Caso Master atrasa indicação ao BC e Copom tem dois diretores a menos
Copom tem a segunda reunião do ano com dois diretores a menos após atraso na indicação de nomes pelo Palácio do Planalto
atualizado
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A crise provocada pelo escândalo do Banco Master passou a interferir na recomposição da diretoria do Banco Central (BC) e atrasou as indicações do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) para duas cadeiras da autoridade monetária.
As vagas, nas áreas de Política Econômica e de Organização do Sistema Financeiro, seguem abertas desde o fim de 2025.
Com isso, o Comitê de Política Monetária (Copom) iniciou o ano operando com dois diretores a menos, em um momento sensível para a condução dos juros e da política monetária.
O atraso ocorre em meio à repercussão do escândalo envolvendo o Master, considerado por integrantes do governo como uma das maiores fraudes bancárias já registradas no país.
O caso envolve suspeitas de gestão fraudulenta, emissão de títulos sem lastro, lavagem de dinheiro e uso de estruturas financeiras complexas para ocultar recursos.
As investigações, conduzidas pela Polícia Federal (PF) na Operação Compliance Zero, avançaram sobre executivos, investidores e conexões políticas do banco, ampliando o alcance institucional da crise.
O rombo pode chegar a bilhões de reais e já provocou efeitos em fundos públicos, no sistema financeiro e até no Fundo Garantidor de Crédito (FGC).
Diante desse cenário, o governo optou por cautela. Nos bastidores, a avaliação é de que qualquer indicação para o BC neste momento poderia aumentar o ruído político e gerar desconfiança no mercado financeiro, especialmente em relação à autonomia da instituição.
Fontes a par do assunto afirmam que, além do momento conturbado para o BC, o clima político no Congresso não permite uma indicação.
A avaliação é que a quantidade de assuntos discutidos neste momento dificultaria uma análise e até a aprovação dos nomes enviados por Lula. Isso porque os indicados precisam ser aprovados pela Comissão de Assuntos Econômicos do Senado Federal.
Os indicados pelo presidente tem o costume de ir até os gabinetes parlamentares para conversar com os senadores, e fazer o chamado “beija-mãos” antes de passar pela sabatina. O alto fluxo de atividades no parlamento, no entanto, atrapalha esse momento importante.
Sugestões de nomes
O ministro da Fazenda, Fernando Haddad, chegou a levar sugestões de nomes ao presidente, entre eles, os de economistas ligados à equipe econômica, mas fez questão de minimizar o peso das indicações. Segundo ele, tratam-se apenas de sugestões, e não de escolhas fechadas, o que reforça o momento de indefinição dentro do governo.
O primeiro nome é o do Secretário de Política Econômica da pasta, Guilherme Mello. O segundo, é o professor de Cambridge, Tiago Cavalcanti.
Enquanto Lula adia a decisão, o BC segue operando com estrutura incompleta. A ausência de dois diretores reduz o colegiado responsável por definir a taxa básica de juros, a Selic, atualmente em 15% ao ano, o que pode impactar o ritmo e o tom das decisões.
Na prática, um Copom incompleto tende a adotar postura mais conservadora, evitando movimentos bruscos enquanto não há plena recomposição da diretoria.
O cenário preocupa porque 2026 é um ano estratégico para a política monetária, com pressão sobre juros, inflação ainda sensível e expectativa de retomada mais consistente da economia. Além de se tratar de um ano eleitoral com forte importância para Lula.
Entenda o que é o Copom
- O Comitê de Política Monetária é o órgão do Banco Central responsável por definir a taxa básica de juros da economia, a Selic;
- O grupo usa a Selic para controlar a inflação, quando ela sobe demais, os juros aumentam; quando está baixa, há espaço para reduzir;
- O Copom é formado pelo presidente do Banco Central e pelos diretores da instituição, especializados em áreas como política econômica e regulação;
- O colegiado se reúne a cada 45 dias para analisar dados da economia, como inflação, câmbio, atividade e cenário internacional, antes de votar a taxa.
Pressão institucional
O caso Master também aumentou a pressão sobre o próprio Banco Central, que passou a revisar normas de supervisão e mecanismos de controle para evitar novas falhas no sistema financeiro.
Ao mesmo tempo, o episódio gerou reação política, o Senado instalou um grupo de trabalho para acompanhar as investigações, enquanto parlamentares cobram explicações sobre eventuais falhas de fiscalização e possíveis conexões entre o banco e autoridades.
Mesmo que Lula avance com os nomes nos próximos dias, o processo ainda depende de sabatina e aprovação no Senado, o que pode prolongar o vácuo na diretoria do BC.
O indicado de Lula ao STF, Jorge Messias, por exemplo, ainda não passou por uma sabatina e espera que a sessão seja marcada pelo presidente da casa, Davi Alcolumbre (União-AP).
Na prática, o caso Master deixou de ser apenas uma crise bancária e passou a influenciar diretamente o funcionamento da autoridade monetária e o tempo das decisões econômicas do governo.
Diretoria do BC será totalmente composta por indicados de Lula
Dos 9 diretores do BC, 7 foram indicações de Lula durante o seu mandato. As duas vagas que restarão entre a diretoria do banco são de nomes indicados pelo ex-presidente Jair Bolsonaro (PL).
A lei da autonomia do BC estipula mandatos fixos de quatro anos para todos os membros da diretoria.
Confira os integrantes do BC indicados por Lula:
- Gabriel Galípolo – presidente do Banco Central;
- Ailton Aquino – diretor de Fiscalização;
- Gilneu Vivan – diretor de Regulação e Organização do Sistema Financeiro ;
- Izabela Moreira Correa – diretora de Cidadania e Supervisão de Conduta;
- Nilton David – diretor de Política Monetária;
- Paulo Picchetti – diretor de Assuntos Internacionais e de Gestão de Riscos Corporativos e Diretor de Política Econômica;
- Rodrigo Alves Teixeira – diretor de Administração.
