Tapurumã Pataxó, o artista indígena que é sensação em Trancoso (BA)

Na minha última viagem ao sul da Bahia, conversei com esse talento do povo Pataxó. Confira os itens únicos que ele produz e nossa conversa

Bela Lima/Arquivo PessoalBela Lima/Arquivo Pessoal

atualizado 11/12/2018 7:33

Tudo começou em uma visita à mais charmosa pousada de Trancoso (BA), a Uxuá, que em dialeto pataxó quer dizer “maravilhas”.

Não há como não se encantar com cada detalhe da decoração composta apenas de objetos selecionados da cultura local, com um toque artístico e muito bom gosto dos proprietários italianos que souberam, melhor que qualquer brasileiro, valorizar cada matéria-prima e artesanato da região.

Não foi diferente com os itens à venda na loja da pousada (confira galeria abaixo). Objetos de decoração, itens de artesanato local, como roupas, óleos de árvores da Mata Atlântica, bolsas, acessórios, chapéus e muito mais.

E foi lá que conheci e me encantei com a arte de Tapurumã Pataxó, ou Caio Vieira, como é registrado na lei brasileira. Tapurumã é um índio-cafuzu, nascido e criado na tribo pataxó, sediada no extremo sul da Bahia, cujo nome indígena quer dizer “Jovem Guerreiro”. É ele quem desenvolve e manufatura vários itens à venda por lá.

E foi com ele que bati um papo gostoso, onde pude aprender muito mais sobre a rica cultura do seu povo. Confira as obras e a conversa com esse artista de talento único:

Bela Lima: Conte-nos um pouco sobre a tribo Pataxó e sua origem.
Tapurumã: No extremo sul da Bahia, são 29 aldeias Pataxó. Nossa língua é conhecida como patxorã, que significa “linguagem de guerreiro”. Atualmente, a minha tribo fica localizada em Caraíva e chama-se Aldeia Mãe, mas éramos um povo nômade, que transitava entre a Bahia e o Espirito Santo, até o norte de Minas Gerais. O máximo que meus ancestrais viviam em um local eram 6 meses. A minha tribo, graças à alma guerreira, resistiu a massacres terríveis causados por homens poderosos. Graças às habilidades, como arco e flecha, zarabatanas, entre outros, muitos conseguiram sobreviver e dar continuidade à vida e à cultura.

Como vocês Pataxós fortalecem internamente a cultura e o povo de vocês?
Por meio de rituais na praia. Para nós, índios, rituais são o nosso Auê. Auê quer dizer amor, união e espiritualidade. Nos rituais, em volta da fogueira, canta-se rezas, come-se mariscos, é usado o Cauin, uma bebida fermentada tradicional feita da mandioca, que pode até dar alucinações. Foi em um desses rituais, no passado, que o nome Pataxó surgiu. Alguns índios ficavam em cima da pedra, junto ao mar e, quando a água batia, ouvia-se: Pa Ta Xó. Foi então que surgiu o nome da tribo, que, para nós, significa “barulho do mar”. 

E como começou essa parceria com a Pousada Uxuá? Como é definida sua criação aqui? Qual sua inspiração e quais materiais você usa para fazer arte?
As pinturas que faço aqui aprendi na minha aldeia. Faço desde os 3 anos. Na aldeia, aprende-se com a tinta do jenipapo. Fiz até uma camiseta com ele que iremos lançar para o verão. Jenipapo é uma fruta da qual extraímos um líquido e o deixamos uma noite no sereno. Quando aplicamos na pele, ele pinta por uma semana a 10 dias e possui coloração escura.

No passado eu dava oficinas para crianças e participava de festivais de saberes indígenas, ensinando sobre a arte tribal. Conheci o Hilbert [proprietário da pousada] em 2008, através do meu irmão, que inclusive ajudou a dar o nome da pousada. Ele [o proprietário] foi conhecer a nossa aldeia e se encantou com nosso artesanato e matérias-primas. Depois, enviou duas almofadas para eu desenhar o que eu quisesse. Fiz uma pintura tribal e ele gostou. Mandou mais 20. Pegou confiança e me chamou para trabalhar exclusivamente para eles. Hoje, além de almofadas, eu faço roupas, bolsas, sapatos, acessórios, móveis, quadros. O pessoal da minha aldeia ajuda a fabricar os óleos de coco e de Alméscar, que serve para evitar estrias nas mulheres grávidas, para o fígado e picada de inseto, entre outros benefícios.

E da onde vem sua inspiração para suas pinturas?
Nossa inspiração abrange o Auê – amor, união e espiritualidade – e a gente se inspira muito na floresta e nos animais. Ontem mesmo eu peguei um besourinho lá em casa e fiquei reparando cada detalhe dele, provavelmente vai virar arte. A mesma coisa faço com cobras e outros seres da floresta, como as plantas. Para mim, é muito difícil ficar muito tempo em Trancoso. Preciso ir para minha aldeia, justamente para viver aquilo, me inspirar, reviver minha essência. Quando volto, a inspiração volta comigo e consigo trabalhar melhor.

O que mais você aproveita para fazer quando tem a chance de passar um tempo lá?
Gosto de tomar banho de cipó grosso, como um ritual de limpeza, com folhas da aroeira e urucum. Essa limpeza espiritual atrai entidades de luz.

Se alguém de fora da tribo quiser conhecer sua aldeia, viver uma experiência dessas de limpeza e se consultar com um pajé ancião, será bem-vindo?
Sim, sim. Serão super bem-vindos. É uma área de preservação ambiental lindíssima, numa falésia de 1.800 metros de altura, há uns 70km de Trancoso.

Foi um prazer conhecer você e sua cultura, Tapurumã. Haux Haux.

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