Um pouco sobre a vida acadêmica de um pesquisador de quadrinhos

As 6ª Jornadas Internacionais de Histórias em Quadrinhos reservaram momentos únicos de debates

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atualizado 28/08/2019 19:17

Nem todos sabem disso, mas a vida acadêmica é extremamente custosa, com muito alto grau de exigência, por vezes extenuante. Não vou falar sobre dificuldades financeiras, a precariedade das bolsas de estudos (ainda mais agora…), a intensa competitividade e o funil estreito que leva a uma parca luz no fim do túnel. Muitos pesquisadores duvidam de suas capacidades, entram em depressão, se autossabotam. Quero falar apenas da dificuldade específica ligada diretamente à pesquisa. A dificuldade metodológica.

Escolher um objeto de pesquisa, levantar seu “estado da arte” (ou seja: dar uma olhada no que já foi pesquisado), pensar sobre ele dentro de uma das inúmeras maneiras de se abordá-lo, decidir-se entre fazer um levantamento e processamento de dados ou uma discussão mais teórica, além de dar ênfase e recortá-lo de maneira que fique preciso e minimamente objetivo. Tudo isso suscita dúvidas e espalha armadilhas no caminho.

Dialogar com outros autores – quando um oceano interminável de ideias e correntes de pensamento estão disponíveis – é também uma angústia terrível e solitária. O trato com os escritos do outro (citações e menções) é de uma delicadeza fragilíssima. Uma tese ou uma dissertação é um infinito e multidimensional jogo de varetas em que qualquer movimento em falso pode pôr tudo abaixo.

No entanto, a vida acadêmica guarda suas alegrias, e é também disso que quero falar. A audácia de certos objetos de estudo, por exemplo. Semana passada viajei a São Paulo para participar das 6ª Jornadas Internacionais de Histórias em Quadrinhos. É o maior congresso acadêmico brasileiro sobre o assunto. Com algumas exceções, bato ponto nesse evento desde a sua primeira edição, em 2011, quando apresentei uma relação entre estética e história a partir de quadrinhos de guerra do argentino Héctor Oesterheld e do americano Harvey Kurtzman. Devo confessar que a minha pesquisa acadêmica majoritária é sobre cinema, mas essas jornadas despertam a vontade de pensar relações mais profundas e ocultas entre HQs, comunicação, filosofia e cultura. Trato como spin-off de luxo.

As Jornadas são organizadas pelo Observatório de Histórias em Quadrinhos da Escola de Comunicação e Artes da USP. Em 2019, tivemos recorde de comunicações: mais de trezentas, abordando todo tipo de relação que os quadrinhos podem estabelecer com a história, a estética, a educação, a linguagem, etc. Cada mesa se torna um curioso microcosmo, com suas particularidades, algumas com debates e controvérsias intermináveis, outras com chistes lendários, e muitas com laços acadêmicos fortalecidos, além de perspectivas de pesquisa compartilhadas.

Porém, estes ambientes acadêmicos vão além da mera formalidade de pesquisa e da troca de autores. Há uma interação humana errática – como se a fria letra da universidade tomasse um desvio de percurso – em que amizades (muitas vezes gente que é apenas “amigo de Facebook”) são estreitadas, e os tipos excêntricos, corajosos o suficiente para dedicar seu esforço universitário (conforme descrito lá em cima) para um tema ainda “marginal” como os quadrinhos, se revelam com audácia e profundo amor à causa.

As mesas de comunicação são trocadas pelas mesas de bar, e os congressistas se imiscuem nos quadrinistas. O fazer passa a provocar o pensar, e uma inteligência coletiva (inevitavelmente inebriada) pulsa em direção ao crescimento do campo. Tudo isso denota a importância desta forma de expressão, linguagem e comunicação para as pessoas de hoje, e o esforço que se empreende para compreendê-la.

Em 2019, as Jornadas não decepcionaram. Trouxeram palestras relevantes: a Dra. Carol Tilley, da University of Illinois Urbana-Champaign, apresentou dados novos sobre Fredric Wertham, o psiquiatra que protagonizou uma perseguição aos quadrinhos nos anos 1950, em uma pesquisa empírica. Tivemos um painel “O Protagonismo Negro nos Quadrinhos”, com o professor e quadrinista Marcelo D’Salete (autor do multipremiado Angola Janga) e o professor da UFRJ Nobu Chinen, que lançava seu livro O Negro nos Quadrinhos do Brasil, resultado de uma pesquisa de doutorado. Ainda pudemos conhecer um pouco da história dos quadrinhos colombianos com a palestra do professor José Campo, outro nome internacional.

De minha parte, apresentei um início de pesquisa, junto ao professor da UNISUL Alexandre Linck Vargas, intitulada Imagens Silenciosas do Porvir: Quadrinhos Mudos e Poéticas Distópicas. Bem, como explicar? Trata-se da ideia básica de que o silêncio de certos quadrinhos mudos (sem palavras) rompe com o primado da ordem racional, atingindo a imagem em si desses quadrinhos, que se tornam traumáticos, repetitivos, distópicos. Analisamos HQs do brasileiro Rafael Sica e do argentino Lucas Varela. No congresso, rendeu uma porção de inquietações sobre silêncio, trauma, narrativas, hiatos e distopias. Na mesa de bar, uma outra leva de piadas, bravatas e digressões fraternas. Estava tudo em casa, afinal.

Duas perguntas a um dos professores organizadores do evento, Nobu Chinen

Como você avalia o crescimento do campo dos quadrinhos no Brasil em relação a outras formas de expressão artística como cinema e literatura?
Considerando que em relação a esses outros campos o desenvolvimento dos quadrinhos como objeto de pesquisa foi tardio, até que os avanços têm sido muito expressivos. No levantamento feito pelos professores Waldomiro Vergueiro e Roberto Elísio dos Santos, somente na primeira década dos anos 2000 foram feitas mais pesquisas sobre quadrinhos do que nos 50 anos anteriores. As Jornadas Internacionais de Histórias em Quadrinhos ano a ano batem recordes no número de inscritos e, consequentemente, de artigos produzidos. Também nas categorias acadêmicas do Prêmio HQMIX, o número de trabalhos submetidos tem se mantido significativo. Este ano, entre TCC, dissertação de Mestrado e tese de Doutorado foram mais de 30 inscritos, a maioria de excelente qualidade. São evidências positivas que comprovam a evolução do campo.

Como você acha que o estudo de quadrinhos impacta nossa sociedade?
Não creio que as pesquisas sobre quadrinhos tenham impacto direto na sociedade e acho que nem é essa a função delas. O que fazemos é tentar compreender um fenômeno, que é a cultura pop, e suas manifestações, entre as quais, os quadrinhos. Esses sim têm um inegável impacto no consumo e no comportamento da sociedade. É claro que, quanto mais compreendemos o fenômeno mais entendemos a sociedade e, aí sim, podemos propor temas ou práticas educativas que irão, de alguma forma, contribuir para a sociedade.

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