Cemitérios de Goiânia duplicam enterros e aumentam exumações em 192%

Demanda da pandemia pressiona unidades administradas pela prefeitura, que promete contratar mais coveiros e abre valas com ajuda de tratores

atualizado 05/04/2021 21:03

Exumação em cemitério de GoiâniaVinícius Schmidt/Metrópoles

Goiânia – A pandemia da Covid-19 fez cemitérios públicos de Goiânia mais que dobrarem o número de sepultamentos e registrarem aumento de 192% no total de exumações, nos três primeiros meses deste ano, em relação ao mesmo período de 2020. Ossadas desenterradas ficaram espalhadas no chão de alguns deles.

Com exclusividade, o Metrópoles obteve o levantamento da Gerência de Administração de Cemitérios e Central de Óbitos da Prefeitura de Goiânia, vinculada à Secretaria Municipal de Desenvolvimento Humano e Social. A situação da letalidade no país, onde indústrias acumulam pedidos para produção de ao menos 100 mil caixões, como mostrou o portal, não para de se agravar.

A capital goiana tem quatro cemitérios públicos. De janeiro a março deste ano, foram sepultados neles 1.580 corpos, o que representa um aumento de 64% em relação ao total do primeiro trimestre tanto de 2020 quanto de 2019, separadamente.

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Sepultamentos

Abaixo, veja, na sequência, número de enterros mensais de 2019, 2020 e 2021, em cemitérios públicos da capital goiana.

  • Janeiro: 349 | 324 | 411
  • Fevereiro: 279 | 283| 429
  • Março: 335 | 354 | 740
  • Abril: 345 | 337
  • Maio: 340 | 332
  • Junho: 339 | 401
  • Julho: 346 | 639
  • Agosto: 288 | 598
  • Setembro: 334 | 505
  • Outubro: 306 | 459
  • Novembro: 319 | 331
  • Dezembro: 324 | 342

“Foi um aumento considerável”, afirma a gerente de administração de cemitérios e da central de óbitos, Larissa Maria Pereira Hesketh Silva. “A grande maioria dos sepultamentos é de moradores de Goiânia.”

Salto vultoso

Só os enterros de março representam quase a metade (47%) do total realizado este ano, em cemitérios públicos da capital. Ao todo, 740 corpos foram enterrados apenas no último mês. No mesmo período de 2020, foram 354, e, de 2019, 335.

“O cansaço bate”, diz um coveiro do município que pediu para não ser identificado. O grande número de sepultamentos fez a prefeitura mandar retroescavadeiras para abrirem covas nos cemitérios, repetindo cenas semelhantes às de Manaus no início da pandemia.

Desde o início da pandemia, no ano passado, até o dia 30 de março, Goiânia registrou 3.602 mortes por complicações da Covid-19, o que equivale a 31% dos 11.432 óbitos provocados nos 246 municípios de Goiás. Só no mês passado, a doença matou 896 pessoas na capital e 2.915 no estado.

Nem todas as vítimas são enterradas na cidade. Algumas são sepultadas no interior ou em municípios de outros estados, onde nasceram ou moram familiares.

Sobrecarregados pelas mortes da Covid-19, os cemitérios da cidade entraram em uma bomba-relógio na corrida contra o tempo para garantir vagas para enterros de pessoas sem jazigo particular e não intensificar o sofrimento de famílias. Muitas vezes, elas viram seus entes queridos morrerem sem vaga de unidade de terapia intensiva (UTI).

Só nos três meses deste ano, coveiros desenterraram 1.343 ossadas humanas para completar a quantidade de covas necessárias a 1.580 sepultamentos realizados no mesmo período. Os enterros em massa aumentam o risco de contaminação dos lençóis freáticos.

Explosão de exumações

A seguir, veja, dados mensais de 2019, 2020 e 2021, na sequência, sobre número de pessoas mortas que tiveram ossadas retiradas em cemitérios de Goiânia.

  • Janeiro: 296 | 275 | 350
  • Fevereiro: 237 | 240 | 364
  • Março: 284 | 215 | 629
  • Abril: 293 | 337
  • Maio: 289 | 286
  • Junho: 288 | 340
  • Julho: 294 | 543
  • Agosto: 244 | 508
  • Setembro: 283 | 429
  • Outubro: 260 | 459
  • Novembro: 271 | 281
  • Dezembro: 275 | 290

De janeiro a março, a quantidade de exumações representou 85% do total de sepultamentos. Em média, o trabalho de retirada de ossadas leva cerca de 40 minutos e, segundo a administração de cemitérios, ocorre conforme necessidade.

“A gente enterrou seis hoje em sequência, agorinha tem mais cinco que chegarão [ao cemitério], fora as covas que temos de abrir para retirar os ossos”, afirma um coveiro, que faz revezamento diário para sepultamento de corpos e exumação, mergulhado em uma intensa sobrecarga de trabalho.

Em média, a prefeitura leva cinco anos para fazer exumação, mas, como a demanda por covas era baixa, os cemitérios públicos tinham boa parte delas fechada há 10 anos ou mais.

Contratação de coveiros

Agora, a necessidade de mais valas para enterros pressionou a prefeitura a começar planejamento para contratação de mais coveiros. “A data [de contratação] não está definida, pois estamos no contrato, mas será o mais breve possível”, afirma a administradora.

De acordo com ela, por plantão, trabalham de quatro a seis coveiros em cada um dos cemitérios. “São convocados mais coveiros, se houver necessidade”, explica a responsável pela área.

Um dos cemitérios da capital, o Jardim da Saudade, parou de fazer sepultamentos de vítimas de Covid-19, e os corpos que seriam enterrados nele passaram a ser levados para outro, o Vale da Paz.

“A demanda está alta e o Cemitério Jardim da Saudade não tem estrutura física para tantos sepultamentos. Seria necessário mais espaço, pois ele é muito pequeno, se comparado aos outros”, diz a administradora.

Mortes em geral

O Metrópoles também obteve levantamento anual da Gerência de Administração de Cemitérios e Central de Óbitos da Prefeitura e Goiânia que comprova o que já era visível. Assim como em todo o país, a pandemia acelerou, substancialmente, o total de mortes em geral registradas, oficialmente, na cidade.

De acordo com dados oficiais, a central de óbitos registrou 20.020 mortes no ano passado, o que representou um aumento de 20% em relação a 2019. Na capital, em 2020, mortes por Covid foram registradas a partir de março.

Óbitos por ano

Abaixo, confira quantidade de mortes registradas pela Central de Óbitos da Prefeitura de Goiânia, oficialmente, nos últimos quatro anos.

  • 2017: 15.990
  • 2018: 16.143
  • 2019: 16.600
  • 2020: 20.020

Mesmo com a alta demanda por sepultamentos, segundo a gerente, não há qualquer estudo sobre a possibilidade de abertura de novo cemitério em Goiânia nem de cremação dos corpos.

Questionada sobre a capacidade de covas em cada um dos cemitérios públicos de Goiânia, a administração informou que não tem como dimensionar o número exato.

Maior da capital, o Cemitério Parque tem cerca de 100 mil jazigos; o Santana, aproximadamente 8 mil; o Vale da Paz, 15 mil; e o Jardim da Saudade, 5 mil.

“Todas estão em pleno uso”, diz a gerente da prefeitura. “Vai abrindo covas ou jazigos conforme necessidade”, ressalta.

Na capital, também existem três cemitérios particulares (Jardim das Palmeiras, Parque Memorial e Vale do Cerrado).

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