Com queda de renda, santa ceciliers se veem obrigados a deixar bairro
Mesmo com queda na média do preço do aluguel, moradores perderam poder aquisitivo, forçando a busca por novos ares
atualizado
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São Paulo – Caroline Varella está sempre circulando pelos bairros de Santa Cecília e Vila Buarque, próximos ao centro de São Paulo, capital.
Ela foi criada na vizinhança, se formou no Teatro Escola Macunaíma e hoje trabalha como cat sitter (cuidadora de animais, especializada em gatos); 90% da sua clientela está na região. Quem não está é porque se mudou recentemente.
Integrante ativa do grupo de Facebook Cecílias & Buarques —apelidado de Cecibus—, ela gosta de indicar floriculturas e restaurantes vegetarianos para a vizinhança.
Caroline corre o risco de ser rotulada pelo leitor de Santa Cecilier. Um termo cunhado pelas redes sociais e chancelado pela imprensa para descrever os moradores dessa localidade.
Os Santa Ceciliers seriam pessoas que morariam nos bairros de Santa Cecília e Vila Buarque, em apartamentos com chão de taco, adornados por muitas plantas, que apreciariam MPB e que se identificariam politicamente com a esquerda.
Mas há um problema fundamental em colar esse rótulo em Caroline. Independente de suas preferência individuais, ela não mora mais na Santa Cecília. Há um ano, ela e sua família moram em Santana, na região norte.
“A decisão de mudar foi por uma combinação de dois fatores: o valor do aluguel e a segurança”, afirma. “Quando eu era adolescente, a Santa Cecília era tão gostosinha. Era um bairro só de idosos, mais calma e com mais árvores. Os alugueis eram baratos.”
A professora de teatro Lourdes Castro também diz temer os reajustes de aluguel. “O aluguel aqui na Santa Cecília anda bem alto. No meu prédio, há apartamentos do mesmo tamanho que o meu, mas três vezes mais caros. Eu fico besta. Ainda estou morando aqui na avenida Angélica, só não sei por quanto tempo”, diz.
Tiago Romer, vendedor, completou apenas um ano morando no bairro. Veio atraído pelo charme do local. “Consegui um apê lindo e acolhedor. Confesso que rolou uma atração pelos memes, pelo charme de morar aqui. Mas o contrato se encerra no fim do mês e estou indo para a Mooca.”
Segundo Romer, sua queda de renda na pandemia (ele trabalha em cadeia de lojas de grife em shoppings) contribuiu para escolher um novo lar que caiba nas contas.
Mudanças
Através do Cecibus, o Metrópoles localizou ao menos 163 pessoas que deixaram a Santa Cecília no último ano. Estatisticamente este número é irrelevante, mas ver os carretos de mudança circulando pelo bairro parece pesar na impressão que os moradores têm de que a região está mais cara.
Nas redes sociais, pipocam reclamações. “Na rua Palmeiras estão cobrando R$ 2.100 por um buraco de 10 m²”. “Meu reajuste vai ser de 23%, sem condições, procuro um apê próximo. Alguém sabe de algo na República?”. “Ajudem uma cecilier a não mudar pra muito longe!
Valor do aluguel: impressão versus realidade
Em agosto de 2020, a Imovelweb, um dos maiores portais imobiliários do país, divulgou um relatório que dava lastro à opinião dos moradores. O documento afirmava que a Vila Buarque teve uma elevação de 24,5% no valor do aluguel, entre julho de 2019 e julho de 2020. A maior alta na capital no período.
O aluguel de um apartamento padrão na região (65m², 2 dormitórios e 1 vaga de garagem) custava, em média, cerca de R$ 3.336 ao mês.
Porém, nos últimos 12 meses com a pandemia, o valor do aluguel baixou 3,6%. Somando e subtraindo taxas, seguros e condomínio, hoje o aluguel na mesma região é, em média, de R$ 2883 ao mês.
O descompasso entre os números e a impressão dos moradores pode ser explicada pela perda de renda população durante a pandemia, segundo pesquisa da reportagem.
De acordo com estudos da Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do Estado de São Paulo (FecomercioSP), a pandemia afetou de uma forma específica aqueles que não são muito pobres, e não receberam o auxílio emergencial, mas também não são ricos. Essa fatia média não conseguiu manter seu estilo de vida.
“No grupo do meio é que os efeitos da crise devem ser efetivamente sentidos diante de seu padrão de consumo, dos efeitos e da localização da inflação, além dos riscos para manter o emprego devido à crise”, afirmou artigo da associação.
Em novembro de 2020, o Ibope apontava que 70% dos paulistanos relatou ter perdido renda durante a pandemia. Os dados do Ibope casaram com os do Centro de Estudos em Finanças (FGVcef) da Fundação Getulio Vargas (FGV EAESP), que a população que ganha até R$ 8.640, que é onde se encaixa a média de renda da Santa Cecília relatou ter perdido até 40% de sua renda.
Por fim, cabe destacar que os perfis de profissionais que chegaram ao bairro desde 2015 foram muito afetados pela pandemia: artistas autônomos, publicitários, jornalistas, trabalhadores de eventos e empreendedores de bares, de acordo com levantamentos do Ministério da Economia.
A valorização do metro quadrado até 2020, aliada com a instabilidade de renda na pandemia, também espantou os moradores mais antigos, aposentados e comerciantes.
Uns vão, outros chegam
Se alguns moradores deixam, imóvel abaixo da faixa de R$ 3000 não fica ocioso no bairro. Um porteiro e “faz tudo” de um prédio da avenida Angélica conta, em clima de causo, como tem visto as mudanças.
“No próximo mês, se muda um casal que tá vindo lá da zona sul. Antes morava uma senhora. O apartamento dela era bem como o pessoal gosta, cheio de samambaia. Ela demorou trinta anos para fazer o jardim dela. O casal nem se mudou, encomendaram as plantas. Fizeram uma Amazônia em uma tarde”, diz o funcionário, rindo.
De acordo com imobiliárias que fazem parte da Imovelweb, o fluxo de bairros mais caros para o centro, e de moradores de centro para bairros periféricos, mas com boa estrutura, é uma tendência do pós-pandemia.
Profissionais do tipo “faz tudo”, diaristas especializadas em mudanças e serviços de carreto confirmam a tendência e dizem que focar em Santa Cecília tem sido um bom negócio.
Altilha Santos está há dez meses vivendo apenas de realizar limpezas pré e pós mudança na região. Cada diária rende entre R$ 300 e R$ 500 através e ela tem feito uma média de oito serviços deste tipo por mês. “Aqui é ótimo, muita gente indo, muita gente vindo, muita gente voltando, muito piso pra encerar. Graças a Deus, trabalho não está faltando”.
A cada mudança, pessoas doando móveis, roupas e muita quinquilharia fazem a festa de quem fica
O apartamento do vendedor Tiago Romer já tem dono. Um amigo que virá do Alto de Pinheiros, região mais cara. “Para ele, a Santa Cecília está baratíssima. Mas eu gostei muito daqui. Quando as contas melhorarem, estarei de volta”. Até lá, Romer pretende ficar de olho em oportunidades no Facebook da vizinhança.
Já Caroline Varella diz que não pensa em voltar. “Eu saí pensando ‘na primeira oportunidade estarei de volta”. Hoje em dia eu não penso isso, não”. Segundo ela, valeu a pena trocar “as ruas sujas, o barulho e a falta de segurança” pela vista da Serra da Cantareira.
Recentemente, ela passou a ver em reportagens o estereótipo de “Santaners”, porque o bairro seria um reduto bolsonarista. “Só vi panelaço contra ele. Ninguém fala que o centro também votou em peso no Bolsonaro. Espero que os Santa Ceciliers não descubram Santana, porque eles vão amar o chão de taco daqui.”






















