Avanço da educação de mais pobres não gerou aumento da renda

Apesar do aumento de 27% nos anos de estudo da população na metade mais pobre, a renda do trabalho dessa parcela despencou 26,2%

atualizado 04/10/2021 8:10

Retorno das aulas presenciais no Centro de Educação Infantil nº 1, no ParanoáHugo Barreto/Metrópoles

Nos últimos 10 anos, apesar de um expressivo aumento de 27% nos anos de estudo (de 6,4 para 8,1 anos) da população na metade mais pobre, a renda do trabalho dessa parcela despencou 26,2%.

No caso dos 50% mais ricos, que tiveram evolução menor na escolaridade, os rendimentos foram inalterados ou aumentaram, segundo dados do FGV Social com base na Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PnadC) e compilados pela Folha de S.Paulo.

Atualmente, há mais pessoas na miséria no Brasil do que em 2011 e em relação a antes da pandemia. Após longo período de queda sustentada, a taxa de miseráveis voltou a subir e eles são hoje 27,4 milhões (13% da população e o equivalente a quase uma Venezuela) vivendo com menos de R$ 261 ao mês, ou R$ 8,70 ao dia, segundo a FGV Social.

Mesmo com mais educação que a geração anterior, os mais pobres, pais ou filhos de outros pobres, continuam dependentes de recursos de programas sociais ou presos ao mercado de trabalho informal.

Considerando o total das famílias brasileiras, 57% vivem com menos de R$ 2,2 mil ao mês, segundo estratificação do Datafolha. Mas, enquanto apenas 2,9 pessoas dividem sua renda em domicílios da classe A/B, são 4,6 indivíduos, para uma renda bem menor, na classe E.

A pobreza está concentrada sobretudo nas crianças e nos jovens, o que sugere perpetuação, e nos negros (especialmente mulheres). Por região, há concentração nas regiões Norte e Nordeste e bolsões no Sudeste, em favelas.

Nessas comunidades, que se multiplicaram nos últimos anos, a taxa de fecundidade das adolescentes é quatro vezes superior à dos bairros ricos. Como resultado, quase a metade das crianças brasileiras com até 5 anos vive em domicílios pobres.

Hoje, há um recorde de 27,1% dos chamados “nem-nem”, jovens que não trabalham nem estudam. Além disso, os que buscam ocupação, mesmo os treinados em programas muitas vezes mal desenhados, acabam inutilizados em uma economia que não cresce.

O Brasil gasta anualmente cerca de 6% do PIB em educação, taxa superior à média dos países da OCDE (5,5%) e acima de Argentina (5,3%), Chile (4,8%) e EUA (5,4%), segundo o relatório Aspectos Fiscais da Educação no Brasil, da Secretaria do Tesouro Nacional. No entanto, 90% do gasto é com folha de pagamento, que inclui professores e funcionários.

Especialistas ouvidos pelo jornal defendem a revisão de benefícios tributários e financeiros a empresas ou parcelas mais ricas da sociedade para abrir mais espaço no orçamento de programas sociais focalizados e aprimoramento no treinamento de jovens para o mercado de trabalho.

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