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O homem que foi detido e solto na quarta-feira (30/8) após ejacular em uma jovem dentro de um ônibus, em São Paulo, tem outras 16 passagens semelhantes na polícia, registradas nos últimos oito anos. O modus operandi de Diego Ferreira Novais é o mesmo: dentro do ônibus, ele se aproxima da vítima, mostra o pênis e, eventualmente, passa o órgão nela ou ejacula.

A história de uma das vítimas dele se destaca. G., de 24 anos, sofreu assédio sexual da mesma forma que todas as outras, em março, na Avenida Paulista. A jovem e seu agressor foram ao Juizado Especial Criminal na segunda-feira (28) para depor — um dia antes de ele assediar a outra moça.

Ela narrou o episódio ao jornal “O Estado de S. Paulo”. “De repente, senti uma coisa no meu ombro, no meu braço. Olhei e ele estava passando o pênis em mim. Fiquei em choque, não consegui gritar”, relembrou G. Ela acrescentou que relatou ao motorista sobre o abuso e o pediu para fechar as portas e chamar a polícia.

Porém, o agressor forçou uma das portas e escapou. “Acho que, como ele não tinha fechado a calça, não conseguiu correr direito. As pessoas do ônibus foram atrás dele, que saiu pelo meio dos carros na Avenida Paulista”, contou. A vítima recordou que recebeu amparo de outra jovem, que também havia sofrido abuso sexual.

“A sensação que dá é que minha palavra não serviu para nada”, lamenta. “Eu não sou ‘punitivista’ nem acho que ele deveria pegar uma sentença longa por esses crimes, mas também não pode continuar fazendo isso com mulheres. É muito frustrante.”

A jovem sugere alternativas, caso a sentença de ato obsceno se confirme, como o juiz determinar atendimento psicológico ao agressor.

Veja abaixo o depoimento de G.: 

Estava voltando da faculdade, em março. Era por volta das 20h e o ônibus não estava muito cheio. Eu me sentei ao lado de um rapaz de fone de ouvido e lia, ironicamente, “As Boas Mulheres da China”, um livro que fala da violência contra as chinesas. Reparei que ele estava sentado mais à frente e, perto de uma parada, se levantou e ficou em pé do meu lado, com uma mochila na frente. Lembro que eu estava de decote e não fiquei confortável com ele ali e até coloquei o livro no colo, com medo de que estivesse olhando. 

Vi que ele estava mexendo na mochila, achei que fosse dentro, mas não era. Fiquei olhando para a janela, mas de repente senti uma coisa no meu ombro, no meu braço. 

Olhei e ele estava passando o pênis em mim. Fiquei em choque, não consegui gritar. Fui correndo falar para o motorista que fui assediada, para fechar as portas e chamar a polícia. Não conseguia gritar. 

Ele forçou a porta e conseguiu sair. Acho que, como ele não tinha fechado a calça, não conseguiu correr direito. As pessoas do ônibus foram atrás dele, que saiu pelo meio dos carros na Avenida Paulista. 

As pessoas começaram a gritar: “segura ele”, “estuprador”. Acho que dei “sorte” por ser na Paulista, em um horário cheio de gente, porque talvez se fosse tarde da noite as pessoas não estariam dispostas a ajudar. Formou uma “muvuca”. Fiquei com medo de linchamento, porque estavam todos muito bravos. Não bateram, porque eu pedi. Sou contra essas coisas, acho que é vingança, não justiça. 

Meu sentimento foi de raiva. Chorei muito, senti repulsa. Depois fiquei meio anestesiada. Fui ajudada por uma moça que estava no ônibus e ficou comigo até o fim do dia na delegacia. Ela tem mais ou menos minha idade e também já foi assediada uma vez. Fizeram a mesma coisa em um trem e ninguém a ajudou. 

Naquele momento, só pensava que aquilo não poderia acontecer de novo com uma outra mulher.

 

 

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