Brasil registra 122 mil casos de “canibalismo” entre frangos. Entenda

Frangos em granjas estão expostos a outras condições “normais” dentro do cotidiano dessa produção gigantesca, como canibalismo e tumores

atualizado

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Lygia Lyra/Metrópoles
Montagem colorida de frangos
1 de 1 Montagem colorida de frangos - Foto: Lygia Lyra/Metrópoles

Cada vez mais robustos e com crescimento extremamente rápido, os frangos vêm se multiplicando dentro das granjas comerciais, solidificando a imagem do Brasil como o maior exportador da carne no mundo. No entanto, a ocorrência da gripe aviária representou um baque para a indústria. Grandes mercados, como a China e a União Europeia, decidiram suspender as compras. Os frangos, contudo, estão expostos a outras condições “normais” dentro do cotidiano dessa produção gigantesca, como canibalismo e tumores.

Até maio deste ano, o Brasil registrou cerca de 248 milhões de doenças e condições de saúde adversas em frangos, que seriam voltados, principalmente, para o comércio. Os dados obtidos pelo Metrópoles são provenientes do Serviço de Inspeção Federal (SIF), órgão vinculado ao Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa), e foram consultados no final dessa sexta-feira (23/5).


Entenda

  • As ocorrências de canibalismo foram registradas em mais de 122 mil casos no início do ano. Apesar do termo sugerir algo feroz, na realidade, está frequentemente associado a desequilíbrios nutricionais, estresse e até excesso de lotação em áreas de criação.
  • Houve cerca de 16 mil ocorrências de tumores (neoplasias) em frangos, que podem estar relacionadas à genética de crescimento muito rápido utilizada nas granjas comerciais. Contudo, do ponto de vista da saúde pública, a maior preocupação é a Salmonella, que teve casos notificados pelo SIF.
  • Apesar dos altos números, as fontes destacam a atuação da fiscalização. A rápida ação dos servidores públicos federais foi crucial para conter a propagação da gripe aviária após a detecção em granjas comerciais, limitando um impacto econômico ainda maior.

As situações mais comuns são mais simples e estão relacionadas com lesões vinculadas ao tamanho e problemas no manejo dos animais. Os dados indicam, por exemplo, 68 milhões de alguma forma de contaminação gastrointestinal e biliar, 47 milhões de lesões na pele e 54 milhões de casos de artrite. Os aspectos geram a condenação, parcial ou total, das carcaças.

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A professora Liris Kindlein, professora da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) que atua no Centro de Ensino, Pesquisa e Tecnologia de Carnes (Cepetec), comenta sobre o fato dessas lesões, que nem sempre estão ligadas a uma doença patogênica específica, serem as principais causas de condenação de carcaça atualmente.

Segundo a especialista, a causa dessas situações é multifatorial. As condições do espaço das granjas, intimamente ligadas ao manejo inadequado, influenciam consideravelmente para o surgimento dessas ocorrências. Exemplos incluem a má qualidade da superfície onde as aves vivem, ventilação inadequada e controle insuficiente de umidade e amônia. Um ambiente com muita amônia, por exemplo, pode prejudicar as barreiras do trato respiratório, provocando inflamações como a aerossaculite.

Canibalismo

Os registros indicam uma situação surpreendente para o público geral: o canibalismo. A fiscalização encontrou 122.175 casos em frangos vivos no período entre janeiro e maio deste ano. As ocorrências existiram em 12 estados brasileiros, com muitos eventos no Sul, onde estão os maiores produtores.

O imaginário causado pelo termo pode gerar a ideia de que os frangos se digladiam, alimentando com a carne dos seus pares e deixando carcaças de outros bichos espalhadas pelas granjas. A vida real é um pouco mais simples, mas ainda revela problemas estruturais dentro da indústria de carne de frango no Brasil.

Kindlein relata que o canibalismo é associado a uma alteração de comportamento animal. Para outros animais, como perus e suínos, a situação pode ser relacionada à hierarquia social. Em frangos de corte, não é comum e, quando ocorre, está mais frequentemente relacionado a um desequilíbrio nutricional, como a falta de minerais ou vitaminas, levando o animal a bicar outro bichos, principalmente as penas.

“Quando a gente fala a palavra canibalismo é muito associada a essa coisa feroz. Não é exatamente isso que acontece. Quando temos situações de um animal alterando o seu comportamento, picando o outro, puxando a pena de outro, a gente pode associar muitas vezes isso a algum desequilíbrio nutricional”, comenta a professora. Outros motivos para o canibalismo entre os frangos é o estresse devido ao manejo inadequado, como excesso de lotação e até problemas de iluminação.

Tumores e salmonella

Por conta da genética dos frangos utilizados nas granjas comerciais, eles crescem de uma maneira muito rápida. A característica pode estar relacionada com neoplasias, crescimento anormal de células que acabam formando tumores. Foram 16 mil ocorrências em 2025, sendo que 1.984 foram no Rio Grande do Sul.

A professora Liris Kindlein comenta que, em relação à saúde pública, a maior preocupação sobre as condições dos frangos de corte é sempre a Salmonella, e não necessariamente as lesões que levam à condenação de carcaças. As artrites e inflamações levam a perdas econômicas por condenação, mas não representam um risco significativo para a saúde do consumidor.

Nos registros analisados pelo Metrópoles, o Serviço de Inspeção Federal (SIF) conseguiu notificar 24.978 registros de Salmonella Pullorum, em São Paulo, e 105 mil casos de Salmonella Typhimurium, no estado de Santa Catarina. Houve ainda outras situações em que as próprias granjas prontamente notificaram o Ministério da Agricultura e Pecuária e atuam seguindo as normativas para evitar contaminações.

Fiscalização e qualidade da carne brasileira

Em um primeiro momento, os números das doenças podem parecer estratosféricos, mas fazem parte de um contexto com o imenso nível de produção de carne de frango no Brasil. Além disso, mostra como a fiscalização está presente e atuante dentro do setor de alimentos. Diversos especialistas ouvidos reforçam que o país é um exemplo para o mundo no que se refere à segurança sanitária de alimentos, principalmente aqueles oriundos de animais.

O serviço de fiscalização na área de indústria de alimentos, particularmente na avicultura, é dividido em duas grandes áreas: a Saúde Animal e o Serviço de Inspeção Federal (SIF). A Saúde Animal lida com a produção em si, os animais vivos, desde a reprodução até o frango que vai para abate ou poedeira, sendo gerenciada pelo Ministério da Agricultura (MAPA) em conjunto com as Secretarias Estaduais de Agricultura.

Já o SIF atua nos frigoríficos e locais de embalagem, realizando a inspeção sanitária dos produtos como ovos e carne, aplicando o controle de doenças nas aves e verificando o atendimento dos requisitos sanitários para emissões certificadas e importação. A fiscalização é considerada essencial para o cumprimento dos requisitos sanitários e para evitar crises.

Montemar Onishi é fiscal federal do Mapa e diretor do Sindicato Nacional dos Auditores Fiscais Federais (Anffa Sindical). Ele relata que é graças aos servidores públicos que foi possível evitar que a gripe aviária pudesse prejudicar de forma mais grave a economia: “Sem uma devida fiscalização, seria um vírus que ia se espalhar rapidamente de forma muito fácil. Então, assim, infelizmente foi constatado, é a realidade, aconteceu, mas, felizmente, isso foi publicado e as ações foram tomadas bem rapidamente”.

O controle é ainda mais presente em doenças de alta mortalidade. A fiscalização federal nos frigoríficos ajuda a constatá-las, levando à notificação das secretarias estaduais de agricultura para fiscalizar as granjas e permitir ações rápidas. “Sem a fiscalização adequada, existe sempre o risco da empresa pensar na questão de prejuízo, de lucros e optar por esconder a informação no informe ou passar essa informação”, relata Onishi.

Privatização na vigilância

Um ponto importante levantado pelo profissional é a Lei de Autocontrole (Lei 14.515), aprovada no final de 2022. Um de seus artigos, segundo o diretor da Anffa, tem sido interpretado por alguns para permitir a privatização da fiscalização e inspeção nos processos antes e depois do abate.

Haveria ainda uma portaria para a regulamentação dessa possibilidade, permitindo que entes privados pagos pelos próprios frigoríficos realizem essa inspeção, em consulta pública. O sindicato (ANFA Sindical) é fortemente contrário a essa medida, considerando-a inconstitucional e com riscos muito grandes.

“Essa inspeção antes de morte poderia ser transmitida para um veterinário privado, pago pelos próprios fiscalizados. Ele teria a obrigação, em tese, de informar que aquele frigorífico ou aquele lote teria que ser recolhido, teria que tomar diversas ações, sendo que o salário dele está sendo pago pelo próprio frigorífico, né? Isso, para mim, é um conflito de interesses absurdo”, relata o fiscal.

A fiscalização estatal atua com o interesse do país em mente, não o custo individual da empresa. Essa privatização inicial poderia se estender para outras áreas dentro do agronegócio. “Se você não tomar a ação de testar, averiguar, fazer o exame o mais rapidamente possível, isso em questão de dias, questão de semanas, vai para o país inteiro”, aponta Montemar.

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