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Brasil

Caso Lulinha: Careca do INSS criou consórcio para driblar governo

Segundo depoimento à PF, grupo reuniria quatro empresas para disfarçar suposto favorecimento à World Cannabis

29/08/2026 13:30, atualizado 29/08/2026 13:35
VINÍCIUS SCHMIDT/METRÓPOLES @vinicius.foto
Caso Lulinha: Careca do INSS criou consórcio para driblar governo

O empresário Antônio Carlos Camilo Antunes, conhecido como Careca do INSS, teria articulado a formação de um consórcio de empresas para disfarçar um suposto favorecimento à World Cannabis, empresa ligada a ele, em um projeto do Ministério da Saúde.

A estratégia envolveria a lobista Roberta Luchsinger e Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, filho do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). As informações foram divulgadas pela revista Veja.

O projeto previa que o Ministério da Saúde contratasse a World Cannabis para fornecer medicamentos à base de canabidiol. O valor estimado era de R$ 627 milhões.

Segundo o empresário Edson Claro, ex-funcionário de Camilo Antunes, o plano era ajustar o termo de referência da contratação para restringir a disputa a quatro empresas previamente escolhidas.

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Três seriam convidadas pelo Careca do INSS e a quarta seria a própria World Cannabis.

O modelo permitiria que as empresas participassem formalmente da concorrência, enquanto Camilo Antunes tentaria, por meio de Luchsinger e Lulinha, destravar entraves dentro do governo.

Para o negócio avançar, ainda seriam necessárias autorizações da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) e certificações internacionais. Esses requisitos reduziriam o universo de cerca de 400 empresas do setor para aproximadamente dez, segundo o depoimento.

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Careca do Inss Lancha
Lobista Antonio Carlos Camilo Antunes, o Careca do INSS, durante CPMI do INSS
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Antonio Carlos Camilo Antunes, o Careca do INSS

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Arte Metrópoles/Carla Sena
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Careca do INSS

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Influência no governo

  • As investigações da PF apontam que o então chefe de gabinete de Lula, Marco Aurélio Ribeiro Santana, conhecido como Marcola, recebeu o termo de referência do projeto. Ele também seria um dos contatos de Roberta dentro do Palácio do Planalto.
  • No depoimento, Edson Claro afirmou ter entendido que a formação do consórcio serviria para “dissimular eventual favorecimento à World Cannabis”. Ainda segundo ele, mesmo com a divisão do negócio entre quatro empresas, os lucros projetados seriam elevados.
  • Em abril de 2024, Camilo Antunes viajou à Colômbia com um grupo para tentar comprar parte de uma das empresas que fariam parte do consórcio. O negócio não foi concluído.
  • Segundo Claro, o empresário demonstrava confiança de que a articulação política funcionaria e chegou a garantir que o pagamento seria feito de forma antecipada.
  • Luchsinger, conforme o depoimento, atuava como intermediária entre o Careca do INSS, Lulinha e Gustavo Gaspar, antigo sócio de Camilo Antunes e também investigado por suposto tráfico de influência no Executivo. Ela era descrita como uma espécie de “secretária” de Fábio Luís.
  • A PF identificou ainda pagamentos de pelo menos R$ 1,5 milhão feitos por Camilo Antunes à lobista para intermediar interesses dele junto ao governo.

Encontro com integrante da Saúde

Para tentar viabilizar o projeto, Camilo Antunes se reuniu em um restaurante de Brasília com Roberta Luchsinger e Swenderberger Barbosa, conhecido como Berge, que ocupava o segundo cargo mais importante no Ministério da Saúde.

Na época, havia expectativa de que Berge assumisse a presidência da Anvisa. A nomeação seria considerada estratégica pelo grupo, já que a agência tem papel central na regulamentação de medicamentos, incluindo produtos à base de cannabis medicinal.

Conversas telefônicas obtidas pela PF indicam que Marcola e Lulinha eram cobrados com frequência por Roberta para marcar encontros ou almoços com Berge.

Em uma das mensagens, Camilo Antunes teria demonstrado insatisfação com a falta de resultados da lobista: “tá na folha [de pagamento]? Tem que resolver”.

Em março de 2024, Roberta enviou a Marcola orientações sobre o que Berge deveria procurar dentro do Ministério da Saúde. No mês seguinte, Berge disse à lobista que iria “atualizar conversas” com ela.

Depois, após encaminhar a Marcola um rascunho de ato que dispensaria licitação para a compra de material derivado de canabidiol, Roberta voltou a cobrar Lulinha para que ele se articulasse dentro do governo.

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Lula nega conhecer lobista

Durante sabatina no Jornal Nacional, na quinta-feira (27/8), Lula chamou Roberta Luchsinger de “pilantra” e afirmou não conhecê-la.

Após a declaração, opositores recuperaram ao menos dez fotos publicadas pela própria Roberta nas redes sociais em que ela aparece ao lado de Lula.

O projeto envolvendo a World Cannabis acabou não avançando. As denúncias sobre o esquema de descontos e desvios envolvendo aposentados e pensionistas do INSS, que vieram à tona posteriormente, também atingiram o grupo investigado e interromperam os planos.