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Reversão das expectativas (Por Hubert Alquéres)

A recuperação de Bolsonaro permite uma certeza: a polarização se cristalizou em torno de duas correntes – o petismo e o bolsonarismo

atualizado 30/03/2022 1:15

Bolsonaro e Lula Isac Nóbrega/PR e Deputado Rosemberg

A janela partidária – prazo limite para mudança de legenda para quem vai disputar as eleições – encerra-se em meio a uma importante alteração do quadro eleitoral, quando comparado com o de dezembro. Lá as pesquisas apontavam um derretimento de Jair Bolsonaro, com sua intenção de votos em declínio. Não foram poucas as especulações sobre a possibilidade de vitória de Lula já no primeiro turno, o que levou muitos petistas a subir no salto.

Três meses depois o Datafolha apontou outro quadro, revelando Bolsonaro recuperando terreno de forma nada desprezível. A diferença dele para Lula caiu nove pontos, com o presidenciável do PT perdendo cinco pontos. Convenhamos, isto não é pouco, ainda que Lula tenha uma vantagem de 17 pontos. Mais significativo: o presidente avançou no bastião do petismo, o eleitorado do Nordeste com renda de até dois salários mínimos.

Até as eleições ainda temos uma eternidade. A partir de agora o mundo político e analistas vão se debruçar para identificar se esse fato novo tem fôlego curto ou se a onda se espalhará em círculos concêntricos. Desde já, as opiniões divergem. Para Antônio Lavareda, do Ipespe, estaríamos diante de um fenômeno sazonal, produto do impacto inicial do Auxílio Brasil, que tende a se esgotar no horizonte próximo.

Mas há outra leitura. Segundo Maurício Moura, do Instituto Idei, o sinal amarelo acendeu para quem teme a reeleição de Bolsonaro. De fato, já há algumas semanas o clima de oba-oba no PT deu lugar a declarações de Gleisi Hoffmann e do próprio Lula de que haverá segundo turno e ele será duríssimo. Registre-se, Moura foi o primeiro a identificar a vitória de Jair Bolsonaro em 2018.

De qualquer modo recomenda-se não menosprezar a caneta presidencial, sobretudo quando ela está nas mãos de alguém sem o menor compromisso com o equilíbrio das contas públicas e disposto a fazer de tudo para se reeleger. O estoque de “bondades” do presidente pode chegar a 500 bilhões de reais.

Aqui se faz necessária uma observação. O humor do eleitorado pode voltar a mudar, a depender dos impactos da guerra da Ucrânia na vida dos brasileiros. Inflação, juros altos, recessão ou estagnação é um coquetel corrosivo para quem está no governo. Bolsonaro tem motivos para se preocupar, se souber ler um dado importante da pesquisa Datafolha: 75% dos entrevistados acham que o presidente tem responsabilidade pelo aumento da inflação.

De qualquer modo vale a máxima de que eleitor com bom humor tende a votar em quem é governo. De mau humor em quem é oposição.

O presidente tem, claro, uma rejeição oceânica e um telhado de vidro mastodôntico a ser relembrado pelos seus adversários. Mas Lula até agora tem navegado em mar de brigadeiro, sem estar sujeito ao bombardeio que certamente virá. E, convenhamos, também há um arsenal de fatos negativos dos governos petistas que serão reavivados quando a batalha esquentar.

A recuperação de Bolsonaro permite uma certeza: a polarização se cristalizou em torno de duas correntes – o petismo e o bolsonarismo – com capilaridade na sociedade.  Os dois principais contendores vão querer confinar o embate eleitoral. Da parte de Lula, em uma disputa entre a civilização e a barbárie e da parte de Bolsonaro, do bem contra o mal, como afirmou no ato de pré-lançamento de sua candidatura. Aos dois interessa o clima do “nós contra eles”.

Entre o mar e o rochedo, sobra pouco espaço para a chamada Terceira Via. Nem mesmo está claro quantos dos seus presidenciáveis estarão, de fato, na tela da urna eletrônica. Não se constrói unidade da noite para o dia. A rigor, ela seria para ontem, mais precisamente para o segundo semestre do ano passado, como fruto de um processo de definição de um projeto político comum, até afunilar em uma candidatura unitária.

Mas nada disso aconteceu e candidaturas entre os polos se cristalizaram, como parece ser o caso de Ciro Gomes, Sérgio Moro e João Doria. Numa eventual substituição do presidenciável tucano, Eduardo Leite provocará mais tumulto em uma seara já devidamente tumultuada.

O fato é que postergou-se para junho a possibilidade de união de uma parte das forças deste campo, com uma candidatura única. Mas aí poderá ser tarde e Inês estará morta.

O congelamento do quadro eleitoral tencionará mais ainda a Terceira Via. O apelo ao voto útil no primeiro turno deve pintar com força, no segundo semestre, bem como a cristianização dos demais postulantes.

Resumos da ópera: a reversão das expectativas é boa notícia para Bolsonaro, que além da caneta vem montando palanques estaduais competitivos. Acende o sinal amarelo para Lula, indicando que não basta ampliar seu palanque para o ex-tucano e agora neo-socialista Geraldo Alckmin. Isso é pouco.

Já para a Terceira Via esse cenário é o pior dos mundos. Se não houver uma nova reversão das tendências, ela tende a se consolidar como uma força política irrelevante por um bom período.

 

Hubert Alquéres é membro da Academia Paulista de Educação e da Câmara Brasileira do Livro. Foi professor no Colégio Bandeirantes, na Escola de Engenharia Mauá e na Escola Politécnica da USP.

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