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Principal financiadora de obras de infraestrutura do Governo do Distrito Federal, a Agência de Desenvolvimento do DF (Terracap) passa por uma crise sem precedentes na sua história. O último balanço divulgado pela estatal traz números que deixaram o Palácio do Buriti em alerta, já que a empresa é fiadora (oferecendo terrenos como garantia) de contratos bilionários firmados pelo Executivo local em parcerias público-privadas e com bancos. Em apenas um ano, a venda de imóveis despencou 78,6% e o lucro líquido da companhia caiu quase 100%.

A arrecadação, que chegou a R$ 917 milhões em 2014, minguou para R$ 196 milhões em 2015. O desempenho pífio fez a receita desabar, de um ano para o outro, de R$ 1,6 bilhão para R$ 360 milhões, queda de 77,63%. Pior: o lucro líquido (deduzidos os impostos e taxas) reduziu-se de R$ 778 milhões para R$ 19 milhões, 97,52% menor. A performance ruim recai diretamente nos investimentos públicos no Distrito Federal.

E, de fato, há motivos para preocupação, já que a alavanca pública de geração de receitas e negócios está à beira da insolvência. “Se o balanço se mantiver negativo, pode chegar o momento em que os custos fixos da Terracap não vão conseguir se cobrir e ela não se manterá”, antecipa o economista e professor da Universidade de Brasília (UnB) Roberto Piscitelli.

 

 

 

Se o cenário está ruim, as previsões não são nada otimistas. Deduzindo os R$ 90 milhões de venda de terrenos que são do GDF, o faturamento da Terracap nos sete primeiros meses de 2016 foi de R$ 122 milhões. A exclusão é necessária, já que os recursos do governo local não se somam aos da empresa.

Se projetarmos para 12 meses, o valor arrecadado com as negociações chegará a R$ 215 milhões. Mantido esse desempenho – o que não será fácil, pois o estoque de terrenos está acabando -, serão R$ 645 milhões em vendas até 2018. Venda, registre-se, a prazo.

Nesse período, essas vendas devem render R$ 360 milhões à companhia. O saldo, em bancos e aplicações financeiras, era de R$ 246 milhões, em 31 de dezembro de 2015. A carteira de recebíveis, na mesma data, foi de R$ 1,843 bilhão, dos quais cerca de R$ 1 bilhão, no máximo, deve entrar nos cofres até 31 de dezembro de 2018.

Assim, o ingresso total de recursos até dezembro de 2018 deve ser igual a R$ 1,606 bilhão. Ocorre que as despesas foram de R$ 523,9 milhões em 2015. Em 2016, devem ser de R$ 566 milhões; Em 2017, R$ 605 milhões. E, em 2018, R$ 640 milhões, prevendo inflação de 8%, 7% e 6%, respectivamente.

Levando em consideração os cálculos, a despesa total até 2018 chegará a R$ 1,811 bilhão. Isso significa dizer que em 2018 a Terracap pode fechar no vermelho e até quebrar, uma vez que a despesa até lá será superior em R$ 205 milhões em relação ao total de ingressos de recursos.

Especialista em ciência política e professor da UnB, David Fleischer analisa com preocupação o balanço da Terracap. “A agência sempre levantou dinheiro para o governo. Se a situação não melhorar, vai afetar muito os imóveis em garantia. O que pode ser feito para tentar reverter o quadro, já que a empresa não consegue vender os terrenos, é fazer parcerias, arrendamentos”, sugere.

Mergulho na crise
A Terracap não vive um bom momento desde 2013, quando se viu obrigada a custear a construção do novo estádio Mané Garrincha. O desembolso foi de R$ 1,8 bilhão. Já no limite da sua capacidade financeira, a situação se agravou com a redução dos estoques de terrenos, a crise econômica e, principalmente, a falta de estímulos dos empresários de investir no DF em função da demora na aprovação de novos empreendimentos pela Central de Aprovação de Projetos (CAP).

O vice-presidente da indústria imobiliária do Sindicato da Indústria da Construção Civil do Distrito Federal (Sinduscon-DF), João Accioly, atribui grande parte da queda nas vendas da Terracap à burocracia do governo local.

O cenário econômico não está bom, mas a gente vem com histórico de entraves e amarras e isso teve reflexo no balanço. Normalmente, quando as construtoras fazem aquisições de terrenos, não querem especular, mas construir o mais rápido. Só que aqui no DF esperamos até dois anos para aprovar, licenciar a documentação e começar a obra. É tempo demais."
João Accioly, vide-presidente do Sinduscon/DF

Justificativas
No balanço, reconhece as dificuldades e atribui a dificuldade nos negócios, em parte, à grilagem de terras. Entre os argumentos utilizados pela empresa para justificar o desempenho ruim também estão a situação econômica do país e a alta inadimplência.

“Tal fato impactou diretamente a receita da Terracap, pois, nesse contexto, encontram-se reduzidas as vendas de imóveis oferecidos em licitação pública, como, ainda, diante da atual conjuntura econômica, vários empresários passaram a ter imóveis em estoque e dificuldade para colocar seus produtos no mercado, em função da queda de poder aquisitivo dos consumidores”, disse a empresa em nota.

A estatal faz uma relação de medidas para melhorar a situação, como tentar atrair mais clientes; criar programas que diminuam a inadimplência e até renegociação de imóveis, que permite a devolução dos terrenos aos compradores que não conseguem pagar a prestação. E garante que a companhia não corre risco de ficar insolvente.

 

 

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