Ciro Nogueira quis tirar doleiro do esquema de propina, diz Lava Jato

Inquérito no Supremo mostra que presidente nacional do PP pretendia assumir papel de destaque na 'estrutura criminosa'

atualizado 24/04/2018 13:17

Marcos Oliveira/Agência Senado

Inquérito da Lava Jato no Supremo Tribunal Federal (STF) afirma que o presidente nacional do PP, senador Ciro Nogueira (PI), pretendia assumir papel de destaque na “estrutura criminosa” envolvendo parlamentares do partido, em 2012, e instalada na Petrobras. Segundo a investigação, Ciro teria tentado substituir o doleiro Alberto Youssef na organização do pagamento de propinas do esquema montado na estatal petrolífera desde 2004.

Nesta terça-feira (24/4), Ciro e o deputado Eduardo da Fonte, o Dudu da Fonte (PP-PE), foram alvo de buscas da Polícia Federal. Os dois estão sob suspeita de tentarem comprar o silêncio de um ex-assessor do PP, testemunha chave.

A operação foi autorizada pelo ministro Edson Fachin, do Supremo, que também decretou a prisão preventiva do ex-deputado Márcio Junqueira (PROS/RR), apontado como elo dos parlamentares com o ex-assessor que está colaborando com as investigações.

Segundo o inquérito apresentado pela Procuradoria-Geral da República (PGR) em setembro de 2017 e assinado pelo então procurador-geral Rodrigo Janot, o doleiro Alberto Youssef era ligado a personagens mais antigos do partido, como o ex-deputado José Janene (morto em 2010 e apontado como o mentor do esquema de cartel e propinas na Petrobras).

Por seu lado, o grupo de Ciro e Paulo Roberto Costa, ex-diretor da Petrobras, preferia o operador Henry Hoyer, mas não teve sucesso em sua meta de assumir o controle da distribuição de propinas.

“Na prática, Alberto Youssef, por já ter bom relacionamento com as empreiteiras, permaneceu no exercício da função, em conjunto com Henry Hoyer”, traz o documento da PGR.

Hoyer foi preso na Operação Sem Fronteiras, 43ª fase da Lava Jato. Depois, o juiz Sérgio Moro mandou soltá-lo.

Segundo delação de Youssef anexada ao inquérito, ele “praticamente continuou a fazer o mesmo que fazia anteriormente, com a única modificação de que, ao invés de repassar os valores diretamente aos integrantes do PP, passou a fazê-lo por intermédio de Henry, que, por sua vez, entregava os valores a (deputado) Arthur de Lira (PP/AL)”.

Um repasse de R$ 1,6 milhão deu início à operação deflagrada nesta terça-feira, após Ciro e Dudu da Fonte tentarem comprar o silêncio do ex-assessor.

Dinheiro desviado
O inquérito detalha que, em 2011, parlamentares do PP, por meio de um contrato fictício com a empresa KFC Hidrossemeadura, pertencente a Leonardo Meirelles e o grupo Queiroz Galvão, teriam recebido dinheiro desviado da Diretoria de Abastecimento da Petrobras.

Os valores teriam sido transferidos para Hong Kong por Leonardo Meirelles e lavado por meio de comerciantes chineses da Rua 25 de Março, popular centro comercial em São Paulo.

Depois, Meirelles teria repassado o dinheiro a Youssef, que “se encarregou de transferir os valores para a organização criminosa relacionada ao PP”, em Brasília.

Com a palavra, a defesa de Ciro Nogueira
O criminalista Antônio Carlos de Almeida Castro, o Kakay, declarou:

“O senador se encontra fora do Brasil, não sabendo em qual país e que não foi possível ainda falar com ele. Desconhece a defesa, até o presente momento, as razões da determinação judicial do Ministro Fachin. É certo que o senador sempre se colocou à disposição do Poder Judiciário, prestando depoimentos sempre que necessário e, inclusive, já foi alvo de busca e apreensão. Continuará a agir o senador como o principal interessado no esclarecimento dos fatos. No momento, a defesa aguarda contato com o Senador para poder ter o necessário instrumento de poderes que dará direito ao acesso aos fundamentos da medida de busca e apreensão.”

 

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