Auxílio emergencial: o drama de quem precisa regularizar o CPF

Sem êxito, filas na Receita Federal guardam indignação e lamentos de autônomos que estão em busca dos R$ 600 do governo

Milton Pereira aguarda a regularização do CPFThayná Schuquel/Metrópoles

atualizado 26/04/2020 10:47

Angustiados para ter acesso ao auxílio emergencial do governo, no valor de R$ 600, autônomos lotam a entrada de postos da Receita Federal na capital da república em busca de ajuda. Até este sábado (25/04), aproximadamente 10 milhões de inscritos para receber o benefício não haviam sido contemplados. O motivo, muitas vezes, é banal, e envolve situações como a regularização do Cadastro de Pessoa Física (CPF) – medida necessária para o recebimento.

Sem atender esse quesito, os trabalhadores deixam de receber a remuneração — alternativa em tempos que autônomos não conseguem trabalhar devido ao isolamento social. Além disso, essas pessoas se queixam da dificuldade em serem atendidos e terem os seus problemas solucionados nos postos da Receita. Com horário de funcionamento das 10h às 15h, o Metrópoles acompanhou ao longo de dois dias trabalhadores que não conseguiram resolver as suas pendências. Os principais problemas reportados são: atrasos no atendimento e necessidade de fazer múltiplas visitas ao órgão.

A Caixa Econômica Federal informou que, até sábado, creditou R$ 26,2 bilhões para 37,2 milhões de beneficiários do Auxílio Emergencial de R$ 600. Os dados foram contabilizados desde o dia 9 de abril, início do pagamento, até as 18h do sábado. No total, 47,7 milhões de pessoas concluíram o cadastro no site e no aplicativo do banco. Restam pouco mais de 10 milhões.

Veja o relato de alguns desses trabalhadores:

Múltiplas visitas
Pela segunda vez, o pedreiro Milton Pereira Cantingueiro (foto em destaque), 46 anos, vai à Receita para tentar resolver o problema do cadastro no sistema da Caixa. Segundo ele, uma mínima letra errada no sobrenome da mãe teria causado todo o impasse. Ele relata a angústia de ter que esperar por horas na fila e, mesmo assim, não encontrar a solução.

“Eles falam pra gente não vir aqui, mas aí vai pelo site e não conserta [o sobrenome]. Vem aqui e não adianta. Isso aí é só falcatrua. Eu já vim pela segunda vez e fizeram errado, mas é o único jeito. Vim aqui e expliquei. É só uma letra, um ‘N’ errado”, relatou.

Ele diz que, na pandemia, está sem renda e que não há outro jeito a não ser submeter-se à fila, mesmo que isso possa aumentar os riscos devido à proximidade física em tempos de pandemia.

“Estou esperando desde quando começou, vindo aqui nessa aglomeração. A gente tem que correr o risco. A gente fica agoniado. Vai nos Correios, eles mandam vir pra cá. Vou ver, né? Vou entrar no site e, se não resolver, vou vir aqui de novo, não tem o que fazer”, lamentou.

“Benefício faz falta”
Pelas orientações da Receita Federal, é necessário apenas que o cidadão acesse o site do órgão para resolver o problema. Lá, eles explicam o passo a passo como regularizar o CPF. Mas, na prática, essas pessoas relatam outras dificuldades que fogem ao roteiro.

É o caso de Antônio Neto Reis, 61, que, nessa quinta-feira (23/04), esperava ser chamado para o atendimento. Relatando ser um “recluso” e usando máscara de proteção, ele conta que o nome da mãe foi cadastrado errado e, agora, não consegue encontrar uma solução para receber os R$ 600.

“É muito difícil. A gente está sem renda e precisa se virar para pagar as contas. Esse dinheiro faz falta. Até agora, não consegui fazer o cadastro porque está dando problema no nome da minha mãe. Tentei resolver pelo site, mas não deu certo. Aí, resolvi vir aqui”, disse Antônio (foto abaixo).

Antônio aguarda atendimento na Receita

Viagem
A vendedora de artigos infantis Polínia Rocha, 34 (foto abaixo), teve que sair de Luziânia, em Goiás, e vir até Brasília para conseguir regularizar o CPF. No posto, na sexta-feira (24/04), ela contou que seu problema era inusitado: foi identificada pelo sexo masculino na época em que fez o documento, e, desde então, não consegue fazer nenhuma movimentação que envolva os dados cadastrais.

“Fiquei duas horas na estrada para chegar aqui. O posto mais próximo de Luziânia estava fechado. A gente gasta gasolina. Numa situação como a atual, que não está legal. Eu trabalho com vendas em casa, não tenho renda. Tenho um casal de filhos. Agora, tenho que enfrentar a fila e sei lá se vou conseguir resolver. É complicado”, desabafou. Ela não conseguiu resolver seu problema na sextas-feira (24/04). Foram solicitados novos documentos. Ela terá de pegar estrada novamente.

Polínia saiu de Luziânia rumo a Brasília para regularizar o CPF

Outro lado
A Receita foi procurada para se posicionar sobre as principais reclamações, como atrasos e a necessidade de realizar múltiplas idas até as agências para resolver esses problemas. Até a última edição desta reportagem, a autarquia não havia se posicionado. O espaço continua aberto.

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