Bairro nobre do Rio vira “Pantanal” em trecho lotado de jacarés

Canal das Taxas, na Zona Oeste, se torna ponto turístico, agrada moradores da vizinhança luxuosa e preserva natureza

atualizado 30/10/2021 12:11

Aline Massuca/Metrópoles

Rio de Janeiro – Bairro da Zona Oeste, o Recreio dos Bandeirantes é cheio de misturas e contrastes. Ao caminhar pela Rua Professor Hermes de Lima, por exemplo, é possível observar, de um lado, um conjunto de edifícios imponentes de alto padrão, com apartamentos de luxo que chegam a custar R$ 3 milhões.

Do outro lado da via, a sensação é de que não se está mais a três quadras da praia e, sim, no Centro-Oeste brasileiro. Afinal, a rua segue a margem do Canal das Taxas, uma espécie de santuário para jacarés-de-papo-amarelo, capivaras, cobras e aves, entre outros animais silvestres, alguns ameaçados de extinção.

De acordo com especialistas, a região concentra o que sobrou dos ecossistemas originais da capital fluminense, com lagoas, manguezais, restingas e brejos, que deram ao Recreio o apelido de Pantanal carioca.

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Habitantes famosos do Recreio, os jacarés eram vistos com frequência passeando pelo trecho urbano do pedaço até que as margens do canal ganharam proteção, há pelo menos cinco anos, com a instalação de uma cerca formada por tocos de árvores e grades. Garantiu-se, assim, a convivência pacífica entre répteis e humanos.

“É um alento morar de frente para a natureza, com esse clima pantaneiro, bucólico, que transmite a paz. Sempre antes de colocar meu filho para dormir, desço e caminho com ele pela margem. Vira uma distração, um programa ecológico que adora. E ele pede para ir na rua ver os jacarés”, conta a dentista Bianca Hertz, de 34 anos, mãe do pequeno Heitor, 1. Segundo ela, os bichos são excelentes vizinhos, que respeitam seus limites.

“O problema é que o ser humano não respeita. As pessoas jogam lixo, restos de tudo no canal. Arremessam latas e garrafas para o bicho se mexer e ver a reação dele. Alguns comem esses resíduos quando abocanham para se defender. É lamentável”, reclama ela, moradora do local há seis anos.

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Zeladora há 13 anos do Edifício Alexandrina, Elisabeth Neves, 52, herdou a função do pai, de quem ouvia histórias dos “lagartos gigantes” da vizinhança. Conta que a última vez que um jacaré deixou o canal foi durante uma cheia, após dias de chuva intensa. “A água subiu e um deles acabou indo parar na garagem do prédio vizinho. Foi uma atração e o bicho acabou resgatado pelos bombeiros. Acho o maior barato”, diverte-se ela, que viu a região reforçar sua vocação para ponto turístico nos últimos tempos.

Quando passou por um grande mutirão de limpeza e recebeu as novas proteções, o canal também ganhou pontes, ligando uma margem à outra, que se transformaram em observatórios da fauna nativa e silvestre, além de virarem locais perfeitos para as selfies com os répteis. Nas redes sociais, as fotos acabam postadas com a localização Ponte dos Jacarés.

O aposentado Francisco Carneiro, 62, mora há seis meses na região. Segundo ele, o “Pantanal carioca” foi uma motivação para voltar a morar no Brasil, após anos nos Estados Unidos. “É um ambiente incrível, reúne aspectos maravilhosos da natureza, uma tranquilidade que eu buscava”, explica.

De acordo com o biólogo Mário Moscatelli, que estuda os ecossistemas e lagoas da região há mais de três décadas, assim como há o contraste no cenário, existem diferenças entre quem respeita e agride o espaço. “Vemos os que protegem e os que apedrejam, jogam comida, jogam lixo. Sem falar no principal problema, que é o lançamento de esgoto indevido, com a produção de cianobactérias tóxicas, constituindo um ‘upgrade’ de degradação para a fauna nativa local”, explica o especialista.

Nova empresa de saneamento é esperança

Moscatelli garante que, “se as causas da degradação não forem combatidas, pouca coisa irá sobrar”. “Dá para reverter, mas é preciso ter vontade política e pressão da sociedade. Não existe mágica.  O problema é que os espaços sistematicamente continuam sendo impactados por esgoto, lixo e crescimento desordenado. Há uma grande expectativa no momento, com a entrada da nova concessionária de saneamento [empresa que ganhou o leilão da Cedae]”, completa.

Ainda segundo o especialista, respeitado o ambiente dos animais, não há risco de ataques de jacarés contra os seres humanos. “Ataques? Por enquanto, só dos seres humanos, que caçam os jacarés para vender sua carne. O risco existe quando os seres humanos ultrapassam os limites de respeito e de distância para qualquer animal silvestre. Mesmo as capivaras podem atacar, se molestadas e caso se considerarem em perigo”, alerta o biólogo.

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