão.
Para o gerente do Instituto Confúcio na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), Athos Munhoz, 34 anos, a data é um período relativamente longo, uma vez que no Brasil não temos um feriado que se estenda tanto. Na China, ele é extenso para que as pessoas visitem os parentes nos dias seguintes da “virada lunar”.
Segundo ele, a Ano Novo Lunar é fundamental para “manter o seu laço com a cultura chinesa”. Munhoz acredita que o Ano Novo Lunar cumpre as funções do Natal e Ano-Novo comemorados no Ocidente. “É um rito de passagem de ano, como a celebração da prosperidade”.
O Instituto Confúcio busca desmistificar a imagem da China do imaginário dos brasileiros do “país malvado”, “comunista” e do “dragão vermelho”.
“Há uma narrativa muito equivocada e enganosa. Muitas vezes não temos a oportunidade de debater realmente o papel dela no mundo. O nosso obejtivo não é obrigar que as pessoas gostem da China, mas sim que elas a conheçam. Mantendo esse contato com a cultura, elas serão capazes de avaliar por conta própria”, afirma Munhoz.
2023: o ano do Coelho
Cada animal do zodíaco chinês tem uma característica diferente. Alguns deles são considerados tralhadores, inteligentes ou resilientes. A ordem do animal regente de cada ano foi decidido a partir da lenda da “Corrida do Imperador de Jade, uma figura mitológica da China.
Na disputa, o coelho foi o quarto animal a chegar. Segundo Munhoz, mormalmente o ano do coelho é considerado um período para colher os bons resultados do trabalho dos anos anteriores.
Como é na Coreia do Sul?
A Coreia do Sul segue os dois calendários: o solar e lunar. As duas datas comemorativas mais importantes do país são o Ano Novo Lunar e o Chuseok (Festival da Colheita).
Durante a troca do ciclo lunar, o país decreta feriado nacional um dia antes e um dia depois para que todas as familias da Coreia do Sul visitem seus familiares, parentes e os túmulos dos antecessores.
Segundo Sandra, no feriado as pessoas usam o Hanbok (vestimenta típica do país) e preparam algumas comidas tradicionais da época. Ela diz que os coreanos amam comemorar a data e passar tempo com a família.
![Foto de mulher asiática com roupas tradicionais coreanas [hanbok] - Metrópoles](https://images.metroimg.com/sandra-jung-de-hanbok-169x300.jpg)
A família da professora Sandra Jang está no Brasil há 35 anos, quando mudaram-se para o interior do Paraná. Desde 2003, a professora vive em Brasília (DF). Ela defende que a “tradição é seguida por milhares de anos e deve continuar mesmo com a influência do Ocidente”.
“Os costumes realizados no Ano Novo Lunar são coisas passadas de família para família. Não é porque eu moro no Brasil que vou abandoná-las. Gostamos de ensinar as tradições para os filhos”, disse Sandra.
Ponte China-Brasil
A relação da China com o Brasil é historicamente amistosa e ocorre há mais de um século, quando em 1900 os chineses vieram trabalhar nas lavouras de café do interior de São Paulo. Além disso, o país é o maior parceiro comercial nacional.
No Brasil, a comunidade chinesa ultrapassa o número de 300 mil habitantes. A Embaixada da China preparou um cronograma extenso para celebrar o Ano-novo Lunar no país. Nas redes sociais, eles convidam o público para diversos enventos culturais sobre a data comemorativa.
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Além do convite para programações de tradição chinesa, a embaixada postou vídeos ensinando curiosidades, pratos típicos, e costumes do Ano Novo Lunar.
Já em Porto Alegre (RS), o Instituto Confúcio da UFRGS em parceria com diversas escolas e instituições culturais chinesas, organizou um evento cultural para 28 de janeiro às 15h, no Parque da Redenção.













