Amazônia: fogo pode ter sido causado por fazendeiros, dizem moradores

A área pertence ao município de Manicoré, que registrava 355 focos de queimadas, o maior número no estado

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Daniel Beltrá/Greenpeace/Arquivo
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1 de 1 Amazônia-em-chamas - Foto: Daniel Beltrá/Greenpeace/Arquivo

O fogo que se alastra pela região sul do Amazonas, uma das áreas com mais focos de incêndio hoje em toda a Amazônia, pode ter sido motivado por fazendeiros locais, segundo moradores relataram ao Estado. Em Santo Antônio do Matupi, na altura do Km 200 da Transamazônica, a reportagem flagrou um incêndio de grandes proporções nesta terça feira (28/08/2019) que avançava pela floresta.

A área pertence ao município de Manicoré, que registrava 355 focos de queimadas, o maior número no estado, segundo os dados mais recentes do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe).

Ao se aproximar da queimada por uma pequena estrada de terra, a reportagem conseguiu conversar com dois donos de sítios. Ambos, inconformados com a queimada, afirmaram que, ao meio-dia, foram avisados por donos de outras propriedades locais que eles deviam se preparar, porque iriam tocar fogo em toda a área. E assim fizeram. Quando a reportagem chegou ao local, por volta das 14h, as chamas já tinham queimado todas as áreas abertas dos sítios e avançavam de forma descontrolada para a floresta.

O produtor rural José Silva de Souza diz que teve de retirar seus cavalos às pressas.

“O que está acontecendo aqui é que os caras passaram em casa meio-dia, dizendo que iam atear fogo. Quando cheguei aqui, já estava esse fogaréu todo”, disse Souza ao Estado. “Consegui retirar meus cavalos. Não pude fazer mais nada.”

Questionado sobre a autoria do fogo, Souza apontou proprietários de terras vizinhas como responsáveis.

“Foram eles [fazendeiros vizinhos] que mandaram avisar que iam tocar fogo. Não tem como dizer que foi outro. Mandaram ir lá em casa avisar que iam atear, ao meio-dia”, afirmou o produtor rural.

O anúncio do incêndio pelos produtores locais também foi confirmado à reportagem pelo dono de outro sítio próximo, conhecido como Cabral, que preferiu não gravar entrevista. Ele também disse que foi avisado pelos vizinhos de sua propriedade sobre o fogo, que àquela altura já havia avançado sobre suas terras e parte da floresta.

“Não podem fazer isso aqui, desse jeito. É ilegal”, declarou o produtor ao Estado.

Sobres os motivos de alguns fazendeiros incendiarem as áreas, Cabral disse que o objetivo desses proprietários é “limpar” a vegetação para a pastagem.

“A ideia é retirar toda a vegetação que esteja sobre a mata e, em seu lugar, manter apenas a grama para o gado”, afirmou. A prática é comum e ocorre todos os anos, segundo ele.

Neste ano, porém, conforme relatos colhidos pela reportagem de diversos moradores da região, houve um aumento descontrolado dessa prática motivada pela percepção de que a fiscalização estaria mais branda.

As versões sobre a autoria dos incêndios na Amazônia passam por explicações que vão desde a suposta queda de raios na mata até o aquecimento de pedras pelo sol. Para profissionais de combate a incêndio, porém, a maioria das queimadas teve como origem a ação humana, intencional ou não.

Revolta
Moradores e pequenos empresários locais de Santo Antônio do Matupi e região afirmam ainda que há vários produtores locais indignados com a criação, nos anos mais recentes, de unidades de conservação ambiental pelo governo federal. São muitas as situações de fazendas e sítios que não têm regularização fundiária.

Com a criação de unidades de conservação, parte dessas propriedades incluídas nos território das florestas protegidas, ficam em situação irregular. Vários chegaram a negociar indenizações com o governo, mas ainda não receberam o dinheiro.

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