Ameaça de golpe militar envelheceu em menos de uma semana

Nesse meio tempo, o interlocutor do ministro Braga Netto, da Defesa, virou chefe da Casa Civil e desalojou dali o general Luiz Eduardo Ramos

atualizado 29/07/2021 8:49

Braga neto e jair bolsonaro no palacio do planalto Rafaela Felicciano/Metrópoles

E assim se passaram sete dias desde que se soube da ameaça de golpe militar feita pelo general Braga Netto, com o apoio dos comandantes do Exército, da Marinha e Aeronáutica. Sutil para seus padrões, o presidente Jair Bolsonaro limitou-se a repetir que “o povo” reagirá se a eleição do próximo ano “não for democrática”.

Em reportagem publicada na última quinta-feira, dia 22, o jornal O Estado de S. Paulo contou que Braga Netto, por meio de um interlocutor, mandara um duro e surpreendente recado para Arthur Lira (PP-AL), presidente da Câmara dos Deputados: sem a adoção do voto impresso não haverá eleições no ano que vem.

Braga Netto foi chefe da Casa Civil da Presidência da República e é o ministro da Defesa. Em nota oficial a propósito da reportagem, desmentiu que fosse homem capaz de usar interlocutor para mandar recado a quem quer que seja, reafirmou o compromisso dos militares com a Constituição, mas alertou:

“A discussão sobre o voto eletrônico auditável por meio de comprovante impresso é legítima, defendida pelo Governo Federal, e está sendo analisada pelo Parlamento brasileiro, a quem compete decidir sobre o tema”.

Transcorridos sete dias, sabe-se que o general usou, sim, um interlocutor para mandar transmitir seu recado a Lira – o senador Ciro Nogueira (PP-PI), promovido por Bolsonaro a chefe da Casa Civil da Presidência da República; e que Lira advertiu Bolsonaro que não contasse com ele para enterrar a democracia.

Se Braga Netto e os atuais chefes militares falassem de fato em nome das Forças Armadas, o esperado a essa altura era que o aceno ao golpe já tivesse provocado adesões robustas em pelo menos parte da sociedade. Adesão nenhuma ocorreu às claras. O aceno foi repelido às claras e de maneira quase unânime.

Enquanto o país esperava mais sinais do golpe de Braga Netto, outro general, Luiz Eduardo Ramos, acabou atropelado por um trem, como disse, e cedeu a Nogueira, o interlocutor do ministro da Defesa, o segundo cargo mais importante do governo, tornando-se assim mais um assessor decorativo de Bolsonaro.

Golpe não se anuncia, aplica-se. Em 1964, os militares negaram que fossem dar um golpe até que o general Olímpio Mourão Filho perdeu a paciência e desceu de Juiz de Fora com suas tropas sobre o Rio de Janeiro. Muitos dos seus colegas golpistas tentaram detê-lo a pretexto de que a hora certa não era aquela.

Mourão entrou para a história com o apelido que ele mesmo se deu – Vaca Fardada.

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