A quatro meses da eleição, tarifaço vira pauta dos pré-candidatos
Governo de Donald Trump anunciou que pode impor novas tarifas a produtos brasileiros. Tema divide opinião de presidenciáveis
atualizado
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Os recentes anúncios dos Estados Unidos de possível taxação ao Brasil já impactam diretamente na pré-campanha eleitoral. As novas medidas, sobretudo as taxas que podem afetar diversos produtos brasileiros, dividem os presidenciáveis em um pleito já marcado pela polarização.
O Brasil voltou a entrar no radar de novas tarifas nesta semana depois que o Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR, na sigla em inglês), concluiu duas investigações comerciais e propôs a aplicação de tarifas para determinados produtos nacionais:
- a primeira prevê 25% de taxas por práticas comerciais desleais;
- e a segunda, 12,5% de taxas por uso de trabalho forçado na mão de obra brasileira — as duas investigações são baseadas na Seção 301 da Lei de Comércio dos EUA.
O tema, claro, já aparece em discursos e entrevistas dos presidenciáveis, que tentam marcar posição e comunicar com novos eleitores. As taxações acirraram a polarização “Lula x Flávio Bolsonaro”, nos últimos dias, e dividiram também a posição dos demais pré-candidatos.
Lula e Flávio dividem discurso sobre taxas
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) elevou o tom contra os Estados Unidos e fez críticas ao secretário de Estado norte-americano, Marco Rubio, responsável por conduzir a política externa da gestão Trump e que, por ter origem cubana, tem um olhar atento à América Latina.
Com os anúncios, Lula e sua equipe tentam emplacar um discurso de soberania nacional. O petista aposta ainda na narrativa de que as investidas norte-americanas colocam em risco o Pix, plataforma de pagamento instantâneo do Banco Central. As reações já são interpretadas como parte do discurso de pré-campanha, que culpabiliza a família Bolsonaro pelas medidas.
Flávio Bolsonaro (PL), por outro lado, tenta se distanciar do caso. Logo após o anúncio das tarifas pelo USTR, o senador afirmou que chegou a pedir para Donald Trump não sobretaxar empresas brasileiras, durante encontro na Casa Branca no final de maio. O parlamentar, no entanto, tem sido diretamente relacionado às taxas.
As investigações que podem resultar em novas tarifas tiveram início em 2025. No documento que justifica a investigação, os EUA chegam a citar o processo contra o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) no Supremo Tribunal Federal (STF). Donald Trump, inclusive, acusou, à época, a Corte de promover um “caça às bruxas” contra o ex-mandatário.
Após o anúncio do tarifaço contra o Brasil, em setembro de 2025, membros e aliados da família Bolsonaro comemoraram a medida. A reação se transformou em um revés para o clã, que agora tenta se afastar das taxas e responsabilizar o governo do presidente Lula.
O que diz a investigação dos EUA
- Comércio Digital e Serviços de Pagamento Eletrônico: o USTR cita ordens secretas de tribunais brasileiros contra empresas americanas de mídia social, além da responsabilização financeira e restrições impostas a essas empresas que descumpriram tais ordens. O documento também diz que o Brasil tem prejudicado empresas americanas que atuam em serviços de pagamento eletrônico, inclusive por meio de políticas (o Pix) que favorecem sua principal concorrente.
- Tarifas preferenciais injustas: o órgão também cita que em virtude de acordos comerciais com o México e a Índia, o Brasil concede tratamento tarifário preferencial mais baixo a centenas de produtos mexicanos e indianos em diversos setores.
- Combate à corrupção: de acordo com os EUA, o Brasil não adota medidas suficientes para combater o suborno e a corrupção.
- Proteção da Propriedade Intelectual: segundo o documento, o Brasil atua com ênfase no combate a falsificação de produtos; não resolve o problema do tempo excessivo em que pedidos de patentes são analisados; e não implementa medidas antipirataria consistentes — o documento chega a citar a Rua 25 de Março, em São Paulo, ao abordar essa justificativa como um problema.
- Acesso ao mercado de etanol: o texto também diz que, desde 2017, o Brasil mudou o tratamento tarifário aplicado ao etanol e, desde então, não tem oferecido tratamento tarifário recíproco às exportações de etanol dos EUA.
- Desmatamento ilegal: a investigação também diz que, apesar de possuir um marco legal para combater o desmatamento ilegal, o Brasil historicamente falhou em aplicá-lo de forma eficaz, e o desmatamento ilegal persiste.
Romeu Zema e Caiado
Crítico do governo Lula, o ex-governador de Minas Gerais, Romeu Zema (Novo), também utilizou o anúncio das propostas de novas taxas para voltar a criticar o petista. Para o pré-candidato à Presidência, a medida demonstra “inoperância e incompetência” do governo federal para lidar com os Estados Unidos.
“Durante o governo Lula, nós temos assistido o Brasil se aproximar de regimes autoritários […] e se distanciar de países do Ocidente […]. Quem perde [com as tarifas] é quem trabalha, quem produz”, declarou.
O ex-governador de Goiás, Ronaldo Caiado (PSD), também alfinetou a gestão Lula, diante dos novos anúncios dos EUA. Em tom mais moderado que o político mineiro, Caiado disse que o Itamaraty “abandonou” a tradicional diplomacia e tem tomado lados, o que teria prejudicado as negociações.
“O que nós não podemos aceitar é que venham taxar aquilo que realmente o Brasil sempre teve […]. Nós esperamos que esse diálogo seja reaberto. Se nós chegarmos ao governo, se Deus quiser, nós reabriremos esse diálogo para que não tenha retaliação a aço, a móveis”, afirmou o político goiano.
Renan Santos e Augusto Cury
Já para o pré-candidato Renan Santos (MDB), fundador do Movimento Brasil Livre (MBL), as tarifas geram movimentações na corrida eleitoral no Brasil. Na avaliação do político, o anúncio das tarifas “ajuda” o presidente Lula.
“Eu acho que o Donald Trump, toda semana, tenta ajudar um amigo dele aqui no Brasil. Semana passada ajudou o Flávio, essa semana está ajudando o Lula”, declarou Santos à Jovem Pan.
Augusto Cury, por outro lado, que é pré-candidato ao Planalto pelo Avante, acredita que o Brasil deveria adotar a reciprocidade contra os Estados Unidos, mecanismo previsto na diplomacia no qual ações de um país podem ser respondidas de forma semelhante por outro, visando manter tratamento equivalente entre as nações.
“Não podemos ter uma condição de subservientes. Tem de ser uma relação séria, pacífica, mas inteligente e de igualdade. Uma política de reciprocidade, e o Brasil centrado no que importa. Importa a soberania nacional”, disse ele em entrevista à rádio TMC.









