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Um homem contra 7,7 bilhões (por Sérgio Vaz)

O planeta corre o risco de desaparecer apenas porque Vladimir Putin existe

atualizado 24/09/2022 1:46

Cidadãos ucranianos protestam com cartaz contra os atos do Putin perto da embaixada da Federação Russa contra a guerra na Ucrânia, em Roma na Itália Andrea Ronchini/NurPhoto via Getty Images

A última vez em que tínhamos estado à beira de uma guerra atômica havia sido em 1962, na crise dos mísseis em Cuba. Naquela época, quando eu tinha 12 anos de idade – e pouco depois Bob Dylan faria algumas das canções mais apavorantes de toda a história, sobre o medo diante do fim do mundo –, uma guerra nuclear mataria cerca de 3 bilhões desse animal esquisito, bípede desplumado e sem asas, a tal da raça humana, uma semana do trabalho de Deus, segundo Gilberto Gil.

Eu mesmo, de lá pra cá, tive só uma filha, e minha filha só nos presenteou com uma filha, mas a raça humana se proliferou feito rato, e então agora somos 7,7 bilhões, segundo as contagens da ONU – e, então, em vez dos 3 bilhões de mortos de uma guerra nuclear na época de Kennedy e Kruschev, teremos mais de duas vezes isso, por causa de um único bípede desplumado e sem asas, um dos mais poderosos e mais imbecis que já passaram pela casca deste planeta que seu conterrâneo Iuri Gagárin descreveu como azul, naqueles anos mais terríveis da Guerra Fria.

Fiquei pensando sobre isso diante das ameaças de Vladimir Putin de lançar bombas atômicas: diabo, em 1962, estávamos no auge do auge de uma guerra ideológica, entre dois grupos de nações, mais especificamente entre duas superpotências que defendiam ideologias antípodas, duas formas de enxergar o mundo em tudo opostas, as democracias capitalistas e as ditaduras comunistas.

Era um embate maluco, irracional, doidão. Quem defendia a justiça social, a divisão correta das riquezas, não permitia que os cidadãos se expressassem livremente, e mandava para os gulags de trabalho forçado os camaradas que ousassem não ser camaradas com aquilo e discordassem de alguma decisão do Partido. Do outro lado do ringue ficavam os que defendiam a injustiça absurda de haver, lado a lado, miseráveis e bilionários – mas em seus países, ao contrário de nos inimigos, havia liberdade de expressão, e de tempos em tempos as pessoas podiam ir lá nas urnas e escolher seus governantes.

Não sei se me faço entender.

O que quero dizer é que, em 1962, a humanidade havia chegado à beira da guerra atômica porque estava dividida em dois lados, em duas ideologias opostas, aparentemente inconciliáveis.

O camarada Nikita Kruschev e seu politburo tiveram a capacidade de pensar um tanto, examinar o tabuleiro, medir as consequências, e – da mesma forma como o supercomputador do filme Jogos de Guerra/WarGames, desistir desse negócio de destruição do planeta. Já que, afinal, se se acaba com o planeta, ninguém sobrevive mesmo.

Andamos tanto para trás, regredimos tanto, mas tanto, mas tanto, que, 60 anos depois, estamos diante de uma guerra nuclear – a hecatombe final, The Doomsday, o Apocalipse, o Dia do Juízo Final – apenas e tão somente porque um louco, idiota, um ex-agente da KGB soviética tornado líder máximo da Rússia pós esfacelamento, qual castelo de cartas, do Império Soviético, tem o poder de acionar as ogivas atômicas.

Sequer em nome de uma ideologia, uma idéia básica, um projeto – mas apenas porque se acha um czar que nem Pedro, O Grande, ou Ivan, o Terrível!

Corremos todos nós, esses quase 8 bilhões de bípedes implumes, de desaparecer junto com o planeta apenas porque Vladimir Putin existe.

Se der tempo pra pensar um pouquinho, eu gostaria de lembrar que tanto Bolsonaro quanto Lula não fizeram gesto algum contra ele. Muitíssimo antes ao contrário, os dois populistas brasileiros fizeram todo tipo de raciocínio tortuoso para defender o lunático.

Este pedacinho aqui do planeta, meu Deus do céu e também da Terra, com toda absoluta certeza mereceria coisa melhor que Bolsonaro e Lula, Lula e Bolsonaro, esses admiradores fanáticos dos ditadores e das ditaduras.

Mas, sobretudo, o planeta não merecia um Vladimir Putin.

 

Sérgio Vaz é jornalista (ex-Estadão, estado.com.br, Agência Estado, revistas Marie Claire e Afinal, Jornal da Tarde). Edita os sites 50 Anos de Filmes e 50 Anos de Textos.

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