Com sistema sobrecarregado, SP tem 140 mil pacientes em fila de cirurgias

Após crise de saúde pela pandemia, o município acumula, principalmente, demandas para cirurgia ortopédica, geral e ginecológica

atualizado 14/10/2021 8:49

Elza Fiúza/Agência Brasil

São Paulo – Com a pandemia da Covid-19, o sistema de saúde brasileiro, à beira do colapso, voltou as atenções totalmente ao aumento desenfreado de contaminações e casos graves da doença no país. Agora, entretanto, chega a conta dos procedimentos não ligados ao coronavírus que acabaram represados.

Aconselhadas a seguir em casa, muitas pessoas deixaram de ir a consultas médicas e procurar tratamentos – até porque os hospitais pararam de oferecer alguns serviços no período de crise. Atualmente, só na capital de São Paulo, há 140 mil pessoas na fila para cirurgias eletivas, aquelas que não têm teor urgente. As principais demandas são para as áreas ortopédica, geral, ginecológica e otorrinolaringológica.

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Para o coordenador do Pronto-Socorro de Cirurgia do Hospital São Paulo/Unifesp, Sun Rei Lin, os próximos momentos serão complicados. “Tínhamos uma população com receio de ir para o hospital, e, agora, toda essa turma necessita de atendimento médico praticamente desde março de 2020”, explica.

Exames de rotina também acabaram em segundo plano e muita gente pode vir a descobrir doenças já graves por falta de acompanhamento inicial, o que deve igualmente ajudar a sobrecarregar o sistema. “Tanto o Sistema Único de Saúde (SUS) quanto a medicina suplementar deverão gerar recursos e capital humano para atender todas essas pessoas”, afirma Lin.

No Brasil e no mundo

Em nota, a Prefeitura de São Paulo, por meio da Secretaria Municipal de Saúde (SMS), informou que, nos Hospitais Dia e na rede municipal, as cirurgias eletivas foram retomadas em agosto.

“Para a realização das cirurgias eletivas priorizam-se os usuários que contavam com agendamento, seguidos por aqueles já encaminhados pelo Sistema de Gestão Ambulatorial da Saúde (Siga)”, diz. Em casos de urgência ou emergência, o órgão recomenda a busca por um pronto-atendimento do município.

O problema em questão não se vê apenas no Brasil, mas no mundo inteiro. Em fevereiro deste ano, por exemplo, o Reino Unido acumulava 10 milhões de pessoas aguardando procedimentos cirúrgicos.

De acordo com profissionais da Oregon Health & Science University, nos Estados Unidos, ainda não foi possível recuperar o atraso. Não havia certeza sobre qual seria o destino da pandemia, então o aconselhamento geral foi de cancelar cirurgias e liberar material e espaço para pacientes com Covid-19.

Um estudo realizado pelo Hospital Sírio-Libanês, inclusive, mostra que 50% dos pacientes com câncer no mundo postergaram seus tratamentos por conta do coronavírus. Mais de 60% dos médicos apontaram atrasos — 90% se referiam a radioterapia, 20% a quimioterapia e 76% a cirurgias. A doença teve 77% menos diagnósticos desde o princípio da pandemia.

Programa Avança Saúde

Com o intuito de reorganizar a grade cirúrgica, a Secretaria Municipal de Saúde criou o programa “Avança Saúde – Cirurgias e Exames”. Dessa forma, cinco Hospitais Dia tiveram atendimento ampliado para 24 horas e outras oito unidades para até 22h, antes o atendimento era apenas até as 19h.

Nesta ação, algumas cirurgias que necessitam de maior tempo de observação no pós-operatório e alguns procedimentos diagnósticos que demandam internação passaram a ser realizados nas unidades 24h, permitindo que os leitos dos hospitais sejam destinados às cirurgias eletivas de maior complexidade.

O projeto está direcionado para áreas como cirurgia geral, ginecológica, pediátrica, vascular, proctológica e otorrinolaringológica, além de pequenos procedimentos e exames, como a colonoscopia e a endoscopia digestiva alta, para pacientes idosos ou com comorbidades.

Desde julho, com o início do programa, mais de 17 mil pacientes foram direcionados para avaliação.

Minimizar o impacto

De acordo com o doutor Sun Rei Lin, para um cenário mais ameno, seria necessário, em primeiro lugar, um prontuário único para os pacientes no Brasil, que constasse os dados completos de cada um.

“Isso é um desafio muito grande, ainda mais em um país no qual temos muitos partidos políticos, estados e municípios. A conversa precisaria ser mais afinada, com uma ação conjunta entre as autarquias”, acredita.

Para ele, apesar da implementação de Unidades de Pronto Atendimento (UPA) e Unidades Básicas de Saúde (UBS), há uma dificuldade na comunicação. “O prontuário único diminuiria o gasto com exames, encurtaria a comunicação entre os profissionais e resultaria em uma entrega muito melhor dos resultados”, explica Lin.

“Além disso, temos muitas clínicas não especializadas que começam o tratamento de um paciente e, quando fica mais grave, ele precisa procurar o SUS”, explica o médico.

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