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À primeira vista, os olhos pretos reluzentes despertam atenção. Logo, percorremos a visão pelo restante do corpo e nos deparamos com quatro chifres, mais de 15 piercings e alargadores, o cabelo longo com dread que chega até os pés e a língua bifurcada (divida em duas partes). Essa é a descrição de um morador de Taguatinga (DF) conhecido pela peculiar aparência.

O body piercer Wildson Santos, 30 anos, também chamado popularmente de Dark Vírus, realizou diversas mudanças corporais. Ele relata que sua paixão pelo mundo das transformações começou ao folhear o Guinness Book, livro dos recordes.

Wildson ficou interessado na página com fotos de pessoas que mudaram completamente a imagem original, como o homem-lagarto e o homem-gato. Ele relaciona as alterações corporais com a arte.

Dark Vírus revela que, aos 16 anos, resolveu fazer uma perfuração. Como ainda era menor e ninguém queria realizar o procedimento, ele comprou uma agulha “de costurar bola” e colocou o primeiro piercing sozinho. “Eu era todo perfurado. Fui minha própria cobaia”, disse o body piercer.

Desconstrução do “belo”
Wildson passou a achar piercings e tatuagens muito comuns e decidiu partir para algo mais pesado, ou “trash”, como intitula. Segundo afirma, o objetivo das modificações é “desconstruir a imagem de perfeição criada por Jesus”. Os olhos pintados de preto, por exemplo, são para “matar a ideia de que o branco é o espelho da alma”, explicou Dark Vírus.

O motorista da Secretaria de Saúde do Distrito Federal (SES-DF) Roberth Mytchuwm Machado Rego, 56 anos, conhecido como Kalango Corredor, tem praticamente o corpo inteiro coberto por tatuagens. São 283 desenhos – cobrindo 98 % da pele – e 10 piercings. Utilizando o mesmo método de Dark Vírus, também deu nova cor ao globo ocular: azul-turquesa.

Depois de desenhar metade do corpo, Kalango Corredor decidiu ser o homem mais tatuado do Distrito Federal e continuou a pintar a pele. De acordo com o servidor público, a ideia era romper paradigmas. “Queria quebrar o tabu e o preconceito”, disse. Para ele, “tatuagem e piercing não definem caráter”.

Esse comportamento, conhecido atualmente pelo termo body modification, é utilizado há séculos por várias culturas – como pode ser visto em algumas tribos indígenas, entre membros de certas religiões da Índia e, também, em diversos lugares do Oriente.

A professora de antropologia da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) Carmen Sílvia Rial, 63 anos, afirma que as modificações corporais sempre foram marcas de identidade. Conforme explica a especialista, cultua-se essa prática desde a antiguidade, como nos casos de circuncisão feminina (mutilação da genitália), escoriação facial e argolas de metal no pescoço – costumes comuns na África.

“Os indivíduos buscam um grupo ao qual pertencer. O Brasil, por exemplo, é o segundo no ranking de cirurgias plásticas. Significa a necessidade de adaptar o corpo a uma ideologia de beleza. Esse pessoal que realiza mudanças drásticas quer se desfazer desse conceito. Acho isso maravilhoso”, disse a antropóloga.

Perigo
No Brasil, esse radicalismo estético tem se tornado cada vez mais comum. Dark Vírus aconselha que apenas pessoas preparadas psicologicamente entrem no mundo das mudanças corporais. “A maioria das transformações não podem ser revertidas. O cara se olha no espelho e quer voltar atrás, aí já era. Tem de segurar a ‘lombra'”, afirmou. Existem casos de suicídio causados pelo arrependimento após os procedimentos, conta ele.

Não parece ter sido o caso de Felipe Klein, que tirou a própria vida aos 20 anos, em 2004. O filho de Odacir Klein, ex-ministro dos Transportes durante o governo Fernando Henrique Cardoso, realizou várias alterações no corpo, mas não é possível afirmar o motivo do suicídio. Ele gostava das mudanças pelas quais passou. Era uma celebridade na rede.

Uma pista pode estar no diagnóstico recebido na adolescência: “transtorno afetivo bipolar” ou “psicose maníaco-depressiva”. Felipe vivia entre a depressão e a euforia. Para ficar estável, tomava um coquetel de medicamentos.

A dramática história do rapaz foi contada em matéria de Renan Antunes de Oliveira, que ganhou o Prêmio Esso Nacional de reportagem. O autor trabalhava no Jornal Já, de Porto Alegre (RS), e concorreu com “A tragédia de Felipe Klein”.

Preconceito
Wildson trabalha em um estúdio de tatuagem. De acordo com ele, foi o único estabelecimento a contratá-lo entre tantos outros em que ofereceu seu trabalho como body piercer. “A sociedade não aceita”, desabafou. Apesar de olhares tortos e ofensas dirigidas a ele, Dark Vírus diz não se importar com o que pensam a seu respeito.

O body piercer diz ter se surpreendido positivamente com algumas pessoas. “Uma vez, estava caminhando e uma ‘vovozinha’ me perguntou se era possível, de verdade, colocar tudo isso no rosto. Disse que sim. Ela pediu para tirar uma foto comigo e, até hoje, me manda mensagem para trocarmos uma ideia”, contou.

Kalango relata que o preconceito esteve muito presente em sua vida. Acostumado a comparecer a convenções de tatuagem, onde é considerado a atração principal, o servidor público do DF afirma notar claramente o contraste em outros ambientes. “Na rua, as pessoas ficam olhando. Uma vez, estava descendo as escadas da rodoviária, uma senhora me viu e fez o sinal da cruz”, relembrou.

Segundo Dark Vírus, a principal barreira da mudança corporal é a forma de pensar de quem passa pela modificação. “Quando o próprio corpo é aceito, a opinião dos outros não importa”, pondera.

 

 

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