Lira toca a boiada (por Mary Zaidan)

Em consonância com Bolsonaro, o presidente da Câmara corre velozmente para trás

atualizado 13/06/2021 1:14

Presidente da Câmara, Arthur Lira (Progressista-AL), saindo pela chapelaria do Congresso Nacional Igo Estrela/Metrópoles

Imbatível na capacidade de cuspir pelo menos um absurdo por dia, o presidente Jair Bolsonaro atrai todas as atenções para a sua metralhadora de disparates enquanto seus escudeiros praticam barbaridades. De Augusto Aras, que mais parece defensor do presidente do que procurador-geral da República, ao advogado-geral da União, André Mendonça, todos se curvam às vontades do chefe, mesmo às mais imorais. Movidos, exclusivamente, por interesses pessoais. Mas os mais perigosos não são os sabujos, e sim aqueles que dão cartas com ares de independência. É nessa seara que o presidente da Câmara, deputado Arthur Lira (Progressistas-AL), reina.

Detentor do poder de aceitar ou não um dos mais de 100 requerimentos de impeachment de Bolsonaro que repousam em sua gaveta, Lira, ao contrário dos demais bajuladores, poderia manter o presidente sob rédeas curtas. Mas só o faz para subir o preço da fatura. Pressiona pela demissão de ministros, como nos casos de Ernesto Araújo e Eduardo Pazuello, exige cargos e mais cargos, distribuição de verbas, mimos do governo aos deputados do Centrão que ele hoje lidera. Joga duro para garantir frutos para si e sua turma.

Tão duro que teve o desplante de negar que os R$ 3 bilhões distribuídos pelo governo a aliados via orçamento secreto fossem secretos. “Não há orçamento secreto, mas diferentes formas de fazer emendas”, disse, sem explicar por que as “diferentes formas” eram sigilosas. Ainda que as declarações sejam compatíveis com quem deve ao “tratoraço” a eleição para cargo que ocupa, isso não diminui a desfaçatez.

Descaramento que ele repete ao atropelar o trabalho da comissão especial que analisa a Lei da Improbidade. Pretende colocar a matéria em votação nesta semana, se lixando para o fato de a questão não ter sido debatida em audiências públicas, muito menos se há um relatório aprovado para ser apreciado. Uma votação perigosa que pode afrouxar as punições aos delitos de agentes públicos e descriminalizar o nepotismo, prática defendida pelo líder do governo Ricardo Barros, companheiro de partido de Lira. “O poder público poderia estar mais bem servido, eventualmente, com um parente qualificado do que com um não parente desqualificado.”

Se lá atrás Lira chegou a colocar as manguinhas de fora, a cada dia ele se mostra um aliado mais fiel, que em nada se parece com aquele parlamentar que em março ameaçou o presidente com  “remédios políticos amargos”, “alguns fatais”. Depois de fazer o milagre de transformar a deputada Bia Kicis (PSL-DF) em presidente da Comissão de Constituição e Justiça, a mais importante da Câmara, passou a incentivar a pauta terraplanista – do ensino domiciliar ao voto impresso. Temas de importância zero, cujo debate parece chacota diante de um país com quase meio milhão de mortos pela pandemia, mais de 40 milhões de miseráveis, 14,4 milhões de desempregados e inflação em alta.

Sua cota particular de retrocessos inclui a reforma eleitoral, outra pauta extemporânea e inoportuna, distante anos-luz dos interesses do eleitor, especialmente frente às emergências do país. Ao que parece, o presidente da Câmara nem se lembra de que ao assumir o posto no início do ano fixou como prioridades o firme combate à pandemia e a dedicação às reformas estruturais, assuntos que não mais frequentam sua agenda – a não ser de mentirinha.

Correndo contra o tempo – qualquer reforma no sistema eleitoral tem de ser aprovada um ano antes do pleito -, Lira tem passado carros na frente dos bois para votar o Distritão, sistema que elege o candidato a deputado que obtiver o maior número de votos absolutos, independentemente da representação partidária. Rejeitado em 2015, por 267 a 210, e em 2017, por 238 a 205 votos do plenário da Câmara, o tal Distritão é sopa no mel para reeleger os que têm pedigree (nome e sobrenome conhecidos), além de beneficiar comunicadores de massa e pastores com milhares de fiéis.

É uma maneira diabólica de dificultar a renovação do Parlamento. De mantê-lo do mesmo jeito, com os mesmos vícios. De empobrecer ainda mais a representação parlamentar. De perpetuar o estilo Centrão de fazer política. O pessoal de Bolsonaro, que se elegeu execrando coisas do gênero, hoje as deseja, até porque sempre as praticou. A começar pelo presidente.

No pasto em que se tornou a política, Lira toca a boiada que Bolsonaro quer ver passar.

Mary Zaidan é jornalista