Bone, relançado no Brasil, é divisor de águas do romance gráfico

Trata-se de uma curiosa aventura que se expande em inúmeras direções

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atualizado 20/12/2018 8:21

O que faz de Bone – uma megalítica saga publicada por Jeff Smith em 55 edições (entre 1991 e 2004) – um divisor de águas na história dos quadrinhos? Agora que esta obra de referência está finalmente sendo relançada no Brasil (em sua versão em cores), o momento é certo para refletir sobre seu legado e influência. A cortesia é da editora Todavia, que acaba de soltar o primeiro volume, coletando as suas 20 primeiras edições (448 páginas). Outros dois devem se seguir até 2019, completando as 1.332 páginas da história completa.

Bone trata, na forma de uma curiosa aventura que se expande em inúmeras direções, de um desbravar mágico em busca do sentido da vida. Não à toa, a referência máxima citada nestes quadrinhos é Moby Dick, notório romance em que a jornada em si é mais importante que seus objetivos.

Os guias dessa história são os primos Fone, Phoney e Smiley, três “bones”, criaturas que parecem a mistura de um Smurf com o Gasparzinho, habitantes de um mundo caipira, com teor de fantasia medieval. Expulsos de sua cidade Boneville, eles trilharão um longo percurso até que o “chamado à aventura” seja recompensado com um “regresso à normalidade”.

Quem folhear um gibi de Bone talvez não vá se impressionar. Em alguns aspectos, sua empaginação simples poderia ter saído de um quadrinho do Pato Donald ou até da Mônica. O mérito desta obra está em seu drive narrativo clássico: grandes atos divididos em sequência consistentes, cheias de expectativa e emoção, amparados por personagens carismáticos que se desenvolvem, crescem, mudam. Mas é justamente que está a singularidade de Bone: seu rejeitado aspecto “Disney” é também parte importante de seu êxito artístico.

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Influências e legado
Uma primeira parte da importância histórica de Bone é a recuperação de uma cultura da era de ouro das tiras de jornal americanas e das animações e quadrinhos Disney antigos. Uma olhadela nos bichinhos de Jeff Smith é o suficiente para notar a semelhança com o traço cartunesco, redondo e alegre do gambá Pogo. Este quadrinho, que circulou nas Sunday Strips americanas entre os anos 1940 e 1970, é criação do insuperável Walt Kelly, que, não à toa, trabalhara em animações Disney do Pato Donald e até em filmes reconhecidos pelo rebuscamento estético, como Fantasia e Dumbo.

Os quadrinhos de Pogo traziam animaizinhos num pântano emulando aspectos da sociedade americana através de parábolas, paródias verbais e situações de desdobramento político – fazendo comentários sobre a sociedade da época – que os tornaram objeto de culto. Autores modernos como Art Spiegelman e o próprio Jeff Smith operaram uma recriação destas “animal strips” no percurso que trilharam para modernizar o conceito de “romance gráfico”.

 

Da mesma maneira, Bone apresenta uma dicção lúdica e por vezes infanto-juvenil. Porém, uma leitura de entrelinhas revela camadas de comentário social, desdobramentos éticos e até uma sensualidade que o tornam um produto estranho, indefinido enquanto gênero, situado num entroncamento de fronteiras da história dos quadrinhos.

De um lado, temos uma exaltação de tiras como Pogo e Lil’Abner (“Ferdinando”), que igualmente realizavam reflexões sobre o contraste entre a vida do caipira norte-americano e a corrupção destes valores presente nas grandes cidades. Do outro, o apreço pelo estilo simplista de Disney se manifesta na influência dos patos de Carls Barks, que justamente tiraram os quadrinhos da editora do puro slapstick e lhes incutiram forte storytelling, com sagas longas e personagens recorrentes.

Se, portanto, Bone fez o serviço de recriar o melhor dos quadrinhos de ouro americanos por meio de uma narrativa moderna e envolvente, ele também ajudou a sedimentar uma tendência que, nos hoje distantes primeiros anos da década de 1990, era certamente uma inovação. Jeff Smith passou por seu próprio calvário pessoal recebendo negativas de editoras e jornais até decidir publicar Bone independentemente, enviando os exemplares diretamente às lojas de quadrinhos, sem precisar devolver as sobras de estoque. As edições eram curtas, mas a história claramente propunha uma longa continuidade direta e um fim definido, algo que ainda havia sido pouco experimentado nas HQs americanas.

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Este modelo, que alterou a dinâmica comercial dos quadrinhos nos EUA, estava sendo utilizado pelos principais autores independentes dos anos 80 e 90, e favoreceu a criatividade e a originalidade frente aos desgastados super-heróis. Neste sentido, Jeff Smith foi também um pioneiro (junto a outros como Dave Sim, os Irmãos Hernandez, Wendy e Richard Pini, etc.) do romance gráfico contemporâneo, gênero que hoje consagra a mídia dos quadrinhos como uma das mais importantes da atualidade.

Bone é uma saga de redenção que margeia a espiritualidade, envelopada no formato e no design de um quadrinho infantil dos anos 50. Ele é frequentemente comparado ao Senhor dos Anéis, romance de semelhantes técnicas e temáticas, talhado também na forja da forma clássica, que coloca o indivíduo comum diante do destino do universo.

No fundo, temática new age à parte, ambas as obras (assim como Moby Dick) têm como maior mérito uma duração interminável e persistente, que parece dizer que uma boa história atinge seu ápice quando consegue ser contada em “mil e uma noites” seguidas, imperturbavelmente, sem distrair a atenção do leitor. E nos quadrinhos isso tem sido cada vez mais raro. Melhor ler mil páginas da riqueza cultural de Bone do que as zilhões de opções diferentes de super-heróis ainda disponíveis nas bancas.

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