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A cada dois minutos, uma pessoa morre no Brasil em decorrência de doenças cardiovasculares, segundo a Sociedade de Cardiologia do Estado de São Paulo. No mundo, diz a Organização Mundial de Saúde, elas ainda não foram superadas por nenhuma outra enfermidade no ranking de causas de morte não-violenta. Desde que foi diagnosticado com hipertensão, aos 25 anos, o aposentado Josué Guilherme de Medeiros, agora com 74 anos, luta contra as estatísticas. Em 1998, quando teve um infarto, achou que perderia a briga. Mas como ele mesmo gosta de dizer, nunca foi de desistir de nada.

A pressão alta crônica quase nunca dá sintomas, mas é a causa por trás de boa parte dos números desse ranking – responde por 40% dos infartos, 80% dos derrames e, junto com a diabetes, com quem frequentemente anda de mãos dadas, a metade dos casos de doença renal terminal. Seu Josué é um dos 30 milhões de brasileiros que, de acordo com o Ministério da Saúde, têm hipertensão arterial sistêmica.

“Eu sentia dor de cabeça, não consegui dormir, trabalhava muito”, lembra-se, da época em que recebeu o diagnóstico. Desde então não se desgruda mais da sua bolsinha de medicamentos. Quinze anos depois, mais uma má notícia: à hipertensão, havia se juntado a diabetes. “Tenho tudo o que não presta. Dois inimigos vivendo dentro de mim”, queixa-se.

 

A hipertensão é uma doença com a qual você não se acostuma. Todo dia presto atenção no coração, se está disparado. A alimentação é regrada, não posso comer nada de sal nem de açúcar. Quando viajo, carrego uma malinha só com os remédios e preciso dar explicações para o pessoal do aeroporto."
Josué Guilherme de Medeiros


Nem sempre a receita médica de Josué foi tão grande. Como a tendência, com a idade, é que as veias fiquem mais grossas, as dosagens naturalmente aumentam. Por isso, embora o governo disponibilize os medicamentos básicos da hipertensão na Farmácia Popular, Josué prefere pagar pelas dosagens maiores, que não estão disponíveis de graça – ou veria seus 18 comprimidos diários se multiplicarem.

“60% dos pacientes de pressão alta precisam de mais de um medicamento para tratar o problema. Poucos conseguem controlar a doença com uma única droga”, explica o cardiologista Fausto Stauffer, coordenador de cardiologia do Hospital Santa Lúcia Norte e diretor de Pesquisas da Sociedade Brasileira de Cardiologia.

Giovanna Bembom/Metrópoles

 

Baixa adesão
O remédio pode até sair de graça. Quando não, não chega a ser considerado de alto custo – um medicamento do tipo losartana, principal tratamento para controle de pressão, sem a tarja de genérico fica na faixa dos R$ 40. O genérico pode ser encontrado por menos de R$ 11. Mesmo assim, os especialistas calculam que não mais que 30% dos pacientes faça o tratamento da forma correta.

Primeiro porque tomar uma sequência enorme de medicamentos por si só já desanima muita gente. Segundo porque, justamente por ser assintomática na maior parte dos casos, muitos pacientes não dão a devida atenção que a doença merece.

Além disso, discute Stauffer,  mesmo que os medicamentos sejam encontrados de graça quase sempre, muitos médicos preferem dar receitas conjugadas ou com dosagens diferentes das encontradas no sistema público de saúde, sem explicar para o paciente que, por mais que seja mais incômodo, existem alternativas grátis ao dinheirinho que ele deixa todo mês na drogaria.

“O paciente consegue fazer um tratamento adequado pelo SUS, mas muitos médicos não passam os medicamentos fornecidos pelo governo e não informam o paciente sobre isso. Preferem uma opção combinada a um diurético, por exemplo, que facilita a vida do paciente. Mas se ele quiser tomar o remédio e o diurético separados, sai de graça”, diz Stauffer.

Do lado de lá
Pela Constituição Federal, todo brasileiro tem direito à saúde. Mas não é só por isso que o tratamento de hipertensão – de boa qualidade, segundo Stauffer – é fornecido de graça. Tratar o hipertenso antes que ele vá parar numa emergência com um infarto é muito mais barato do que arcar com leitos hospitalares, medicações e equipe médica para acudir a emergência. E se considerando que um quarto da população tem a doença, o custo não valeria o desleixo.

“O que se sabe é que o custo para o sistema é alto quando você não trata do paciente de forma adequada. Porque demanda mais consultas, mais medicação e até hospitalização para controle dessa pressão ou das complicações”, reforça a cardiologista Frida Plavnik, vice-presidente da Sociedade Brasileira de Hipertensão.

Além dos medicamentos, o governo também precisa fornecer a chamada “cesta básica” de exames do hipertenso, que incluem procedimentos baratos e simples, como checagem periódica de função renal, urina e eletrocardiograma. Juntos, os exames ajudam a entender doença e paciente e evitam internações desnecessárias.

“A princípio, você não precisa internar um paciente por pressão alta. Provavelmente esse paciente que chega à emergência não está tomando o remédio e isso gera um custo para o sistema de saúde. Ele está usando um leito que poderia ser usado em outra situação, por exemplo”, complementa Frida.

 

A série Melhor Prevenir traz semanalmente informações sobre os custos de algumas das doenças crônicas no Brasil — tanto para o bolso do paciente quanto para os cofres públicos. O projeto reúne números sobre a diabetes, hipertensão e a doença renal. Juntas, elas matam 375 mil pessoas por ano no Brasil.



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