Brumadinho: “mimos” emocionam e dão força a bombeiros durante buscas

Militares contam sobre o trabalho exaustivo e como têm driblado a situação com o carinho recebido pela comunidade local

atualizado 18/02/2019 11:46

Bárbara Ferreira/Especial para o Metrópoles

De Belo Horizonte (MG) – Um misto de cansaço e gratidão toma conta dos bombeiros militares à frente do trabalho de resgate das vítimas do rompimento da barragem I da Mina do Córrego do Feijão, em Brumadinho (MG). Os profissionais se revezam em turnos (geralmente de sete dias) e equipes para que todos consigam descansar sem que a missão seja prejudicada. Em meio a um trabalho exaustivo na lama deixada pela Vale, as equipes encontram conforto no apoio que recebem dos voluntários, da família e da população local.

As equipes são treinadas e preparadas para enfrentar esse tipo de situação, mas algumas vezes é preciso parar e receber o apoio ofertado. Para o tenente Roberto Marangon de Varginha, no Sul de Minas, é necessário cuidar tanto do corpo quanto da mente. “Já tivemos situações, por exemplo, de homens que nos acionaram e pediram ajuda. Eles foram para um terreno muito longe, expostos ao sol e precisavam de apoio para retornar”, contou. Ele coordena uma tropa e deve estar atento ao trabalho e ao bem-estar da equipe.

Para Marangon, algumas situações podem mexer mais com o militar. “Se você encontra uma criança em uma situação dessa, por exemplo, e você tem um filho, fica mais abalado”, apontou ele, que afirma não esquecer de uma criança carbonizada que resgatou quando a filha, hoje com 20 anos, era pequena.

Ele classifica Brumadinho como a missão mais intensa em 10 anos no Corpo de Bombeiros. Mesmo assim, durante as buscas, a preocupação com o trabalho em si supera qualquer emoção. “A gente fica muito imbuído com a missão. No momento de atuar, o sentimento às vezes nem aparece tanto. Ele vai aparecer quando você coloca a cabeça no travesseiro, fecha o olho e vem aquela imagem”, revelou.

A farda para os leigos parece dificultar o trabalho, mas os bombeiros explicam que se trata de uma proteção ao sol. “A gente acaba se acostumando com a roupa, e ela serve para nos proteger. Mas temos sempre que manter a hidratação. Aqui mesmo tivemos um companheiro que não se hidratou devidamente e, no dia seguinte, tivemos que deixá-lo de repouso”, relatou Marangon.

De acordo com o capitão Acácio Tristão Gouveia, 37 anos, de Juiz de Fora, as equipes têm enfrentado dias de trabalho intenso no local da tragédia. “Quando nós iniciamos, um dia após o rompimento, o grupo chegava aqui no pôr do sol, tinha limpeza da tropa, fazia um debriefing (reunião para análise de resultados) para planejar as ações do dia seguinte e dormíamos por volta de 1h30, 2h, recomeçando com a mesma equipe por volta de 5h30”, contou.

Solidariedade
A solidariedade dispensada pela comunidade, no entanto, faz com o que os dias sejam mais afetuosos. Em um cenário de destruição, a bondade das pessoas empenhadas em minimizar os transtornos é reconhecida pelos militares. Integrantes de uma igreja evangélica se uniram para criar uma “lavanderia” improvisada no QG dos Bombeiros para lavar as roupas dos militares são um exemplo da rede de apoio. “Ter alguém para pegar a sua roupa, lavar e te entregar no dia seguinte limpinha, com um bilhetinho e um bombom é a excelência da humanidade. Tem muita gente boa no mundo”, reconheceu o capitão.

Também na área ficam diversos profissionais da saúde à disposição dos militares, como fisioterapeutas, psicólogos, enfermeiros, entre outros. A equipe reconhece a importância de um acompanhamento de perto nesse sentido, mesmo para quem já está acostumado a lidar com cenários de tragédias.

As centenas de voluntários que se dedicam a atividades no local, inclusive, têm feito um trabalho intenso para manter as famílias amparadas e cuidar dos militares em serviço. Os pequenos detalhes diferenciam o trabalho em Brumadinho de outros já feitos. “Costumamos falar somos mais bem tratados aqui do que em casa”, contou em tom de brincadeira Acácio Gouveia. Até Reiki — terapia aplicada pelas mãos que visa canalizar as energias — receberam de uma profissional.

A família tem para eles um papel ainda mais fundamental nesse contexto. “Às vezes, uma ligação, uma conversa no WhatsApp com a família, um vídeo, tudo isso ajuda a enfrentar os desafios. A gente foca na missão de levar conforto e pensa que tem muita gente com uma situação muito pior do que a nossa”, complementou o capitão.

Atividades administrativas
Além de todos os bombeiros que se revezam entre a lama de rejeitos, há uma grande equipe de profissionais nas atividades administrativas do resgate. “É como se fosse uma empresa. As buscas em campo são a nossa atividade fim, mas existe toda uma equipe que cuida dos revezamentos, da localização de cada militar, da logística e do planejamento”, explicou o capitão Acácio.

O clima de amizade e companheirismo do grupo colabora para que a rotina exaustiva de buscas seja minimamente mais leve. “A gente dorme um do lado do outro. Às vezes, você vê que o colega que é falastrão deu aquela murchada, a gente procura, pergunta, tenta ajudar”, explica o tenente Maragon.

Acácio afirma que, para lidar com a mudança na rotina do pelotão e minimizar o cansaço natural de tantos dias de trabalho intenso, busca-se proporcionar pequenos “mimos” para a equipe. “Muda um pouco a rotina. Mas o que a gente procura oferecer para tropa não é luxo, mas conforto. Um banho quente, um colchão macio, uma água gelada, um isotônico, uma barra de cereal. Às vezes a comunidade traz um bolo, um biscoito caseiro. Isso faz a gente se sentir mais humano”, ponderou.

Os pequenos detalhes, que às vezes passam despercebidos no dia a dia de quem está distante de uma tragédia dessa magnitude, para eles faz toda diferença. “Outro dia alguém deu até um refrigerante para a gente almoçar”, contou com admiração o tenente. Para ele, são esses pequenos gestos que fazem a diferença em um contexto de tragédia.

Últimas notícias