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Depois da coluna do dia 25 de julho, sobre os poetas e poetisas brasilienses, recebi muitas mensagens dando conta de gente muito boa que ficou de fora daquele levantamento. E eu mesmo conheci muitos poetas de Brasília que não conhecia àquela altura. Alguns deles com muita potência e substância. Por isso, resolvi fazer um complemento do primeiro texto, com uma segunda leva de bons poetas brasilienses.

Começo com uma ótima surpresa, dica do escritor André Giusti: Wélcio de Toledo. Ele já está em seu segundo livro: “Subversos”, com edição primorosa da Editora R&F Pé de Letras. A editora de Goiânia também é, em si, uma grata surpresa, com catálogo curto, mas claramente preocupado com a qualidade do texto. Tanto que foi a editora que pescou o poeta, em um evento em São Paulo. A editora tem visão.

Wélcio trabalha muito bem o elemento visual do poema. A primeira parte de “Subversos”, aliás, é toda composta de poemas sobre fotos. Distribui, ainda, ao longo do livro, poemas onde o movimento do verso é parte integrante da criação poética. A temática também é madura, fruto da experiência do poeta quase chegando à meia-idade, de cabelos longos, mas de pé no chão.

Outra ausência na coluna que não pode ser perdoada é a de José Sóter, justo ele, com seus 15 livros publicados e com sua militância mimeográfica, que publicou tantos poetas marginais de Brasília – se não todos – nos anos 1970, 1980 e 1990. Seu último livro “#Agrestina” acaba de ser lançado pela SEMIM Edições. Semim significa exatamente Sóter Edições Mimeográficas, para celebrar sua tradição, e para celebrar a união da tradição com o novo.

Apesar dos quarenta anos de atividade, Sóter é um autor com muita jovialidade e bastante criatividade. “#Agrestina”, por exemplo, vem em formato de agenda, com uma caneta apensada que, segundo o autor, servirá para o leitor escrever seus próprios poemas e anotações nas páginas em branco e se tornar co-autor do livro. São mais de 110 poemas – a grande maioria curtos, quase aforismos -, que formam um grande mosaico. Para quem espera um livro de memórias nordestinas, por causa do nome do livro, um alerta: trata-se apenas de uma homenagem ao Agreste, já que o autor é goiano de Catalão.

Surpresa boa também foi ter tomado conhecimento de “Arame Farpado”, da mineira neocandanga Lisa Alves (foto no alto da página). O livro é o primeiro da poetisa e foi lançado em 2015, de forma independente, pelo selo Nyx Poética. Foi selecionado para o calendário de lançamentos da III Bienal do Livro de Brasília, que ocorre no Mané Garrincha, de 21 a 30 de outubro. O colunista aqui será vizinho de lançamento da poetisa.

O livro, além do nome forte, chama atenção também pela capa – produzida pela esposa de Lisa -, com um casal de mulheres sem rosto celebrando um casamento em meio ao arame farpado e, ao que parece, a parede de madeira de uma casa antiga. Essa combinação de referências cruzadas é bastante comum nos poemas de “Arame Farpado”, já que as temáticas saltam, sem cerimônia, do universal ao particular e intimista.

A autora, pelo que pude pesquisar, costuma responder a perguntas sobre o risco de sua poesia ser rotulada de militante LGBT – ou qualquer outro movimento. Posso afirmar que não há nenhum risco de redução, seja porque o leque de assuntos já foi aberto o suficiente neste primeiro livro para evitar enquadramentos empobrecedores, seja porque a forma e a linguagem, em “Arame Farpado”, já têm peso suficiente para dialogar e contrabalançar a temática, por vezes engajada.

Reprodução

Mais um autor que me escapou no primeiro texto foi o goiano, radicado em Brasília, Elias Antunes. Tem quatro livros de poemas e quase uma dezena de publicações em outros gêneros, incluindo um romance finalista do Prêmio Jabuti de 2011 “Suposta biografia do poeta da morte”. Seu livro de poemas “Sobre o movimento das pedras”, de 2009, foi ganhador do Prêmio Hugo de Carvalho Ramos, da Prefeitura de Goiânia, e revela um poeta atento à linguagem e preocupado com a clareza.

Andando no fio da navalha entre a erudição e o arrebatamento do leitor médio, Antunes tece um fluxo contínuo de consciência, sem cair no senso comum. O conteúdo do livro merecia, entretanto, uma edição mais apurada. Um autor para se prestar atenção.

E o multipremiado Anderson Braga Horta também havia ficado de fora. Sacrilégio. Para alguns, Horta é o poeta mais maduro atualmente em Brasília. O mineiro, formado no Rio, e morador de Brasília desde 1960, foi ganhador do Jabuti, em 2001, com “Fragmentos da Paixão: Poemas reunidos”. O poeta é ativo nas entidades de representação dos escritores: é o primeiro secretário da Associação Nacional dos Escritores e também na Academia de Letras do Brasil.

Além de seus próprios poemas, Horta é conhecido nacionalmente pelas traduções, especialmente de poetas em língua espanhola e francesa, mas também em inglês e italiano. Lançou neste ano, pela Thesaurus, uma coletânea de artigos sobre a produção poética de Brasília “Do que é feito o poeta”. O livro não deixa de ser um manancial para esta coluna, mas muitos ali tratados ou retratados já não estão produzindo atualmente.

Mais um que ficou de fora injustamente do primeiro levantamento é Marcos Freitas. O engenheiro piauiense já conta com pelo menos quatro publicações, o último “Sentimento Oceânico”, de 2015, publicado pela Catramano.

Também pude conhecer novos grupos, que, coletivamente, seguem estimulando e divulgando a produção poética brasiliense, entre eles o Celeiro Literário, com sua militância na Feira da Torre, liderados pelos incansáveis Ismar de Abreu e Fernando Mousinho; o Coletivo de Poetas, com sua produção articulada, com Menezes y Morais, Jorge Amâncio, João Carlos Taveira e Alan Viggiano; e a Tribo das Artes, com a poesia cantada de Ruiter Lima e o ativismo de Luiz Felipe Vitelli. Essas plêiades (coletivo de poetas) estão na estrada há anos e seguem com toda energia.

Sob pena de cometer nova injustiça, é necessário citar alguns poetas que tive contatos nesses últimos meses – ou que descobri que têm uma obra por descobrir -, mas que ainda não tive acesso às suas publicações. Assim, ficam para uma nova oportunidade: Renato Fino, com “Debaixo do céu do seu vestido”; Joãozinho da Vila, com “Meu masculino é feminino”; a obra de Antonio Carlos Osório, falecido em abril deste ano; e o jornalista José Carlos Vieira, com “Poemas de paixões e coisas parecidas” e “A alma e o e-mail”.

Fora isso, ainda estou esperando saírem do forno as publicações de Seirabeira, André Giusti, Nilva Souza (Áurea Valentina), Tati Carolli, que compuseram o Poesia Nua, Ceiça Targino e Rafael Daher, todos preparando surpresas para os leitores de poemas.

Reprodução

Mas para quem se aprofundar mesmo na poesia brasiliense, além do já citado livro “Do que é feito o poeta”, de Anderson Braga Horta, vale a pena uma olhada no “Dicionário de Escritores de Brasília”, de Napoleão Valadares, e no portal Brasília Poética (www.brasiliapoetica.com.br), mantido pelo jornalista José Rangel. Trata-se de uma compilação dos poemas que tem a capital como tema, em seus mais diversos aspectos. É entrar para não sair mais: já são perto de 40 mil poemas. Para fechar, um de lá, que é o resumo da coluna de hoje.

Brasília tem
uma esquina
em cada poeta
e um poema
a cada esquina"
Portal Brasília Poética

 

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