Advogado pede júri popular para casal que espancou negro. Veja vídeo

Homem de 23 anos foi acusado por agressores de estar roubando o próprio carro. "Exemplo óbvio do racismo estrutural", diz advogado

atualizado 04/01/2022 21:47

Reprodução

O advogado de um homem negro brutalmente espancado por um casal branco que o acusou de estar roubando o próprio carro quer levar os agressores a júri popular por tentativa de homicídio. “Se nosso pedido prevalecer [na Justiça], o que será julgado será o racismo estrutural brasileiro, o desprezo pela vida de pessoas negras. É um processo muito didático”, afirma o jurista Márlon Reis em entrevista ao Metrópoles.

Ele, que é ex-juiz, se notabilizou no Brasil como idealizador da Lei da Ficha Limpa, mas também foca sua carreira no combate ao racismo e atuou no processo no qual o Carrefour concordou em pagar R$ 115 milhões para ações antirracistas após o assassinato de outro homem negro, João Alberto Freitas, pelo segurança de uma loja da rede em Porto Alegre, no fim de 2020.

O caso em questão ocorreu em Açailândia, no interior do Maranhão, no início da manhã de 18 de dezembro do ano passado, um sábado. A vítima foi o recepcionista de banco Gabriel da Silva Nascimento, de 23 anos, que estava se preparando para sair de casa e ir a uma confraternização de fim de ano do trabalho quando foi abordado pelos algozes, arrancado do próprio carro e agredido pelos dois, que chegaram a pisar em seu pescoço.

“O que aconteceu é absurdo, porém cotidiano para os negros brasileiros. É um exemplo perfeito do racismo estrutural que existe no nosso país. Na visão dos agressores, não cabe na estrutura da sociedade brasileira que um cidadão negro possa ser proprietário de um veículo”, analisa o advogado, que espera que o episódio sirva ao debate sobre o racismo no Brasil.

“Casos assim servem para mostrar porque é preciso dizer que vidas negras importam. A realidade atual é que são vidas desprezadas, mas não podemos viver assim”, completa Márlon Reis.

Segundo a vítima, o casal se aproximou quando ele acabara de entrar no carro que havia comprado há dois meses e questionou de forma agressiva o que ele estava fazendo. A resposta de que ele morava no prédio em frente e era dono do carro não convenceu os agressores, que iniciaram uma sessão de espancamento com chutes, tapas, socos, pisões no tórax e uma imobilização com o pé no pescoço. São quase três minutos de agressões, filmadas por câmeras de segurança (veja clicando no link abaixo).

“Achei que iria morrer”

Em entrevista concedida ao Fantástico, da Rede Globo, e exibida no último domingo (2/1), Gabriel, que não reagiu às agressões em nenhum momento, contou que ficou sem conseguir respirar em vários momentos do espancamento e que temeu por sua vida.

“Eu achei que iria morrer. É no momento que ele sobe em cima de mim, junto com ela, com os joelhos… Ali é sufocante, porque ela manda ele me imobilizar, pisando no meu pescoço. Eu me senti sem ar”, narrou o jovem, que tentou registrar ocorrência na Polícia Civil logo após o episódio, mas não conseguiu. Segundo os policiais, o sistema havia caído.

O registro só ocorreu, então, no dia seguinte, e o delegado do caso considerou que o flagrante já havia passado, o que impediu a prisão dos agressores pelo crime de racismo.

Os agressores são o empresário Jhonnatan Silva Barbosa e a dentista Ana Paula Vidal, que também mora no prédio na frente do qual aconteceu a agressão e é filha da dona do apartamento que Gabriel havia alugado. “Ela o conhecia de vista. Foi ela quem apresentou a ele o apartamento e os dois já haviam se cruzado no prédio. Era uma manhã de sábado e o Gabriel me disse que percebeu que ambos pareciam embriagados. Não sabemos se ela não o reconheceu ou o que aconteceu para ela agir daquela forma”, explica ao Metrópoles o advogado Márlon Reis.

Devido ao vínculo familiar da agressora com a dona do imóvel, Gabriel acabou se mudando do prédio três dias após a agressão e, com medo, foi buscar seus móveis acompanhado por policiais.

Agora, a expectativa da defesa é a conclusão do inquérito policial e a manifestação do Ministério Público – passos que antecedem a decisão da Justiça sobre quais acusações podem pesar contra os agressores; o advogado espera que ambos respondam por tentativa de homicídio – o que levaria o caso ao júri popular. “A sociedade precisa julgar se aceita ou não as consequências do racismo estrutural”, afirma ele.

A reportagem não conseguiu contato com a defesa dos agressores de Gabriel. O espaço está aberto.

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