BC liberou aporte no Master apesar da suspeita de “circularização”

Documentos obtidos pelo Metrópoles mostram sinais de manobra para ocultar origem dos recursos. Operação foi defendida por diretor afastado

atualizado

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Fachada do edifício sede do Banco Central do Brasil, em Brasília Metrópoles
1 de 1 Fachada do edifício sede do Banco Central do Brasil, em Brasília Metrópoles - Foto: Breno Esaki/Metrópoles @BrenoEsakiFoto

O Banco Central aprovou, em junho de 2025, um aumento de capital do Banco Master, mesmo diante de indícios de circularização de recursos — prática em que o dinheiro apenas circula entre empresas ligadas, sem entrada real de novos valores.

A decisão se deu após um parecer favorável do chefe do Departamento de Supervisão Bancária, Paulo Sergio Neves de Souza, posteriormente afastado por ligações com Daniel Vorcaro.

As informações constam em documentos do Banco Central enviados à Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) do Crime Organizado aos quais o Metrópoles teve acesso.

Os documentos mostram que o Departamento de Monitoramento do Sistema Financeiro (Desig) identificou sinais de que os recursos utilizados na operação poderiam ter origem no próprio Banco Master. A análise foi reforçada pelo Departamento de Organização do Sistema Financeiro (Deorf), que apontou inconsistências nas transações.

A tentativa de capitalização teve início em janeiro de 2025, quando o banco buscou elevar seu capital em cerca de R$ 1 bilhão. A medida fazia parte de um plano de recuperação apresentado ao Banco Central em abril daquele ano, em meio a uma crise aguda de liquidez.

De acordo com os técnicos, uma letra financeira de R$ 478 milhões, utilizada na operação, teria sido adquirida pela Lurix Capital S.A. com recursos de cessões de crédito que o Master havia feito ao Banco de Brasília (BRB).

A área técnica do BC sinalizou que havia indícios de que, após uma série de operações, o ativo teria voltado ao Master. De acordo com o documento, em janeiro, o ativo foi transferido da Lurix para um fundo gerido pela Reag. Em troca, a gestora teria recebido participações na Master Holding, empresa sediada nas Ilhas Cayman e então controlada por Vorcaro.

Pouco tempo depois, a Master Holding foi reorganizada. A empresa, que foi rebatizada como Titan, passou a controlar a Master Holding S.A., localizada no Brasil, que por sua vez acarretou na Reag, se tornando gestora indireta do banco de Vorcaro.


Quem é Paulo Sérgio Neves

  •  Paulo Sérgio Neves de Souza atuou no Departamento de Supervisão Bancária do Banco Central entre 1998 e 2012.
  • Depois, assumiu a chefia do Departamento de Gestão Estratégica, Integração e Suporte da Fiscalização (Degef).
  • Em 2015, passou a chefiar o Departamento de Supervisão Bancária (Desup).
  • Em 2017, foi nomeado diretor de Fiscalização do Banco Central, cargo que ocupou até 2023.
  • A diretoria de Fiscalização é responsável por acompanhar as operações das instituições financeiras e propor medidas para conter irregularidades, incluindo recomendações de liquidação à diretoria colegiada do BC.
  • Em março de 2026, Paulo Sérgio foi alvo de uma operação da Polícia Federal que investiga fraudes no Banco Master.
  • Ele é investigado por possíveis omissões na supervisão da instituição.
  • Na ocasião, um ministro do STF determinou seu afastamento do Banco Central e o uso de tornozeleira eletrônica.
  • Paulo Sérgio também foi alvo de sindicância interna no Banco Central.

Conexões

Os técnicos destacaram possíveis conexões entre os envolvidos. O próprio Banco Master aparecia como cotista do Reag Growth. No Astralo, outro fundo ligado à operação, aparecem como cotistas a Super Empreendimentos e a Trustee, empresas também ligadas a Vorcaro, além de familiares de João Carlos Mansur, dono da Reag.

O Deorf também identificou a existência de operações de crédito entre o Banco Master e a Reag, somando cerca de R$ 250 milhões, além de um empréstimo de R$ 350 milhões concedido pelo banco à Reag em 2023, destinado a um investimento na Steelcorp, empresa do setor de aço, de Roberto Justus.

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Paulo Sérgio Neves de Souza, aliado de Vorcaro no BC
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Paulo Sérgio Neves de Souza, aliado de Vorcaro no BC

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Os achados foram enviados ao Desup, chefiado por Paulo Souza, que discordou das conclusões das áreas técnicas. Então chefe-adjunto do departamento, ele disse que a relação das operações “é completamente extemporânea”.

“A chegada de recursos na Lurix Capital tem como base uma hipótese, necessitando novas diligências para a sua confirmação”, disse.

Paulo Sergio Neves de Souza também avaliou que alguns dos fundos citados já mantinham investimentos no Banco Master desde dezembro de 2024, o que, segundo ele, enfraqueceria a hipótese de circularização.

Sobre o empréstimo à Reag, Souza afirmou que a destinação dos recursos para a Steelcorp já era conhecida pela supervisão e minimizou o caso.

“As informações disponibilizadas para esta Supervisão sempre apontaram para o direcionamento dos recursos da operação de crédito para a Steelcorp; a quitação da operação de crédito da Reag Investimentos via simples cessão de crédito da operação da Steelcorp derrubaria facilmente a argumentação de circularização”, disse.

Quatro dias após esse parecer, o Deorf homologou o aumento de capital, em 16 de junho de 2025. Paulo Souza foi afastado após uma sindicância interna do BC que indicou “vantagens indevidas” e depois por decisão judicial em março de 2026 no âmbito da operação Compliance Zero.

O Metrópoles entrou em contato com o Banco Central, por email, questionando se a autarquia gostaria de se manifestar. Até a publicação desta reportagem, não houve resposta. O site não conseguiu contato com a defesa de Paulo Sérgio. O espaço será atualizado em caso de manifestações.

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