Cidade da polêmica do “proibiu morrer” tem cemitério lotado por Covid

Biritiba-Mirim já proibiu população de morrer por falta de vagas no cemitério em 2005. Agora se vê com o mesmo problema com a pandemia

atualizado 24/02/2021 10:40

Obras no cemitério de Biritiba-Mirim (3)Divulgação / Prefeitura de Biritiba-Mirim

São Paulo – Sebastião Antunes, mais conhecido como Tião, é coordenador do cemitério municipal de Biritiba-Mirim, no interior de São Paulo, e está correndo contra o tempo. Ele tem a missão de aumentar as vagas no cemitério da cidade até abril de 2021.

Atualmente, há apenas 15 vagas no campo santo e a meta de Tião é preparar mais 40 covas.

Biritiba-Mirim fica na Região Metropolitana de São Paulo, a 61 km da capital. A cidade tem população estimada de 32,8 mil habitantes. De acordo com o boletim epidemiológico do município, desde o início da pandemia, já morreram 46 biritibanos de Covid-19.

Parece pouco, levando em consideração os números do país, mas foi o suficiente para que o cemitério recebesse mais sepultamentos do que o normal.

O aumento recente de contaminação pelo novo coronavírus deixou o prefeito Carlos Alberto Taino Júnior, conhecido como Inho, em estado de alerta. Até a publicação desta reportagem, 1.108 biritibanos já pegaram a doença, dos quais 217 (cerca de 20%) são casos ativos neste momento.

Desde o início de fevereiro, Inho e Tião têm gravado vídeos para a população, informando do andamento das obras no cemitério e pedindo para que a população obedeça os protocolos sanitários. Inho, em especial, quer impedir que a cidade reviva um drama de 16 anos atrás.

“A obra teve uma pausa por conta do mau tempo, mas agora estamos fazendo tudo o mais rápido possível. Teremos 40 vagas e vai ter vaga se precisar, numa urgência. Estamos acelerando para que aquele episódio que aconteceu no passado fique no passado”, declarou Inho.

Ele se refere ao ano 2005, quando o ex-prefeito Roberto Pereira da Silva, o Jacaré, baixou lei que queria proibir a população de morrer na cidade.

É proibido morrer

Em 2005, o prefeito Jacaré tomava uma decisão radical e que ele sabia que não passaria facilmente pela Câmara Municipal de Vereadores —de fato, não passou. Jacaré queria proibir a população de morrer em Biritiba-Mirim.

O antigo cemitério de 1910 estava tão lotado que os novos defuntos estavam sendo sepultados nos corredores do campo ou amontoados nos jazigos. “Uma indignidade”, diz o ex-coveiro José Barreto.

A situação já era grave em 2004, quando Jacaré decretou “estado de calamidade para enterros”. Qualquer tentativa de construção de um novo cemitério esbarrava na legislação ambiental.

“A gente fez essa lei para chamar a atenção das autoridades, para que ajudasse a buscar uma solução”, diz Jacaré.

Necrochorume na capital do agrião

Cerca de 89% do território de Biritiba-Mirim fica numa região de mananciais. Essa característica dificulta a expansão de cemitérios tradicionais.

Isto ocorre porque cemitérios precisam de uma preparação adequada, pois os corpos dos mortos liberam uma substância chamada necrochorume, que pode contaminar lençóis freáticos e reservas subterrâneas.

A contaminação da água não é um problema apenas para as torneiras dos moradores de Biritiba-Mirim. Deve preocupar a todos que gostam de agrião.

Biritiba-Mirim é a capital brasileira do agrião. A cidade é responsável por 50% da produção paulista da hortaliça, além de ser polo regional de outras verduras. A produção abastece a Região Metropolitana de São Paulo, todo o litoral, Baixada Santista, Vale do Paraíba e o estado do Rio de Janeiro.

Ao proibir a população de morrer, a cidade teve atenção nacional para seu drama e conseguiu uma reunião no Conselho Nacional do Meio Ambiente (Conama).

“A lei foi polêmica, mas foi boa. Se não fosse aquilo talvez não tivéssemos o novo cemitério. Foi a maneira que encontramos de pressionar, porque era uma urgência”, declarou José Barreto, coveiro da cidade, na época.

O Conama permitiu que a cidade ganhasse novo cemitério, mas que deveria obedecer uma série de regras para evitar a poluição da água dos mananciais e da irrigação do famoso agrião.

Cinco anos depois, em 20 de dezembro de 2010, Inho, já prefeito da cidade, inaugurava o cemitério Firmino Antônio Dias, no Jardim Takebe.

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Entrega das obras

O cemitério no Jardim Takebe tem capacidade para 12 mil sepulturas, mas o terreno precisa ser preparado para que o chorume cadavérico não contamine a água dos mananciais e a água que irriga as plantações de agrião na cidade.

Segundo o prefeito Inho, as obras de preparação das vagas custará R$ 216 mil e estará pronta em dois meses. Até lá, o prefeito clama que a população obedeça os protocolos sanitários contra a Covid-19.

“Gente, a Covid-19 aumenta a cada dia. Vamos manter a distância, vamos sempre usar álcool gel na mão e máscara. Este é a mensagem que eu quero deixar. A pandemia para a acabar depende de cada um de nós”, declarou Inho.

 

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